{"id":264,"date":"2023-06-14T09:17:44","date_gmt":"2023-06-14T12:17:44","guid":{"rendered":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/?p=264"},"modified":"2023-06-15T15:17:18","modified_gmt":"2023-06-15T18:17:18","slug":"grafite-como-arte-de-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/grafite-como-arte-de-resistencia\/","title":{"rendered":"Grafite como arte de resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Por Laura Machado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Do movimento hip-hop, o grafite \u00e9 uma forma de democratizar o acesso da arte e revolucionar quest\u00f5es de cunho pol\u00edtico-social<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outra vez a esperan\u00e7a na mochila eu ponho,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>quanto tempo a gente ainda tem pra realizar os nossos sonhos.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Emicida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"> <\/p>\n\n\n\n<p>A arte de rua \u00e9 um convite para o olhar sens\u00edvel, cru e atento daqueles que vivem junto aos demais, s\u00e3o como os demais, mas ainda s\u00e3o ignorados, silenciados, violentados. Mais do que isso, essa arte \u00e9 uma forma de resist\u00eancia e empoderamento. Os artistas por tr\u00e1s dos desenhos e escritos s\u00e3o pessoas que observam com aten\u00e7\u00e3o o mundo que os cerca, levando em considera\u00e7\u00e3o a cultura e a realidade social do momento. Presente por toda a cidade do Recife, o grafite faz pulsar, mas afinal, o que define essa arte?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/6ELh6bgPt48sJ6mdMN6IkeJQ2Nm0uOzplQAhxzl_6wRdK0GwXRELwApCEgwyFdIocw99lzi6l1U0vnuNlT0415-Ctf2DT5WiyuNgJrQSoKrAYBZhlnDAFHK8KAni3wV6raMHnbMJ0nTIPMI0Tjr_ZJQ\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>O verbo grafitar, no dicion\u00e1rio online <em>Infop\u00e9dia, \u00e9 definido<\/em> como: \u201cdesenhar ou escrever em muros ou paredes de locais p\u00fablicos, geralmente com tinta em spray; fazer graffitis ou grafitos (em)\u201d. Apesar de verdadeira, essa forma de descrever a arte do grafite pode ser muito expandida, se tornando capaz de comportar a signific\u00e2ncia que cada pequena a\u00e7\u00e3o de grafitagem, coletivo e evento que acontecem. O grafite remete ao passado, mas \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural atual e contempor\u00e2nea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender a import\u00e2ncia do grafite para a sociedade \u00e9 necess\u00e1rio voltar para suas origens e perceber que, desde os tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, a linguagem sempre foi um meio de comunica\u00e7\u00e3o e o desenho se fez presente por toda a hist\u00f3ria, at\u00e9 a atualidade. Depois dos famosos desenhos em cavernas, os hier\u00f3glifos do antigo Egito s\u00e3o exemplos de ilustra\u00e7\u00f5es pintadas nas paredes cujo principal prop\u00f3sito era o de comunicar. No mundo das artes cl\u00e1ssicas, muitas das mais famosas pinturas foram constru\u00eddas em murais, tetos de capelas e igrejas, e outras superf\u00edcies n\u00e3o associadas a telas de arte. Todos esses movimentos hist\u00f3ricos ajudam a entender a necessidade humana do fazer art\u00edstico e mais do que isso, de expressar e resistir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista o processo hist\u00f3rico de forma\u00e7\u00e3o da arte de grafite, um dos principais pontos que torna-o indispens\u00e1vel para a sociedade s\u00e3o os artistas que o fazem. Dentre os muitos envolvidos na cena dessa arte na cidade do Recife e adjacentes, Mila Barros e Filipe Fil conversaram com O Berro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/pqNp0h_g2cexpBCpJp-YcG65y5JswS108c5NMoOY4Q0ckNcp0kvBoVesrL2Ekz5Xuyibgh9yGm_nQ5WggYs7eVIx7UlpwqGzxDj7z8Vv3ZHGwSAFlmE9GciifinJQ7d2j3RgRWUipPYIpN4XhEqkKhA\" alt=\"\" width=\"823\" height=\"548\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Mila, que al\u00e9m de ser artista visual e grafiteira, tamb\u00e9m \u00e9 educadora e m\u00e3e de um menino de nove anos. A artista come\u00e7ou a grafitar no ano de 2017 e hoje faz parte de diversos coletivos tal qual o <em>Coletivo P\u00e3o e Tinta<\/em>, <em>Pixe Girls<\/em> e <em>Coletivo Cabras<\/em>, al\u00e9m de atuar com o grafite de maneira direta. \u201cEu j\u00e1 tinha participado de alguns eventos, mas sempre na parte de produ\u00e7\u00e3o. Tinha muita vontade de pintar, mas o machismo na cena sempre foi um bloqueio. Apesar disso, foi em 2017 que eu entendi que era isso que eu queria para minha vida, era ali que eu me encontrava e me realizava\u201d, explicou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/vM6LgrlZGgsdNGsoKJy-057QObsNifQdmyFhmOt1GT5Q4V-T-RzK-eeZ1dd5EFksH5mC-OGdkZo4W9ykruevavd18aOj_wte1dHoXpwSNaujlSaJkUmCuYaUq6npBGSwHg2-zbK7nlHAKvyma3j3kS0\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Tendo seu in\u00edcio na cena do grafite ainda antes de Mila, o artista Luis Filipe, conhecido como Fil, come\u00e7ou a ter contato com a arte ainda crian\u00e7a: \u201cAcontece um evento de grafite na escola e foi quando eu descobri e fiquei encantado, pensei \u2018meu Deus, o que \u00e9 isso?