{"id":133,"date":"2024-12-02T12:37:07","date_gmt":"2024-12-02T15:37:07","guid":{"rendered":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/?p=133"},"modified":"2025-04-03T17:24:01","modified_gmt":"2025-04-03T20:24:01","slug":"dos-20-aos-60-sem-idade-para-ser-fa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/dos-20-aos-60-sem-idade-para-ser-fa\/","title":{"rendered":"Dos 20 aos 60 \u2013 sem idade para ser F\u00e3\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left has-medium-font-size\"><strong><em>De \u2018Perdidos no Espa\u00e7o\u2019 ao KPOP, descubra como a devo\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s molda a cultura pop e impulsiona fen\u00f4menos sociais e pol\u00edticos.<\/em><\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPois meus olhos vidram ao te ver: s\u00e3o dois f\u00e3s, um par\u201d, escreveu Nando Reis na m\u00fasica Luz dos Olhos, interpretada por C\u00e1ssia Eller. Ainda que a can\u00e7\u00e3o fa\u00e7a uma refer\u00eancia amorosa, podemos comparar esse verso com a euforia daqueles que projetam seus anseios em algo ou algu\u00e9m: os f\u00e3s. Por\u00e9m, voc\u00ea sabe o que \u00e9 um fandom?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De forma simples, fandoms s\u00e3o grupos de pessoas que se unem em torno de uma figura p\u00fablica, de um time ou de uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica seja filme, livro ou m\u00fasica. Esses f\u00e3s, ao se identificarem com o indiv\u00edduo ou obra, passam a compartilhar interesses e comportamentos comuns, criando uma conex\u00e3o baseada em sua admira\u00e7\u00e3o em conjunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas comunidades t\u00eam se destacado de forma significativa em diversos segmentos da ind\u00fastria do entretenimento. O fen\u00f4meno vai al\u00e9m do consumo passivo e envolve os f\u00e3s ativamente na promo\u00e7\u00e3o e apoio de seus \u00eddolos, muitas vezes influenciando diretamente o sucesso de produtos culturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio divulgado pelo Youtube em setembro de 2024 dentro da plataforma \u201cThink with Google\u201d, 84% dos brasileiros entre 14 e 44 anos se descrevem como admiradores de uma pessoa ou produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Destes, 43%, ou seja, pouco mais da metade, s\u00e3o representantes da gera\u00e7\u00e3o Z, que vem reinventando o engajamento de f\u00e3s nas redes sociais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>A VIDA EM UM F\u00c3 CLUBE<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A estudante de psicologia, Ana Luiza Tavares, de 21 anos, mant\u00e9m uma p\u00e1gina no Instagram em que ela atualiza a vida e a carreira de atos asi\u00e1ticos do KPOP, o pop coreano. A paix\u00e3o come\u00e7ou ainda na escola, incentivada por uma amiga.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu me tornei f\u00e3 atrav\u00e9s de uma amiga da escola. J\u00e1 havia escutado antes, mas nunca parei para acompanhar realmente. Ela assistia algumas coisas e eu fiquei curiosa sobre o assunto, fui acompanhando, o que nos tornou mais pr\u00f3ximas e eu acabei entrando para esses fandoms\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ana faz parte de organiza\u00e7\u00f5es de eventos em Recife para o grupo Stray Kids. Nesses encontros, os f\u00e3s cantam e dan\u00e7am as m\u00fasicas, se vestem com os figurinos e promovem campanhas de engajamento.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estas variam do \u201c<em>listening party<\/em>\u201d, forma moderna de colocar os artistas nos topos das paradas de sucesso como Billboard, antes feita pela compra de discos e CDs, at\u00e9 o envolvimento em quest\u00f5es pol\u00edticas. Durante as elei\u00e7\u00f5es de 2022, por exemplo, as f\u00e3s do BTS, autointituladas de<em> armys<\/em> \u2013 ex\u00e9rcito em tradu\u00e7\u00e3o literal \u2013 incentivaram os jovens entre 16 e 18 anos a tirarem o t\u00edtulo de eleitor pela hashtag #TiraOT\u00edtuloArmy.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAcho que a minha maior loucura como f\u00e3 foi ter faltado aula para assistir um programa de sobreviv\u00eancia \u2013 reality show \u2013 que iria lan\u00e7ar no hor\u00e1rio em que eu tinha aula do col\u00e9gio. Atualmente eu assisto lives, participo de<em> stream <\/em>escutando as m\u00fasicas quando eu acordo, na academia, fazendo minhas atividades cotidianas, mas tudo dentro das minhas possibilidades por conta da faculdade\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>CULTURA DO FANDOM<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisadora da cultura de f\u00e3s da Universidade Federal de Pernambuco, a jornalista Cec\u00edlia Almeida tenta explicar o que leva pessoas a ter uma admira\u00e7\u00e3o e paix\u00e3o t\u00e3o forte a ponto de abdicar de suas vidas, vivendo em fun\u00e7\u00e3o de outra.