{"id":268,"date":"2023-06-14T09:36:39","date_gmt":"2023-06-14T12:36:39","guid":{"rendered":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/?p=268"},"modified":"2023-06-15T15:22:53","modified_gmt":"2023-06-15T18:22:53","slug":"mulheres-no-brega-funk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/mulheres-no-brega-funk\/","title":{"rendered":"Mulheres no Brega Funk"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Por Laura Machado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Em meio a uma cena predominante masculina, as mulheres que cantam e dan\u00e7am essa vertente do brega s\u00e3o representa\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Vivo, ardente e intenso, o brega funk \u00e9 mais do que um g\u00eanero musical derivado da transmuta\u00e7\u00e3o e jun\u00e7\u00e3o do funk carioca e do tecnobrega, \u00e9 um movimento metamorfo que finca suas ra\u00edzes em quest\u00f5es pol\u00edticas, sociais e culturais. Nascido em ber\u00e7o recifense, o ritmo se espalhou pelo estado de Pernambuco e, mais tarde, para o Brasil, sendo sucesso com as letras provocativas, roupagem e atitude confiante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo seus mais diversos atributos positivos, o som e a dan\u00e7a que se envolvem no brega funk s\u00e3o vorazes e s\u00f3 fazem crescer diante do cen\u00e1rio musical, com diversos artistas fazendo shows pelo territ\u00f3rio nacional, lan\u00e7ando novas m\u00fasicas e expandindo o g\u00eanero. Em um reflexo da sociedade, por\u00e9m, as mulheres no brega funk ainda s\u00e3o poucas e o mercado parece n\u00e3o possuir as mesmas portas abertas de oportunidade para elas. Apesar disso, as mulheres est\u00e3o l\u00e1, criando sons \u00fanicos, dan\u00e7ando pujantemente e acima de tudo, resistindo contra o sexismo na m\u00fasica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao Berro, a cantora e compositora Rayssa Dias e a dan\u00e7arina e licencianda em Dan\u00e7a pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Clara Soares, ou apenas Clarear, compartilharam suas viv\u00eancias dentro do mercado do brega funk, a realidade machista excludente e o olhar otimista \u2013 antes e acima de qualquer dificuldade \u2013 para um futuro mais feminino no brega funk.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-14-at-7.19.42-AM-1-683x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-281\" width=\"351\" height=\"526\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Rayssa Dias, fotografada por J\u00e9ssica Maia (@jezzmaia)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a realidade do cen\u00e1rio do brega funk no Recife?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>O brega funk evoluiu bastante e eu costumo dizer que ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um trabalho cultural, ele \u00e9 um trabalho sociocultural. O brega funk traz esperan\u00e7a para a comunidade, \u00e9 um grande impulsionador, est\u00e1 ali, tentando sanar as necessidades das pessoas que vieram de onde a gente tamb\u00e9m veio. Hoje em dia a cultura do brega funk \u00e9 mais do que s\u00f3 o movimento cultural, inclui o trabalho social que envolve uma grande camada dentro de Pernambuco. O brega funk \u00e9 isso. Dentro de Recife, o brega funk \u00e9 algo impulsionador de sonhos, de vidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Quando eu tinha por volta dos meus 18, 19 anos eu ia para o Marco Zero para dan\u00e7ar brega funk e era muito comum a gente ver v\u00e1rios sons rolando em partes da cidade, mas hoje em dia isso n\u00e3o rola mais e, quando acontece, est\u00e1 sempre tendo o empecilho policial, independente da propor\u00e7\u00e3o. Afrontava o sistema e antes de tudo eu queria trazer essa repress\u00e3o que existe hoje em dia. Mesmo assim, eu vejo que o brega funk est\u00e1 tomando uma propor\u00e7\u00e3o bem grande, est\u00e1 tomando o Brasil, a galera j\u00e1 notou o brega funk. Uma coisa que tem acontecido \u00e9 que est\u00e3o existindo aulas de brega funk em outros estados, o que \u00e9 muito massa, porque as pessoas que est\u00e3o lecionando s\u00e3o pessoas com viv\u00eancias nessa dan\u00e7a, que fazem parte desse movimento e por isso eu vejo o g\u00eanero hoje em dia com essa vis\u00e3o de que ele est\u00e1 tomando grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Copia-de-_DSC1206-3-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-286\" width=\"590\" height=\"393\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Clara Soares \/ Acervo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como se d\u00e1 a presen\u00e7a feminina no brega funk?