{"id":274,"date":"2023-06-14T09:38:09","date_gmt":"2023-06-14T12:38:09","guid":{"rendered":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/?p=274"},"modified":"2023-06-15T15:24:49","modified_gmt":"2023-06-15T18:24:49","slug":"literatura-x-vida-real-personagens-perifericos-e-o-molde-do-imaginario-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2023_1\/literatura-x-vida-real-personagens-perifericos-e-o-molde-do-imaginario-nacional\/","title":{"rendered":"Literatura x Vida real: Personagens perif\u00e9ricos e o molde do imagin\u00e1rio nacional"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Por Beatriz Maciel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar no termo \u201cimagin\u00e1rio nacional\u201d, mas o que ele \u00e9, exatamente? Basicamente, o imagin\u00e1rio nacional \u00e9 o conjunto de cren\u00e7as, ideias, hist\u00f3rias e figuras que moldam a maneira de se ver e entender determinado pa\u00eds. No caso do Brasil, esse imagin\u00e1rio foi muito influenciado pelas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, especialmente pela literatura, e \u00e9 revisitado at\u00e9 hoje, sendo objeto de identifica\u00e7\u00e3o e questionamento. Escritores de todos os lugares ajudaram a construir as ideias de seus pa\u00edses, registrando nas p\u00e1ginas dos livros o seu tempo, espa\u00e7o, costumes, personalidades \u2013 e claro, n\u00e3o podemos tomar tudo isso como verdades absolutas, tendo em vista que a literatura \u00e9 permeada de&nbsp; fantasia e fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para construir esse conceito e relacion\u00e1-lo com a literatura e a realidade brasileira, conversamos com Odailta Alves, professora e escritora recifense, e Fernanda Barbosa, concluinte do bacharelado em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/C2mjn4ZO-5gaJh_0TuJGhLHzI9xwaFJcXZTEoYMdZhFlucXtS6x0qaXFlh52jn0VAkSz-dHm96wDyfSA08a6B-oj9M1SdMlf0Q4ZDBY3sHk-eeawLJbe4ZoALOSH5QCJxyk9KHTPe-jvNkzjrR5nPk4\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Freepik\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A literatura e o pa\u00eds<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para se entender a din\u00e2mica de um pa\u00eds, um dos primeiros passos \u00e9 o de conhecer sua literatura. \u00c9 atrav\u00e9s dela que o tempo, espa\u00e7o, costumes, problemas e tradi\u00e7\u00f5es de uma sociedade se manifestam, registrando, nas p\u00e1ginas dos livros, como aquele lugar funciona.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As representa\u00e7\u00f5es na literatura brasileira de personagens perif\u00e9ricos (consideramos aqui os personagens \u00e0 margem da capital, \u00e0 margem da seguran\u00e7a financeira e que est\u00e3o, de alguma maneira, em um contexto de invisibilidade) s\u00e3o um retrato pungente do Brasil. Todo personagem \u00e9 inspirado em algu\u00e9m, em algum vizinho, irm\u00e3o, amigo. Conhecer, assim, alguns personagens ic\u00f4nicos da literatura nacional nos mostra um pouco mais da din\u00e2mica do pa\u00eds e, n\u00e3o coincidentemente, pode nos lembrar de pessoas e situa\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Odailta Alves refor\u00e7a que \u201ca obra liter\u00e1ria vai dizer muito sobre o olhar que se tem sobre determinados grupos. Ainda hoje, o que muitas vezes se sabe sobre determinado per\u00edodo da hist\u00f3ria \u00e9 a partir da literatura. Do teatro produzido pelos jesu\u00edtas, por exemplo, que n\u00e3o vai representar a realidade como era \u2013 porque \u00e9 a realidade a partir de um olhar cat\u00f3lico e branco, mas \u00e9 o que se tem sobre aquele momento. As obras liter\u00e1rias s\u00e3o registros\u201d. E \u00e9 esse olhar de determinados grupos sobre outros que, registrado na literatura, acaba moldando um imagin\u00e1rio coletivo e abrindo espa\u00e7os para cren\u00e7as e estere\u00f3tipos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O peso dos estere\u00f3tipos na constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Esse imagin\u00e1rio \u00e9, tamb\u00e9m, pautado em estere\u00f3tipos que, mesmo depois de muito tempo, continuam sendo reproduzidos por