\u2019. Fiz meu primeiro trabalho na rua em 2012, com 16 anos e foi uma experi\u00eancia horr\u00edvel (risos), todo mundo que passava falava mal, mas eu penso que se eu tivesse que parar, eu teria parado ali, no primeiro trabalho\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma pluralidade de estilos e t\u00e9cnicas art\u00edsticas, o grafite n\u00e3o possui uma forma \u00fanica de ser feito, sendo uma arte capaz de mutabilidade e que acontece em acordo com o mundo exterior. Parte do movimento hip-hop, essa arte foi utilizada nos Estados Unidos na d\u00e9cada de oitenta como forma de protesto e, de uma forma ou de outra, isso segue at\u00e9 os dias de hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Mila, o grafite nasce de uma emerg\u00eancia social e segue sendo uma \u201c ferramenta de constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica-social e de transforma\u00e7\u00e3o social, o que tem tudo a ver. Para mim a arte \u00e9 muito voltada para isso e eu n\u00e3o consigo dissociar a arte da pol\u00edtica. \u00c9 mudan\u00e7a, aceita\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o, de enxergar o que a gente faz como arte\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A artista observou desde sua entrada no mundo da arte como o grafite pode ser usado para clamar mudan\u00e7as, realizar den\u00fancias e expor o silenciamento de determinados grupos. Sendo assim, Mila criou como marca registrada a frase \u201cMais m\u00e3es no rol\u00ea\u201d, que busca incentivar mulheres com filhos a seguirem pintando, pixando, grafitando e, acima de tudo, vivendo a arte em sua integridade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUma das coisas que me chamava muita aten\u00e7\u00e3o dentro do movimento do grafite era a quantidade de mulheres que pararam de pintar quando se tornaram m\u00e3es, esse movimento me chamava aten\u00e7\u00e3o. E eu comecei a pintar j\u00e1 m\u00e3e e eu tenho grandes refer\u00eancias de todo o Brasil que pintam sendo m\u00e3es, mas apesar delas existirem, era um n\u00famero gritante de mulheres que pararam depois de serem m\u00e3es. Por isso eu comecei a espalhar pelo Recife a frase\u201d, explica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como mulher e m\u00e3e, Mila explica que sua arte n\u00e3o pode ser dissociada de sua maternidade e explica que atrav\u00e9s da arte de grafite, sentia-se livre, era capaz de entrar em acordo com suas pr\u00f3prias quest\u00f5es e estar em um ambiente s\u00f3 seu, particular.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/5fmtdGxDCReGyxJexYGMO2TjbmR0FWbVKpS1TSvW5FiFDCIYxEWB2Rpje2llY21-Z1x0heYS67mUvMUqQvGAN9VP7HIQtt1Oy2RpAHPUQQz-uL6kfM5wuFlLa6h_h2XFRlsvaKjBjLidLLt6182_bjk\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Voltada para a viv\u00eancia, a cultura do hip-hop e do grafite \u00e9 uma arte que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o particular de uma pessoa com a pintura, com seu local de vida, suas experi\u00eancias sociais e diversos outros fatores. Para Filipe Fil, \u201co grafite era uma forma de botar para fora, n\u00e9? De externar os sentimentos. A cena daqui tem suas problem\u00e1ticas, mas ainda assim somos muito unidos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO grafite \u00e9 o que voc\u00ea vive na rua, \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a sua ideia, sua vida\u201d, completa Barros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de carregar essa import\u00e2ncia, Fil ressalta que o preconceito est\u00e1 sempre presente: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o acontecer [o preconceito]. Existem pessoas que n\u00e3o gostam independente do que formos pintar, quando estamos na rua fazendo algo que as pessoas n\u00e3o acham que \u00e9 bonito e aceit\u00e1vel, elas n\u00e3o gostam. \u00c9 um estranhamento\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/c3qVdG5ISnCjBzHIgXfZVEnaePUMleNtDv2ap0FUv5ZoAEARi3HLRueLrB41IiEY4ZgfHjm9-oRxK6_7pR2MzxTrj3BXX35HW7xgtyo81_3v5bp3yBKaxcDxsEke8xTjLhyS5JE3UU-rhJBuSsZYX4A\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>O movimento da arte do grafite \u00e9 essencial para a sociedade e atua em levar a arte para pessoas que normalmente n\u00e3o ocupam ou visitam galerias e museus. A arte ainda \u00e9 muito vista como artigo de luxo e a inten\u00e7\u00e3o dos artistas grafiteiros tamb\u00e9m perpassa a luta pela democratiza\u00e7\u00e3o da arte. Atrav\u00e9s dos desenhos na rua, nos t\u00faneis, nas paredes, as pessoas podem respirar e se avistarem em uma obra de destaque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO grafite vem com um empoderamento de pertencimento. De sermos donos e donas da cidade e de colocarmos nela o que a gente quer ver. O muro branco dentro de uma comunidade \u00e9 um muro branco, mas um muro colorido, todo cheio de mensagem, de ideia, \u00e9 outra rela\u00e7\u00e3o que a pessoa constr\u00f3i com sua cidade\u201d, conclui Mila.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/iRf8PfvpDcxFPSuN0sTETgEfyYi9IIdGLjYKtGX3AK-HyXCW68ltDZ5exB0ZfkGOl4mlML90ABh7iWMYcANUc0DpO7l3O__0Z5nogy324kiUPIXi4KIfYcqduyUyZKDr4sQdjBEUtYbGQB_h5Tu4TSU\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Edi\u00e7\u00e3o: Rafael Gueiros<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O grafite \u00e9 o que voc\u00ea vive na rua, \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com a sua ideia, sua vida\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":300,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264"}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=264"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":500,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/264\/revisions\/500"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}