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Hoje em dia a presen\u00e7a das mulheres no brega funk \u00e9 bem ativa. Antigamente n\u00e3o tinha isso, de existir mulheres no cen\u00e1rio. Quando eu comecei no brega funk eu pensava \u2018caramba, n\u00e3o tem muitas mulheres cantando brega funk\u201d, pensava: \u201cporque n\u00e3o ter uma mulher cantando brega funk de fato, botando as caras, estar ali para representar?\u201d. Ent\u00e3o eu canto brega funk desde essa \u00e9poca e acompanhei a evolu\u00e7\u00e3o de ver mulheres chegando na cena, o que \u00e9 muito incr\u00edvel. Hoje em dia as mulheres ocupam bastante espa\u00e7o, mas ainda podemos ocupar mais, n\u00e3o para por aqui, ainda tem que evoluir mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Existem figuras femininas, mas ainda \u00e9 em uma propor\u00e7\u00e3o muito menor quando comparada \u00e0s figuras masculinas. Quando tem essa representa\u00e7\u00e3o, na m\u00fasica principalmente, eu acho que elas s\u00e3o muito apagadas, n\u00e3o geram o mesmo <em>hype <\/em>que os caras geram. Se tratando das dan\u00e7arinas, rola muita sexualiza\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m desvaloriza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o meninas extremamente talentosas, mas que muitas pessoas possuem aquela vis\u00e3o tradicional de que elas s\u00e3o vulgares\u2026 ao meu ver enquanto artista e pesquisadora da dan\u00e7a, tem um lado tamb\u00e9m da influ\u00eancia dessa dan\u00e7a, das movimenta\u00e7\u00f5es femininas na dan\u00e7a tamb\u00e9m em outras express\u00f5es art\u00edsticas fora daqui. Inclusive, existe um campeonato em Lisboa onde tanto no ano passado quanto neste ano, eles colocaram aula de brega funk na grade, sabe? Eu acho que \u00e9 muito interessante pensar o cen\u00e1rio atual a partir disso, poxa, est\u00e3o em outro pa\u00eds tendo aulas sobre essa movimenta\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 massa, \u00e9 muito muito bom.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tanto no \u00e2mbito pessoal e art\u00edstico, qual \u00e9 a import\u00e2ncia que o brega funk carrega para voc\u00ea? O que essa arte lhe comunica?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Ao longo dos anos, isso foi mudando para mim, n\u00e9? Eu noto que, conversando com voc\u00ea, por exemplo, at\u00e9 minha fala sobre o brega funk mudou. No come\u00e7o, eu cantava brega funk porque n\u00e3o tinham pessoas como eu que faziam isso, era um cen\u00e1rio muito dominado por homens, n\u00e3o tinham mulheres. Havia um grande preconceito ainda para as mulheres gravarem suas m\u00fasicas, fazerem seus sons\u2026 a Rayssa Dias daquela \u00e9poca estava ali querendo ocupar um lugar de mulher, dizendo que a mulher pode fazer o que ela quiser, independente de qualquer coisa, inclusive estar inserida nesse cen\u00e1rio. Quando eu comecei foi por conta disso, dessa necessidade de se ter mulheres no movimento do brega funk, mas hoje em dia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 isso, porque mulheres surgiram e ocuparam esse espa\u00e7o. Hoje, Rayssa Dias no brega funk \u00e9 algo maior, eu estou tentando profissionalizar mais esse trabalho que eu j\u00e1 fa\u00e7o a muito tempo, hoje o brega funk para mim foi algo muito impulsionador na minha vida, de mudan\u00e7a de vida, toquei em muitos eventos importantes que me possibilitaram levar o ritmo para outros lugares e para mim, o brega funk \u00e9 vida, tem essa energia. N\u00e3o tem como falar dele e a gente n\u00e3o imaginar uma cor reluzente, algo que traga essa energia gigantesca. \u00c9 vida, esperan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Eu acho que o brega funk \u00e9 cultura viva, cultura de favela viva. \u00c9 um reflexo da gente tomando nosso lugar. Eu fico pensando na trajet\u00f3ria do brega funk, quando ainda nem era chamado assim, quando era chamado de <em>brega nojento <\/em>e vejo a evolu\u00e7\u00e3o dele. Isso \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para a gente, o g\u00eanero tem diversas refer\u00eancias daquilo que a gente vivencia na nossa cultura, \u00e9 uma fus\u00e3o, um grande combo e, para mim, \u00e9 resist\u00eancia, \u00e0 exist\u00eancia e o manter dele. \u00c9 resist\u00eancia, \u00e9 muito importante para a gente, Acredito que ainda n\u00e3o est\u00e3o preparados para pensar nessa modalidade como objeto de pesquisa mesmo, acad\u00e9mica e isso tamb\u00e9m \u00e9 muito importante e uma responsabilidade da gente enquanto acad\u00eamicos e praticantes da arte. Para mim, primordial \u00e9 a exist\u00eancia do brega funk.