meios culturais al\u00e9m da literatura, como na televis\u00e3o e nas redes sociais. \u201cQuando eu leio o Auto da Compadecida, quando vejo a pe\u00e7a, assisto ao filme, Jo\u00e3o Grilo e Chic\u00f3 n\u00e3o me parecem estere\u00f3tipos nordestinos. Consigo enxergar o Auto da Compadecida na minha cultura, mas isso n\u00e3o acontece pelas roupas que ele usa, pela ocupa\u00e7\u00e3o que ele tem, nem por nada superficial, isso s\u00e3o elementos de uma \u00e9poca que n\u00e3o existe mais. Mas s\u00e3o s\u00edmbolos de algo maior e que se repete, como a pobreza, a injusti\u00e7a, elementos mais profundos do personagem e hist\u00f3ria que permitem uma renova\u00e7\u00e3o desse personagem, uma identifica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico\u201d, diz a estudante Fernanda Barbosa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fic\u00e7\u00e3o x Realidade&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso reiterar que a literatura n\u00e3o \u00e9, obrigatoriamente, um espelho da realidade, uma vez que n\u00e3o \u00e9 essa a sua fun\u00e7\u00e3o principal. Embora possa, como vimos, estabelecer padr\u00f5es e registrar ideias formadoras de uma determinada sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cExiste uma liga\u00e7\u00e3o [entre realidade e literatura], mas n\u00e3o \u00e9 de espelhamento. O que a literatura sempre fez, al\u00e9m de influenciar h\u00e1bitos e ideias, e ainda pode fazer, \u00e9 expressar o sentimento de uma \u00e9poca. O ritmo de um grupo, o pensamento de uma sociedade\u201d, explica Fernanda Barbosa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente consegue entender um povo, uma na\u00e7\u00e3o, a partir de uma obra liter\u00e1ria vendo o que \u00e9 poss\u00edvel para aquela sociedade. Personagens podem ser s\u00edmbolos do que se pensa sobre pessoas e suas realidades. Tia Nast\u00e1cia, do S\u00edtio do Picapau Amarelo, representa a ideia que determinado grupo fazia das pessoas negras no s\u00e9culo vinte e n\u00e3o as pessoas negras no s\u00e9culo vinte. O que uma pessoa ou um grupo de pessoas representa \u00e9 uma ideia arbitr\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 a realidade\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Odailta Alves, essa representa\u00e7\u00e3o da realidade na fic\u00e7\u00e3o vem mudando aos poucos, o que \u00e9 um ponto positivo para acabar com certos conceitos e preconceitos enraizados: \u201cTia Nast\u00e1cia \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o da imagem que se tinha e que, muitas vezes, ainda se tem, sobre uma mulher preta. Poder ver uma mulher negra sendo advogada ou m\u00e9dica em uma novela \u00e9 algo muito recente. Porque a representa\u00e7\u00e3o [de Tia Nast\u00e1cia] vem de uma organiza\u00e7\u00e3o de sociedade que colocou outras identidades sempre \u00e0 margem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e realidade vem tamb\u00e9m na import\u00e2ncia da literatura para formar o senso cr\u00edtico das pessoas. Fernanda relembra o momento em que leu Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho, ainda na inf\u00e2ncia: \u201co que aprendi sobre o Brasil, com o choque de ver a descri\u00e7\u00e3o extremamente racista de tia Nast\u00e1cia, foi muito mais marcante do que o que eu li nos livros que tentam falar especificamente e intencionalmente sobre o racismo no Brasil atrav\u00e9s das personagens. O livro n\u00e3o precisa e nem pode nos dizer o que \u00e9 certo ou errado, e nem n\u00f3s podemos esperar que o livro nos ensine o que \u00e9 certo ou errado. Eu n\u00e3o li Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho esperando que Em\u00edlia me ensinasse como eu deveria pensar em tia Nast\u00e1cia, mas foi o que me permitiu ver como muitas pessoas a viam, mesmo sem concordar e mesmo me chocando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/6zZ0HqTu9N88RweNlnMK77ibO8n8shgJOlCo0xeDxpxVpiGJpO3vOVSOPwztZDSBWZuMrGdBTcWPE52lvKFOUcXBzVuq4WaEsJE4yLS5IMuknqLiQ787RuiSc2MH0K4Hg1HcWqrPcozr2hbcfSFBM9Y\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Jacira Sampaio como tia