{"id":117,"date":"2024-06-03T19:46:55","date_gmt":"2024-06-03T22:46:55","guid":{"rendered":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/?p=117"},"modified":"2024-11-26T16:13:02","modified_gmt":"2024-11-26T19:13:02","slug":"o-infinito-particular-de-sandro-da-prata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/o-infinito-particular-de-sandro-da-prata\/","title":{"rendered":"O infinito particular de Sandro da Prata"},"content":{"rendered":"\n<p>GABRIELA AGRA<\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma bicicleta com o aro empenado. Era tudo o que Sandro tinha quando chegou \u00e0 Comunidade do Pilar vinte anos atr\u00e1s. Naquela \u00e9poca, ele n\u00e3o sabia, mas mudava para sempre seu pr\u00f3prio destino. Vindo do Alto do Pascoal, no extremo norte da cidade, ele achou amparo naqueles moradores da regi\u00e3o central que at\u00e9 ent\u00e3o eram completos desconhecidos. Pessoas que n\u00e3o lhe deviam absolutamente nada, mas que n\u00e3o hesitaram em abrir suas portas e cora\u00e7\u00f5es. Pessoas que, assim como ele, precisavam batalhar pelo p\u00e3o de cada dia e encontraram no calor humano a for\u00e7a para encarar a precariedade da vida nos barracos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na caminhada de Sandro, n\u00e3o tardou para que todo aquele acolhimento recebido se convertesse numa sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento. \u00c9 que, enfim, ele encontrava seu lugar no mundo. E queria retribuir o Pilar por ter lhe dado isso. A forma encontrada foi se dedicando \u00e0 comunidade: doando seu tempo e seus esfor\u00e7os em prol daqueles que tinham lhe estendido a m\u00e3o l\u00e1 tr\u00e1s. Em \u00e9poca de chuva, quando a \u00e1gua cobria as ruas e vielas, era com ele que todos podiam contar. Fosse limpando a lama ou colocando estrados de madeira para ajudar na locomo\u00e7\u00e3o do pessoal, sobretudo, das mulheres idosas que compunham a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quem conversa com Sandro percebe na sua fala n\u00e3o s\u00f3 indigna\u00e7\u00e3o, mas o desejo incessante de fazer cada vez mais pela comunidade que o acolheu. E foi guiado por esse \u00edmpeto que ele tamb\u00e9m come\u00e7ou a levar os problemas vividos pela popula\u00e7\u00e3o para dentro da Autarquia de Urbaniza\u00e7\u00e3o do Recife, a URB. No in\u00edcio, ele levava ch\u00e1 de cadeira, mas com o tempo (e muita persist\u00eancia) se tornou um rosto conhecido no \u00f3rg\u00e3o e logo os agentes da prefeitura passaram a procur\u00e1-lo quando precisavam ir ao Pilar. Agora, aos 53 anos, ele relembra com como\u00e7\u00e3o esses dias e, mesmo usufruindo de uma vida melhor em um dos apartamentos entregues pela Prefeitura, mant\u00e9m viva a inquietude que o fez chegar at\u00e9 aqui.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone wp-image-199 size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1920\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8217-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-199\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8217-scaled.jpg 2560w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8217-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8217-980x735.jpg 980w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8217-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) and (max-width: 1280px) 1280px, (min-width: 1281px) 2560px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sandro da Prata (Foto: Gabriela Agra)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 l\u00e1 em cima, no \u00faltimo andar de um dos blocos residenciais at\u00e9 ent\u00e3o constru\u00eddos, que Sandro hoje em dia vive. Seis lances de escada s\u00e3o necess\u00e1rios para chegar ao apartamento que ele mostra com muito orgulho. Com cerca de 40 m\u00b2, o im\u00f3vel materializa n\u00e3o apenas seus sonhos, mas uma parte significativa da sua hist\u00f3ria. \u00c9 que, em 2011, ele foi um dos moradores chamados para trabalhar na constru\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios, oportunidade que agarrou com todas as for\u00e7as. \u201cEu acho que Deus disse \u2018oxe, Sandro ajuda muito, vive perto do povo, ent\u00e3o tem que abrir uma porta para ele\u2019, porque eu estava precisando muito mesmo. Eu n\u00e3o tinha nada.\u201d<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o que era para ser apenas um trabalho de servente de pedreiro que garantiria uma renda fixa, se tornou um amontoado de experi\u00eancias em diferentes \u00e1reas e um cap\u00edtulo importante na sua trajet\u00f3ria. De ajudante de cozinheiro a vigia noturno, Sandro se distinguiu entre os colegas e trabalhou com tudo um pouco na obra. De certa forma, um reflexo direto da sua curiosidade e disposi\u00e7\u00e3o para aprender coisas novas. \u201cEm todos os trabalhos, eu estou. S\u00f3 n\u00e3o gosto de ficar parado. Eu topo tudo\u201d, afirma ele, que, antes das constru\u00e7\u00f5es, j\u00e1 fazia diversos bicos para conseguir tirar seu sustento. Durante um tempo, inclusive, chegou a trabalhar como vigilante de rua, o famoso \u201cguarda de apito\u201d, nas ruas do bairro da Encruzilhada.