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-14-at-7.19.42-AM-1-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-288\" width=\"685\" height=\"384\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Rayssa Dias, fotografada por J\u00e9ssica Maia (@jezzmaia)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea falou sobre hoje a presen\u00e7a feminina ser muito mais consider\u00e1vel dentro do g\u00eanero, sobre existir muito mais mulheres no brega funk, mas voc\u00ea ainda percebe machismo tanto por parte do p\u00fablico quanto pela ind\u00fastria em si?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Sim. Voc\u00ea vai para uma casa de show de brega, quantas mulheres voc\u00ea v\u00ea que cantam o brega funk, n\u00e3o o brega rom\u00e2ntico, mas o brega funk, por exemplo? Poucas, ent\u00e3o isso ainda \u00e9 algo que temos que quebrar bastante. Outra coisa que voc\u00ea nota: As mulheres estouram capelas que viram<em> hits<\/em>, que todo mundo dan\u00e7a,que todo mundo canta, vai l\u00e1 fazer a dancinha\u2026 e \u00e9 a voz da mulher que est\u00e1 ali o tempo inteiro cantando, <em>hitou<\/em>, sabe? <em>Uni-duni-te<\/em>, por exemplo, foi uma m\u00fasica que hitou, que era uma mulher negra que estava ali cantando, s\u00f3 que eu n\u00e3o vejo essa mulher ganhar a visibilidade que o homem ganha, sabe? N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, n\u00e3o \u00e9 o mesmo impacto. Eu acho que ainda tem muito o que evoluir ainda, n\u00e3o s\u00f3 a situa\u00e7\u00e3o dessas mulheres que est\u00e3o ocupando as lives, as casas de eventos, que est\u00e3o nas casas de show. A gente ainda precisa quebrar muito desse machismo que ainda existe no meio do brega e eu acredito que com o tempo isso vai mudar, mas acho que \u00e9 necess\u00e1rio falar sobre isso, sobre a ocupa\u00e7\u00e3o de mulheres nas casas de show, como as mulheres n\u00e3o t\u00eam tanto espa\u00e7o nesses lugares. Mulheres pernambucanas tamb\u00e9m, ainda tem poucas mulheres, mas essa necessidade de ter mulheres fazendo o corre, necessidade da mulher ser mais abra\u00e7ada pelo movimento, da gente fazer um som e ser reconhecida por aquilo, da gente ser contratada pelas casas de show\u2026 essa necessidade ainda \u00e9 muito grande para as mulheres dentro do brega. Por exemplo, um cara estoura um som e faz seis, sete shows em uma semana, enquanto uma mulher estoura uma e n\u00e3o faz show nenhum. Isso acaba acontecendo muito e desmotiva as mulheres, acho que o brega funk tem mais do que evoluir e eu espero mais do brega.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>O machismo \u00e9 bem pesado. \u00c9 desvalorizado porque, primeiro existe essa sexualiza\u00e7\u00e3o em cima do rebolado e um corpo que rebola j\u00e1 \u00e9 desmerecido e isso \u00e9 ainda muito expl\u00edcito. A gente pensa que com o passar do tempo isso diminuiria mas segue bem ruim, a ponto de voc\u00ea postar um v\u00eddeo dan\u00e7ando na sua rede social particular e ainda receber mensagens de pessoas que voc\u00ea nunca viu, n\u00e3o sabe nem quem \u00e9, achando que tem essa liberdade de chegar em voc\u00ea de maneira bem invasiva s\u00f3 porque voc\u00ea postou um v\u00eddeo dan\u00e7ando, sabe? \u00c0s vezes \u00e9 assustador, n\u00f3s nos apresentamos em lugares p\u00fablicos, existe uma performance e \u00e9 uma mistura de medo com desconforto que isso traz, mas que ao mesmo tempo n\u00e3o me impede de continuar. A dan\u00e7a \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, n\u00e3o \u00e9 um convite. V\u00e3o precisar engolir de um jeito e de outro porque eu n\u00e3o vou parar de dan\u00e7ar, de fazer isso. V\u00e3o precisar se colocar no seu lugar, porque esse corpo n\u00e3o te pertence e voc\u00ea n\u00e3o tem o direito sobre ele. Isso n\u00e3o \u00e9 um convite, eu n\u00e3o quero que voc\u00ea v\u00e1 at\u00e9 mim por causa disso. \u00c9 um misto de resist\u00eancia, de querer bater de frente com medo e receio. Eu e as meninas que praticam dizemos \u2018bota a camisa\u2019, por exemplo, quando estamos saindo dos treinos, treinamos de short e top e falamos isso porque n\u00e3o sabemos o que vai acontecer na volta para casa, volta para a faculdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Copia-de-IMG_20220225_172316-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-290\" width=\"460\" height=\"613\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Clara Soares \/ Acervo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para finalizar, queria perguntar a voc\u00ea sobre as letras. Muitas vezes as letras do brega funk exploram a sexualidade, mas com o grande n\u00famero de homens na ind\u00fastria, isso acaba sendo muito voltado para o olhar masculino. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de existirem artistas mulheres, tal qual voc\u00ea, que trazem o brega funk com o olhar feminino? E n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, mas a todos os assuntos que foram comumente cantados por homens, sendo trazidos agora pela perspectiva de mulheres.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Ent\u00e3o, essa sexualiza\u00e7\u00e3o do corpo feminino e da mulher no brega funk ainda \u00e9 muito dif\u00edcil de se tirar, mas ano passado eu lancei uma m\u00fasica com Vyvona, <em>N\u00f3s \u00e9 a gest\u00e3o, <\/em>que n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica para falar mal de outra mulher ou falar s\u00f3 de putaria, a gente fala sobre a gente tomar essa posi\u00e7\u00e3o, sobre n\u00f3s estarmos ocupando esse espa\u00e7o, tomar a frente do seu role, de fazer acontecer. Foi uma m\u00fasica que quebrou muitas barreiras e eu acredito que ainda precisamos quebrar muito mais, mas foi uma m\u00fasica que quebrou muitas barreiras em termos dessa sexualiza\u00e7\u00e3o feminina t\u00e3o forte ainda que o brega tem. Eu acho muito necess\u00e1rio a gente trazer mais isso no brega, apesar de ser dif\u00edcil, porque as pessoas consomem a putaria no brega, ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil tirar ela, mas d\u00e1 pra ter uma mudan\u00e7a gigantesca no meio do brega funk. J\u00e1 faz um tempo ai que estamos trazendo a mesma coisa, mas tem outras mulheres querendo trazer. O brega pop , por exemplo, \u00e9 uma vertente que est\u00e1 bem forte, o brega est\u00e1 se tornando outras vertentes, tem o brega com uma pegada no techno\u2026 o brega hoje em dia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 brega, est\u00e1 englobando outras coisas, est\u00e1 se tornando m\u00faltiplas coisas e se a gente parar para observar isso, vemos que ele est\u00e1 em constante evolu\u00e7\u00e3o. Vai vir algo muito massa, muito legal. Eu tamb\u00e9m quero ver essa evolu\u00e7\u00e3o e trazer isso, com o tempo, com a tecnologia, tudo vai mudando, vai se adaptando. Eu acho que o brega funk putaria, em si, talvez n\u00e3o acabe, porque \u00e9 um som raiz que a periferia ouve muito e gosta de ouvir, inclusive, mas \u00e9 algo hist\u00f3rico, que n\u00e3o vai deixar de existir, mas vai se transformar em v\u00e1rias vertentes. O funk por exemplo, hoje tem uma vers\u00e3o de funk consciente, sabe? O brega est\u00e1 sempre se reinventando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Eu acho importante quando as artistas trazem uma letra mais afrontosa, nem sempre se tratando da sexualidade, mas quando tratar desse tema, se colocar em um local de poder e de liberdade de dizer que ela tamb\u00e9m pode fazer certas coisas e que possui liberdade de sentir. \u2018Essa menina est\u00e1 cantando desse jeito, falando isso, nossa, isso \u00e9 t\u00e3o errado\u2019, algumas pessoas pensam, mas muitas vezes a artista s\u00f3 est\u00e1 falando sobre uma experi\u00eancia pr\u00f3pria, se colocando em uma posi\u00e7\u00e3o de poder sexual. Essas coisas n\u00e3o s\u00e3o legais \u00e0 vista do nosso sistema machista. A mulher deve sim se colocar nesse lugar de poder, muitas vezes de empoderamento e n\u00e3o s\u00f3 no lado sexual da coisa, mas de trazer outro tipo de letras nas m\u00fasicas&nbsp; mesmo, que empoderam. Infelizmente, s\u00e3o justamente essas que n\u00e3o <em>hypam<\/em>, sabe? S\u00e3o justamente essas que n\u00e3o avan\u00e7am muito na popularidade, porque talvez n\u00e3o venda, n\u00e3o atraia o p\u00fablico. Eu sinto que isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de n\u00e3o fazer reverberar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Edi\u00e7\u00e3o: Rafael Gueiros<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gente ainda precisa quebrar muito desse machismo que ainda existe no meio do brega e eu acredito que com o tempo isso vai mudar, mas acho que \u00e9 necess\u00e1rio falar sobre isso, sobre a ocupa\u00e7\u00e3o de mulheres nas casas de show, como as mulheres n\u00e3o t\u00eam tanto espa\u00e7o nesses lugares<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":288,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Por Laura Machado<\/em><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><em>Em meio a uma cena predominante masculina, as mulheres que cantam e dan\u00e7am essa vertente do brega s\u00e3o representa\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia<\/em><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Vivo, ardente e intenso, o brega funk \u00e9 mais do que um g\u00eanero musical derivado da transmuta\u00e7\u00e3o e jun\u00e7\u00e3o do funk carioca e do tecnobrega, \u00e9 um movimento metamorfo que finca suas ra\u00edzes em quest\u00f5es pol\u00edticas, sociais e culturais. Nascido em ber\u00e7o recifense, o ritmo se espalhou pelo estado de Pernambuco e, mais tarde, para o Brasil, sendo sucesso com as letras provocativas, roupagem e atitude confiante.