Nast\u00e1cia. Acervo\/Globo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quando vemos o jornal nas p\u00e1ginas dos livros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com as explica\u00e7\u00f5es sobre imagin\u00e1rio nacional, estere\u00f3tipos e a distin\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00e3o e realidade, podemos compreender que, muito do que conhecemos do Brasil \u00e9 representado e simbolizado pela literatura. Outra forma de enxergar isso \u00e9 na semelhan\u00e7a com eventos reais. N\u00e3o \u00e0 toa, podemos ver algumas quest\u00f5es e problem\u00e1ticas reais do pa\u00eds representadas em p\u00e1ginas de livros, seja de forma proposital ou n\u00e3o. No livro \u201cTorto Arado\u201d, o autor, Itamar Vieira J\u00fanior, propositalmente cria uma hist\u00f3ria na qual a escravid\u00e3o contempor\u00e2nea \u00e9 o cen\u00e1rio. E faz isso para registrar e denunciar uma realidade brasileira. J\u00e1 em &#8220;Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho&#8221;, Monteiro Lobato introduz, de forma racista, que era (e, infelizmente, ainda \u00e9) muito comum na \u00e9poca, uma personagem negra e gera, no Brasil de mais de 100 anos depois, debates sobre preconceito racial, al\u00e9m de levantar discuss\u00f5es sobre o trabalho dom\u00e9stico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bibiana e Belonisia: trabalho escravo contempor\u00e2neo&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para relacionar essa fic\u00e7\u00e3o com realidade, nos fazendo perceber o quanto do Brasil real influencia e \u00e9 influenciado pelo Brasil da literatura, podemos ver o caso do livro Torto Arado, de Itamar Vieira J\u00fanior. Publicado em 2019, o livro traz a hist\u00f3ria das irm\u00e3s Bibiana e Belon\u00edsia, moradoras da regi\u00e3o rural da Bahia, e aborda tem\u00e1ticas importantes como a luta pela terra, desigualdade social e pap\u00e9is de g\u00eanero. Em uma fazenda na Chapada Diamantina, em uma comunidade de trabalhadores, as personagens vivem em condi\u00e7\u00f5es de trabalho escravo contempor\u00e2neo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os trabalhadores que convivem com Bibiana e Belonisia representam uma quest\u00e3o que \u00e9, infelizmente, ainda atual no Brasil. Sem sal\u00e1rio e com o direito apenas de constru\u00edrem casas de barro em pequenos terrenos da fazenda, a maioria sem documenta\u00e7\u00e3o, sem saber ler ou escrever, vivem em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos que esse cen\u00e1rio \u00e9 parte da realidade quando lemos a Lista Suja do Trabalho Escravo. Desde dois mil e tr\u00eas, o Minist\u00e9rio do Trabalho e Emprego (MTE) publica o documento que, quando surgiu, era semestral, mas passou por algumas irregularidades na publica\u00e7\u00e3o durante o governo de Michel Temer (2016-2019) e de Jair Bolsonaro (2019-2022). A publica\u00e7\u00e3o re\u00fane os nomes e CNPJ de empregadores que foram flagrados explorando o trabalho humano. Atualizada em 2023, a lista conta com 289 empregadores denunciados. Vale destacar tamb\u00e9m que, s\u00f3 esse ano, foram mais de 1,2 milh\u00f5es de trabalhadores resgatados em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil. A realidade de Bibiana e Belon\u00edsia \u00e9, tamb\u00e9m, a realidade de pessoas reais pelo pa\u00eds. E a pot\u00eancia da&nbsp; hist\u00f3ria e das personagens, mesmo que ficcional, \u00e9 suficiente para falar sobre eventos concretos do Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/WqZaOaBEY7_Q9urIYtJ0HwQHvHJY1FUYT2mvh_tV6V8V9EuqLg44dOblVPq7uR6bwnRqFKZDVtLs9lySV-37kOhU_5wcEtywU1o4NX5-Gr-1yeiXd1ymxRTwSq1s1DvJa1qA--Q4OI9LWnQYydBHZlI\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size\"><em>Foto: Giovanni Marrozzini<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tia Nast\u00e1cia: as trabalhadoras dom\u00e9sticas do Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Monteiro Lobato lan\u00e7ou \u201cA Menina do Narizinho Arrebitado&#8221; em 1920, livro que, depois, foi incorporado no livro \u201cAs Reina\u00e7\u00f5es de Narizinho\u201d. Foi a\u00ed que surgiu o famoso S\u00edtio do Picapau Amarelo e, tamb\u00e9m, onde ocorreu a primeira apari\u00e7\u00e3o de Tia Nast\u00e1cia. No livro, ela \u00e9 apresentada como \u201cuma excelente negra de cria\u00e7\u00e3o\u201d que vivia com dona Benta, av\u00f3 de Narizinho, em uma casinha branca no meio do mato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As hist\u00f3rias do S\u00edtio vivem no imagin\u00e1rio brasileiro. Tanto as narrativas lidas nos livros, quanto as assistidas nas adapta\u00e7\u00f5es para a TV. Nas telinhas, a personagem foi interpretada por Jacira Sampaio, na vers\u00e3o de 1977, Dhu Moraes, na vers\u00e3o de 2001 e Rosa Marya Colin, na de 2007.