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA rela\u00e7\u00e3o de um f\u00e3 com seu \u00eddolo \u00e9 muito complexa. Tem autores que v\u00e3o buscar na psicologia ou psicanal\u00edtica o fandom como substituto de afetos prim\u00e1rios relacionados a forma como a gente se relaciona com nossos pais e na reprodu\u00e7\u00e3o de estruturas sociais se apoiando na teoria do soci\u00f3logo Pierre Bourdieu. Mas, de modo geral a gente pode dizer que a rela\u00e7\u00e3o de um f\u00e3 com seu objeto parte dessa identifica\u00e7\u00e3o afetiva muito forte, intensa que se constr\u00f3i ao longo do tempo\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e3 de novelas, Almeida iniciou sua trajet\u00f3ria como pesquisadora estudando o g\u00eanero por meio do Obitel Brasil, a Rede Brasileira de Pesquisadores em Fic\u00e7\u00e3o Televisiva, desenvolvendo projetos de an\u00e1lise transm\u00eddia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSou f\u00e3 de muitas coisas, mas v\u00f4lei e novela como g\u00eanero talvez sejam meus fandoms mais marcantes na atualidade. L\u00e1 no Obitel a gente desenvolvia pesquisa sobre transm\u00eddia e em meio a isso surge como os f\u00e3s circulam. Eles foram aparecendo como figuras muito importantes quando fui para o meu doutorado em telenovelas no ambiente digital. Os f\u00e3s s\u00e3o muitos cobi\u00e7ados pelas emissoras e produtoras de conte\u00fado por serem agentes mais pr\u00f3ximos de conte\u00fado, potencializando essas estrat\u00e9gias midi\u00e1ticas\u201d, pontua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas sobre fandoms ainda enfrentam grande resist\u00eancia dentro das academias, sendo muitas vezes vistas como superficiais ou irrelevantes. No entanto, como argumenta Cec\u00edlia: \u201cessa pesquisa ainda \u00e9 muito estigmatizada dentro das academias. Ainda existe um julgamento como se fosse irrelevante estudar f\u00e3s ou cultura pop e isso est\u00e1 ligado ao machismo, homofobia, LGBTfobia j\u00e1 que esses grupos aproximam minorias. Mas, a pesquisa pode entender fen\u00f4menos sociais amplos como tamb\u00e9m dimens\u00f5es pol\u00edticas quando a gente entende os grupos de f\u00e3s e suas articula\u00e7\u00f5es sociais a determinadas causas\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>ATRAVESSANDO D\u00c9CADAS<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de fandoms n\u00e3o \u00e9 novo. No Brasil, essa for\u00e7a p\u00f4de ser sentida nos anos 2000 com a chegada do RBD, e se formos mais longe, a ideia remonta \u00e0 Beatlemania nos anos 1960, quando o fanatismo em torno dos Beatles tomou o mundo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Zelandia Souza, de 60 anos, servidora do Poder Judici\u00e1rio de Pernambuco, desde crian\u00e7a \u00e9 f\u00e3 da s\u00e9rie \u201cLost In Space \u2013 Perdidos no Espa\u00e7o\u201d, original de 1965.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSou f\u00e3 mesmo, coleciono tudo. Comecei a ver a s\u00e9rie enquanto crian\u00e7a quando a TV ainda era preta e branca. Tinha um rob\u00f4 chamado B9 e logo me apaixonei. \u00c9 uma s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas tem sempre uma mensagem sobre o que \u00e9 certo, correto, bons exemplos\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1080\" height=\"810\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ZELANDIA-FOTO-edited.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-199\" style=\"width:748px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ZELANDIA-FOTO-edited.png 1080w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ZELANDIA-FOTO-edited-980x735.png 980w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2024_2\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ZELANDIA-FOTO-edited-480x360.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1080px, 100vw\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Muito antes do celular e das mensagens, ela conseguiu trocar cartas com o elenco do programa.&nbsp;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Muito antes do celular e das mensagens, ela conseguiu trocar cartas com o elenco do programa. \u201cMeu contato come\u00e7ou com o ator Jonathan Harris, que fazia o Dr. Smith, meu personagem preferido. Consegui o endere\u00e7o dele por meio de um amigo jornalista. Escrevi para Jonathan e ele me respondeu. Foi incr\u00edvel, me mandou foto, aut\u00f3grafo. Isso foi em 1996 e ele faleceu em 2002 e durante esses anos mantivemos contato, com ele sempre respondendo de forma gentil, educada, prestativa. Tenho dezenas de cartas do Jonathan\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na era da internet, Zelandia enviou mensagens para os atores Billy Mumy e Marten Kristen, int\u00e9rpretes de Will e Judy Robinson.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cConsegui contato atrav\u00e9s do Facebook e eles passaram a me responder e n\u00e3o era falso porque eles estavam aliados ao pr\u00f3prio f\u00e3 clube da s\u00e9rie. Quando era \u00e9poca de anivers\u00e1rio e Natal, eles me mandavam mensagem. Dois atores fant\u00e1sticos, eu perguntava coisas do programa e sempre respondiam prontamente\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como toda f\u00e3, ela parece n\u00e3o ter curtido muito as novas vers\u00f5es em filme e s\u00e9rie feitas recentemente de Perdidos no Espa\u00e7o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO filme de 1998 teve um roteiro muito fraco em compara\u00e7\u00e3o a s\u00e9rie. Tinham muitos problemas familiares que a s\u00e9rie n\u00e3o tinha, onde a fam\u00edlia era muito unida. Muitos f\u00e3s n\u00e3o gostaram, assim como eu. A \u00fanica coisa boa foi a participa\u00e7\u00e3o dos atores originais. A s\u00e9rie da Netflix de 2018 teve um enredo fant\u00e1stico e achei boa a mudan\u00e7a de g\u00eanero que fizeram no Dr. Smith, que passou a ser uma mulher pois ningu\u00e9m teria como interpretar o personagem original assim como Jonathan Harris\u201d.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De \u2018Perdidos no Espa\u00e7o\u2019 ao KPOP, descubra como a devo\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s molda a cultura pop e impulsiona fen\u00f4menos sociais e pol\u00edticos.&nbsp; \u201cPois meus olhos vidram ao te ver: s\u00e3o dois f\u00e3s, um par\u201d, escreveu Nando Reis na m\u00fasica Luz dos Olhos, interpretada por C\u00e1ssia Eller. 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