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Tendo seus mais diversos atributos positivos, o som e a dan\u00e7a que se envolvem no brega funk s\u00e3o vorazes e s\u00f3 fazem crescer diante do cen\u00e1rio musical, com diversos artistas fazendo shows pelo territ\u00f3rio nacional, lan\u00e7ando novas m\u00fasicas e expandindo o g\u00eanero. Em um reflexo da sociedade, por\u00e9m, as mulheres no brega funk ainda s\u00e3o poucas e o mercado parece n\u00e3o possuir as mesmas portas abertas de oportunidade para elas. Apesar disso, as mulheres est\u00e3o l\u00e1, criando sons \u00fanicos, dan\u00e7ando pujantemente e acima de tudo, resistindo contra o sexismo na m\u00fasica.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p>Em entrevista ao Berro, a cantora e compositora Rayssa Dias e a dan\u00e7arina e licencianda em Dan\u00e7a pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Clara Soares, ou apenas Clarear, compartilharam suas viv\u00eancias dentro do mercado do brega funk, a realidade machista excludente e o olhar otimista \u2013 antes e acima de qualquer dificuldade \u2013 para um futuro mais feminino no brega funk.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":281,\"width\":351,\"height\":526,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-14-at-7.19.42-AM-1-683x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-281\" width=\"351\" height=\"526\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"center\",\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\">Rayssa Dias, fotografada por J\u00e9ssica Maia (@jezzmaia)<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Qual \u00e9 a realidade do cen\u00e1rio do brega funk no Recife?<\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>O brega funk evoluiu bastante e eu costumo dizer que ele n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um trabalho cultural, ele \u00e9 um trabalho sociocultural. O brega funk traz esperan\u00e7a para a comunidade, \u00e9 um grande impulsionador, est\u00e1 ali, tentando sanar as necessidades das pessoas que vieram de onde a gente tamb\u00e9m veio. Hoje em dia a cultura do brega funk \u00e9 mais do que s\u00f3 o movimento cultural, inclui o trabalho social que envolve uma grande camada dentro de Pernambuco. O brega funk \u00e9 isso. Dentro de Recife, o brega funk \u00e9 algo impulsionador de sonhos, de vidas.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Quando eu tinha por volta dos meus 18, 19 anos eu ia para o Marco Zero para dan\u00e7ar brega funk e era muito comum a gente ver v\u00e1rios sons rolando em partes da cidade, mas hoje em dia isso n\u00e3o rola mais e, quando acontece, est\u00e1 sempre tendo o empecilho policial, independente da propor\u00e7\u00e3o. Afrontava o sistema e antes de tudo eu queria trazer essa repress\u00e3o que existe hoje em dia. Mesmo assim, eu vejo que o brega funk est\u00e1 tomando uma propor\u00e7\u00e3o bem grande, est\u00e1 tomando o Brasil, a galera j\u00e1 notou o brega funk. Uma coisa que tem acontecido \u00e9 que est\u00e3o existindo aulas de brega funk em outros estados, o que \u00e9 muito massa, porque as pessoas que est\u00e3o lecionando s\u00e3o pessoas com viv\u00eancias nessa dan\u00e7a, que fazem parte desse movimento e por isso eu vejo o g\u00eanero hoje em dia com essa vis\u00e3o de que ele est\u00e1 tomando grandes propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":286,\"width\":590,\"height\":393,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Copia-de-_DSC1206-3-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-286\" width=\"590\" height=\"393\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"center\",\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\">Clara Soares, acervo pessoal<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Como se d\u00e1 a presen\u00e7a feminina no brega funk?<\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Hoje em dia a presen\u00e7a das mulheres no brega funk \u00e9 bem ativa. Antigamente n\u00e3o tinha isso, de existir mulheres no cen\u00e1rio. Quando eu comecei no brega funk eu pensava \u2018caramba, n\u00e3o tem muitas mulheres cantando brega funk\u201d, pensava: \u201cporque n\u00e3o ter uma mulher cantando brega funk de fato, botando as caras, estar ali para representar?