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o fim das obras, a sede por novas experi\u00eancias o levou ainda a fazer um curso de Bombeiro Civil, forma\u00e7\u00e3o que faz quest\u00e3o de destacar mostrando sua carteira. Questionado sobre como essa mistura de habilidades contribui para ele ser quem \u00e9 hoje, o \u201cfaz-tudo\u201d do Pilar responde na ponta da l\u00edngua: \u201c\u00c9 a vontade de ser o que a gente \u00e9. Eu provei a mim mesmo que eu posso fazer e fa\u00e7o. E fa\u00e7o tudo isso.\u201d Seguindo a voca\u00e7\u00e3o multifacetada, hoje sua principal ocupa\u00e7\u00e3o surpreende: quando n\u00e3o est\u00e1 em casa, acompanha como seguran\u00e7a cantores e MCs de brega funk em shows e viagens, o que j\u00e1 o fez percorrer milhares de quil\u00f4metros entre os mais variados cantos do Nordeste.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto no trabalho Sandro se recusa a se limitar a \u201ccaixinhas\u201d e padr\u00f5es, na m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 diferente. \u201cOnde tem m\u00fasica, eu gosto. Eu n\u00e3o gosto s\u00f3 de sertanejo ou s\u00f3 de forr\u00f3. N\u00e3o, eu gosto de tudo. Eu gosto da m\u00fasica\u201d, afirma. Troia, Nedved, Pedrinho do Recife, Barca na Batida, Daninho e o saudoso Biel Xcamoso s\u00e3o s\u00f3 alguns dos nomes de peso com quem ele trabalha ou j\u00e1 trabalhou. Mas tudo teve in\u00edcio, por volta de 2014, com o ent\u00e3o adolescente MC Reino, hoje conhecido pelo sucesso \u201cDono da Porsche\u201d, hit viral na internet com os versos \u201cBom dia, princesa \/ Por favor, sente na Glock\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquela \u00e9poca, o cantor recifense estava no come\u00e7o da carreira e n\u00e3o podia entrar nas casas de show desacompanhado devido \u00e0 idade. Sandro, com a permiss\u00e3o da m\u00e3e do garoto, era quem ficava respons\u00e1vel por lev\u00e1-lo \u00e0s festas. Da\u00ed em diante, o morador do Pilar n\u00e3o parou mais e, com seu carisma, foi conquistando respeito e prest\u00edgio na cena brega funk. \u201cSe eu chego numa casa de show com um MC e estiver outro no palco, ele para tudo e vem me abra\u00e7ar, j\u00e1 fala logo \u2018Sandro da Prata, Sandro da Prata\u2019\u201d, diz.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignnone wp-image-198 size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1920\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8211-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-198\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8211-scaled.jpg 2560w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8211-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8211-980x735.jpg 980w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_1\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG_8211-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) and (max-width: 1280px) 1280px, (min-width: 1281px) 2560px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sandro da Prata (Foto: Gabriela Agra)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sandro Roberto Vasconcelos \u00e9 o seu nome de nascen\u00e7a, mas Sandro da Prata \u00e9 o apelido que condensa as m\u00faltiplas facetas do seguran\u00e7a de MCs, que tamb\u00e9m \u00e9 Bombeiro Civil, vizinho, pai, marido e j\u00e1 atuou, como apontado neste breve texto, de vigia noturno, servente de obra e ajudante de cozinha. No Pilar, por exemplo, quem chega perguntando \u00e0 vizinhan\u00e7a por algum Sandro imediatamente \u00e9 interpelado pela resposta: \u201cDa Prata?\u201d. Isso porque, aonde ele vai, usa sempre uma corrente reluzente de prata com um risonho Chico Bento pendurado. \u201cAonde eu chego, eu n\u00e3o me identifico. Eu vou como o cara que eu sou, Sandro da Prata.\u201d<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No seu semblante, \u00e9 vis\u00edvel o brilho nos olhos ao contemplar tudo o que construiu at\u00e9 aqui. N\u00e3o s\u00f3 para ele, mas para a comunidade que o abra\u00e7ou desde o in\u00edcio. Se hoje existe esse \u201ccara que ele \u00e9\u201d, \u00e9 porque, l\u00e1 atr\u00e1s, \u201co cara que um dia foi\u201d seguiu com a decis\u00e3o de partir rumo \u00e0quela comunidade na regi\u00e3o portu\u00e1ria do Recife quando tudo o que tinha era uma bicicleta com o aro torto. Um passado que faz quest\u00e3o de reafirmar e agora transforma em for\u00e7a motriz na batalha que nunca abandonou: a luta coletiva por uma vida mais digna para todos e todas. \u201cEu sou favela. Eu nunca deixei de ser. Eu estou aqui pela gra\u00e7a de Deus e pelo meu trabalho, mas eu sou favela. Eu tenho que estar brigando por todos.\u201d E vai brigar at\u00e9 o fim.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>He is here. Leave that to me. Send a distress signal, and inform the Senate that all on board were killed. 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