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de Monteiro Lobato influenciou na constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio nacional, como explicitaram Odailta Alves e Fernanda Barbosa. Mas a personagem de Tia Nast\u00e1cia extrapola a fic\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m simboliza uma realidade. O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais tem empregadas dom\u00e9sticas no mundo, segundo dados de 2018 da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Trabalho. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica) registrou que, em 2022, o Brasil contava com quase 6 milh\u00f5es de trabalhadores dom\u00e9sticos. Eram 1,5 milh\u00e3o de pessoas registradas com carteira assinada. J\u00e1 os informais eram 4,3 milh\u00f5es. Dentre os trabalhadores dom\u00e9sticos, 92% s\u00e3o mulheres, sendo 65% mulheres negras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de abril de 2023, a PEC das empregadas dom\u00e9sticas completou dez anos. Aprovado em 2013, a emenda garante direitos trabalhistas, como seguro desemprego, jornada de trabalho de oito horas di\u00e1rias com no m\u00ednimo uma hora de descanso, seguro contra acidentes, dentre outros direitos b\u00e1sicos. A medida foi regulamentada em 2015, o que ampliou a garantia desses direitos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, as empregadas dom\u00e9sticas ainda enfrentam muitos desafios no pa\u00eds. Um dos exemplos mais claros das dificuldades aconteceu durante a pandemia da Covid-19, entre 2020 e 2022. Muitas perderam o emprego e, muitas das que mantiveram, se viram for\u00e7adas a seguir uma jornada perigosa, enfrentando os riscos de contamina\u00e7\u00e3o porque, caso contr\u00e1rio, n\u00e3o seriam remuneradas. \u00c9 importante lembrar, tamb\u00e9m, que a primeira morte por Covid no Rio de Janeiro foi de uma empregada dom\u00e9stica, que n\u00e3o foi dispensada do servi\u00e7o e pegou o v\u00edrus de sua patroa, que havia voltado de uma viagem \u00e0 It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Que a literatura se entrela\u00e7a com a vida real, \u00e9 ineg\u00e1vel. E \u00e9 fato que os personagens que lemos nos livros podem simbolizar e representar as pessoas do pa\u00eds. Tia Nast\u00e1cia, Bibiana, Belon\u00edsia, Jo\u00e3o Grilo e Chic\u00f3 s\u00e3o exemplos de personagens que, nas suas hist\u00f3rias, vivem em ambientes perif\u00e9ricos, lidando com problemas e desaven\u00e7as que muitas pessoas, por todo o Brasil, convivem diariamente. Mas, sendo esses personagens s\u00edmbolos de um pa\u00eds e estando t\u00e3o estritamente ligados com um imagin\u00e1rio repleto de carinho e permanente revisita\u00e7\u00e3o, sempre aberto a questionamentos, encontramos na literatura um meio de conhecer um pouco mais sobre nossa sociedade e as pessoas que fazem parte dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso explicita o tamanho poder da literatura, tanto de influenciar a realidade (com o estabelecimento de um imagin\u00e1rio nacional), quanto de mudar essa realidade (explicitando os fatos, dificuldades e preconceitos sofridos).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>Edi\u00e7\u00e3o: Rafael Gueiros<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201ca obra liter\u00e1ria vai dizer muito sobre o olhar que se tem sobre determinados grupos. Ainda hoje, o que muitas vezes se sabe sobre determinado per\u00edodo da hist\u00f3ria \u00e9 a partir da literatura. 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