\u201d. Ent\u00e3o eu canto brega funk desde essa \u00e9poca e acompanhei a evolu\u00e7\u00e3o de ver mulheres chegando na cena, o que \u00e9 muito incr\u00edvel. Hoje em dia as mulheres ocupam bastante espa\u00e7o, mas ainda podemos ocupar mais, n\u00e3o para por aqui, ainda tem que evoluir mais.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Existem figuras femininas, mas ainda \u00e9 em uma propor\u00e7\u00e3o muito menor quando comparada \u00e0s figuras masculinas. Quando tem essa representa\u00e7\u00e3o, na m\u00fasica principalmente, eu acho que elas s\u00e3o muito apagadas, n\u00e3o geram o mesmo <em>hype <\/em>que os caras geram. Se tratando das dan\u00e7arinas, rola muita sexualiza\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m desvaloriza\u00e7\u00e3o. S\u00e3o meninas extremamente talentosas, mas que muitas pessoas possuem aquela vis\u00e3o tradicional de que elas s\u00e3o vulgares\u2026 ao meu ver enquanto artista e pesquisadora da dan\u00e7a, tem um lado tamb\u00e9m da influ\u00eancia dessa dan\u00e7a, das movimenta\u00e7\u00f5es femininas na dan\u00e7a tamb\u00e9m em outras express\u00f5es art\u00edsticas fora daqui. Inclusive, existe um campeonato em Lisboa onde tanto no ano passado quanto neste ano, eles colocaram aula de brega funk na grade, sabe? Eu acho que \u00e9 muito interessante pensar o cen\u00e1rio atual a partir disso, poxa, est\u00e3o em outro pa\u00eds tendo aulas sobre essa movimenta\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 massa, \u00e9 muito muito bom.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Tanto no \u00e2mbito pessoal e art\u00edstico, qual \u00e9 a import\u00e2ncia que o brega funk carrega para voc\u00ea? O que essa arte lhe comunica?&nbsp;<\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Ao longo dos anos, isso foi mudando para mim, n\u00e9? Eu noto que, conversando com voc\u00ea, por exemplo, at\u00e9 minha fala sobre o brega funk mudou. No come\u00e7o, eu cantava brega funk porque n\u00e3o tinham pessoas como eu que faziam isso, era um cen\u00e1rio muito dominado por homens, n\u00e3o tinham mulheres. Havia um grande preconceito ainda para as mulheres gravarem suas m\u00fasicas, fazerem seus sons\u2026 a Rayssa Dias daquela \u00e9poca estava ali querendo ocupar um lugar de mulher, dizendo que a mulher pode fazer o que ela quiser, independente de qualquer coisa, inclusive estar inserida nesse cen\u00e1rio. Quando eu comecei foi por conta disso, dessa necessidade de se ter mulheres no movimento do brega funk, mas hoje em dia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 isso, porque mulheres surgiram e ocuparam esse espa\u00e7o. Hoje, Rayssa Dias no brega funk \u00e9 algo maior, eu estou tentando profissionalizar mais esse trabalho que eu j\u00e1 fa\u00e7o a muito tempo, hoje o brega funk para mim foi algo muito impulsionador na minha vida, de mudan\u00e7a de vida, toquei em muitos eventos importantes que me possibilitaram levar o ritmo para outros lugares e para mim, o brega funk \u00e9 vida, tem essa energia. N\u00e3o tem como falar dele e a gente n\u00e3o imaginar uma cor reluzente, algo que traga essa energia gigantesca. \u00c9 vida, esperan\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Eu acho que o brega funk \u00e9 cultura viva, cultura de favela viva. \u00c9 um reflexo da gente tomando nosso lugar. Eu fico pensando na trajet\u00f3ria do brega funk, quando ainda nem era chamado assim, quando era chamado de <em>brega nojento <\/em>e vejo a evolu\u00e7\u00e3o dele. Isso \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para a gente, o g\u00eanero tem diversas refer\u00eancias daquilo que a gente vivencia na nossa cultura, \u00e9 uma fus\u00e3o, um grande combo e, para mim, \u00e9 resist\u00eancia, \u00e0 exist\u00eancia e o manter dele. \u00c9 resist\u00eancia, \u00e9 muito importante para a gente, Acredito que ainda n\u00e3o est\u00e3o preparados para pensar nessa modalidade como objeto de pesquisa mesmo, acad\u00e9mica e isso tamb\u00e9m \u00e9 muito importante e uma responsabilidade da gente enquanto acad\u00eamicos e praticantes da arte. Para mim, primordial \u00e9 a exist\u00eancia do brega funk.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":288,\"width\":685,\"height\":384,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-14-at-7.19.42-AM-1-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-288\" width=\"685\" height=\"384\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"center\",\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\">Rayssa Dias, fotografada por J\u00e9ssica Maia (@jezzmaia)<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Voc\u00ea falou sobre hoje a presen\u00e7a feminina ser muito mais consider\u00e1vel dentro do g\u00eanero, sobre existir muito mais mulheres no brega funk, mas voc\u00ea ainda percebe machismo tanto por parte do p\u00fablico quanto pela ind\u00fastria em si?&nbsp;<\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Sim. Voc\u00ea vai para uma casa de show de brega, quantas mulheres voc\u00ea v\u00ea que cantam o brega funk, n\u00e3o o brega rom\u00e2ntico, mas o brega funk, por exemplo? Poucas, ent\u00e3o isso ainda \u00e9 algo que temos que quebrar bastante. Outra coisa que voc\u00ea nota: As mulheres estouram capelas que viram<em> hits<\/em>, que todo mundo dan\u00e7a,que todo mundo canta, vai l\u00e1 fazer a dancinha\u2026 e \u00e9 a voz da mulher que est\u00e1 ali o tempo inteiro cantando, <em>hitou<\/em>, sabe? <em>Uni-duni-te<\/em>, por exemplo, foi uma m\u00fasica que hitou, que era uma mulher negra que estava ali cantando, s\u00f3 que eu n\u00e3o vejo essa mulher ganhar a visibilidade que o homem ganha, sabe? N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, n\u00e3o \u00e9 o mesmo impacto. Eu acho que ainda tem muito o que evoluir ainda, n\u00e3o s\u00f3 a situa\u00e7\u00e3o dessas mulheres que est\u00e3o ocupando as lives, as casas de eventos, que est\u00e3o nas casas de show. A gente ainda precisa quebrar muito desse machismo que ainda existe no meio do brega e eu acredito que com o tempo isso vai mudar, mas acho que \u00e9 necess\u00e1rio falar sobre isso, sobre a ocupa\u00e7\u00e3o de mulheres nas casas de show, como as mulheres n\u00e3o t\u00eam tanto espa\u00e7o nesses lugares. Mulheres pernambucanas tamb\u00e9m, ainda tem poucas mulheres, mas essa necessidade de ter mulheres fazendo o corre, necessidade da mulher ser mais abra\u00e7ada pelo movimento, da gente fazer um som e ser reconhecida por aquilo, da gente ser contratada pelas casas de show\u2026 essa necessidade ainda \u00e9 muito grande para as mulheres dentro do brega. Por exemplo, um cara estoura um som e faz seis, sete shows em uma semana, enquanto uma mulher estoura uma e n\u00e3o faz show nenhum. Isso acaba acontecendo muito e desmotiva as mulheres, acho que o brega funk tem mais do que evoluir e eu espero mais do brega.<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>O machismo \u00e9 bem pesado. \u00c9 desvalorizado porque, primeiro existe essa sexualiza\u00e7\u00e3o em cima do rebolado e um corpo que rebola j\u00e1 \u00e9 desmerecido e isso \u00e9 ainda muito expl\u00edcito. A gente pensa que com o passar do tempo isso diminuiria mas segue bem ruim, a ponto de voc\u00ea postar um v\u00eddeo dan\u00e7ando na sua rede social particular e ainda receber mensagens de pessoas que voc\u00ea nunca viu, n\u00e3o sabe nem quem \u00e9, achando que tem essa liberdade de chegar em voc\u00ea de maneira bem invasiva s\u00f3 porque voc\u00ea postou um v\u00eddeo dan\u00e7ando, sabe? \u00c0s vezes \u00e9 assustador, n\u00f3s nos apresentamos em lugares p\u00fablicos, existe uma performance e \u00e9 uma mistura de medo com desconforto que isso traz, mas que ao mesmo tempo n\u00e3o me impede de continuar. A dan\u00e7a \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, n\u00e3o \u00e9 um convite. V\u00e3o precisar engolir de um jeito e de outro porque eu n\u00e3o vou parar de dan\u00e7ar, de fazer isso. V\u00e3o precisar se colocar no seu lugar, porque esse corpo n\u00e3o te pertence e voc\u00ea n\u00e3o tem o direito sobre ele. Isso n\u00e3o \u00e9 um convite, eu n\u00e3o quero que voc\u00ea v\u00e1 at\u00e9 mim por causa disso. \u00c9 um misto de resist\u00eancia, de querer bater de frente com medo e receio. Eu e as meninas que praticam dizemos \u2018bota a camisa\u2019, por exemplo, quando estamos saindo dos treinos, treinamos de short e top e falamos isso porque n\u00e3o sabemos o que vai acontecer na volta para casa, volta para a faculdade.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":290,\"width\":460,\"height\":613,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} -->\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Copia-de-IMG_20220225_172316-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-290\" width=\"460\" height=\"613\"\/><\/figure>\n<!-- \/wp:image -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"align\":\"center\",\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\">Clara Soares, acervo pessoal<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Para finalizar, queria perguntar a voc\u00ea sobre as letras. Muitas vezes as letras do brega funk exploram a sexualidade, mas com o grande n\u00famero de homens na ind\u00fastria, isso acaba sendo muito voltado para o olhar masculino. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de existirem artistas mulheres, tal qual voc\u00ea, que trazem o brega funk com o olhar feminino? E n\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade, mas a todos os assuntos que foram comumente cantados por homens, sendo trazidos agora pela perspectiva de mulheres.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Rayssa Dias: <\/strong>Ent\u00e3o, essa sexualiza\u00e7\u00e3o do corpo feminino e da mulher no brega funk ainda \u00e9 muito dif\u00edcil de se tirar, mas ano passado eu lancei uma m\u00fasica com Vyvona, <em>N\u00f3s \u00e9 a gest\u00e3o, <\/em>que n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica para falar mal de outra mulher ou falar s\u00f3 de putaria, a gente fala sobre a gente tomar essa posi\u00e7\u00e3o, sobre n\u00f3s estarmos ocupando esse espa\u00e7o, tomar a frente do seu role, de fazer acontecer. Foi uma m\u00fasica que quebrou muitas barreiras e eu acredito que ainda precisamos quebrar muito mais, mas foi uma m\u00fasica que quebrou muitas barreiras em termos dessa sexualiza\u00e7\u00e3o feminina t\u00e3o forte ainda que o brega tem. Eu acho muito necess\u00e1rio a gente trazer mais isso no brega, apesar de ser dif\u00edcil, porque as pessoas consomem a putaria no brega, ent\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil tirar ela, mas d\u00e1 pra ter uma mudan\u00e7a gigantesca no meio do brega funk. J\u00e1 faz um tempo ai que estamos trazendo a mesma coisa, mas tem outras mulheres querendo trazer. O brega pop , por exemplo, \u00e9 uma vertente que est\u00e1 bem forte, o brega est\u00e1 se tornando outras vertentes, tem o brega com uma pegada no techno\u2026 o brega hoje em dia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 brega, est\u00e1 englobando outras coisas, est\u00e1 se tornando m\u00faltiplas coisas e se a gente parar para observar isso, vemos que ele est\u00e1 em constante evolu\u00e7\u00e3o. Vai vir algo muito massa, muito legal. Eu tamb\u00e9m quero ver essa evolu\u00e7\u00e3o e trazer isso, com o tempo, com a tecnologia, tudo vai mudando, vai se adaptando. Eu acho que o brega funk putaria, em si, talvez n\u00e3o acabe, porque \u00e9 um som raiz que a periferia ouve muito e gosta de ouvir, inclusive, mas \u00e9 algo hist\u00f3rico, que n\u00e3o vai deixar de existir, mas vai se transformar em v\u00e1rias vertentes. O funk por exemplo, hoje tem uma vers\u00e3o de funk consciente, sabe? O brega est\u00e1 sempre se reinventando.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><strong>Clara Soares: <\/strong>Eu acho importante quando as artistas trazem uma letra mais afrontosa, nem sempre se tratando da sexualidade, mas quando tratar desse tema, se colocar em um local de poder e de liberdade de dizer que ela tamb\u00e9m pode fazer certas coisas e que possui liberdade de sentir. \u2018Essa menina est\u00e1 cantando desse jeito, falando isso, nossa, isso \u00e9 t\u00e3o errado\u2019, algumas pessoas pensam, mas muitas vezes a artista s\u00f3 est\u00e1 falando sobre uma experi\u00eancia pr\u00f3pria, se colocando em uma posi\u00e7\u00e3o de poder sexual. Essas coisas n\u00e3o s\u00e3o legais \u00e0 vista do nosso sistema machista. A mulher deve sim se colocar nesse lugar de poder, muitas vezes de empoderamento e n\u00e3o s\u00f3 no lado sexual da coisa, mas de trazer outro tipo de letras nas m\u00fasicas&nbsp; mesmo, que empoderam. Infelizmente, s\u00e3o justamente essas que n\u00e3o <em>hypam<\/em>, sabe? S\u00e3o justamente essas que n\u00e3o avan\u00e7am muito na popularidade, porque talvez n\u00e3o venda, n\u00e3o atraia o p\u00fablico. Eu sinto que isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de n\u00e3o fazer reverberar.&nbsp;<\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph -->\n<p><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->\n\n<!-- wp:paragraph {\"fontSize\":\"small\"} -->\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Edi\u00e7\u00e3o: Rafael Gueiros<\/em><\/p>\n<!-- \/wp:paragraph -->","_et_gb_content_width":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268"}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=268"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":511,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/268\/revisions\/511"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/media\/288"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}