Em meio à onda conservadora global, imigrantes brasileiros usam a saudade de casa como refúgio
“O mundo vai acabar em 2025, mainha?”, foi o que escutei de uma criança em uma parada de ônibus perto da minha casa. Bom, com a temperatura média global subindo 0,71° graus célsius por ano e guerras acontecendo, simultaneamente, nos quatro hemisférios, é bem capaz. E é nesse climinha de colapso mundial, que o amor também parece estar fora de moda. No seu lugar, a proliferação dos ismos como uma peste: o conservadorismo, o liberalismo, o fundamentalismo, o fascismo e o populismo.
Um estudo feito com mais de 300 mil pessoas, pela agência internacional Glocalities em vinte países incluindo o Brasil, chegou à conclusão de que o crescimento de partidos radicais de direita – muitos deles, fortes defensores de alguns dos ismos citados – está ligado a sentimentos como desesperança, frustração social e rejeição aos valores cosmopolitas.
Na Europa, partidos de direita radical como o Vox (Espanha) e o AfD (Alemanha), tiveram um forte aumento entre jovens. Nos Estados Unidos, a extrema-direita voltou ao poder com a vitória expressiva de Donald Trump, derrotando a candidata democrata Kamala Harris com uma diferença de mais cem colégios eleitorais e de dois milhões de votos. Tudo isso nos últimos cinco anos.
E veja que contradição: é neste mar de fúria que buscamos, justamente, as histórias de amor. Histórias que pulsam alguma vida em meio ao caos, onde a saudade de casa se transforma em combustível para se manter resiliente em terras tão inóspitas. A união das brasileiras Joana* e *Fernanda* é uma dessas histórias.
Em 2022, Joana passou em uma bolsa integral de pesquisa em biomedicina na Universidade de Kentucky, localizado na região sudeste dos Estados Unidos. Trocar a capital pernambucana por uma pequena cidade estadunidense cuja economia sobrevive da venda de cavalos e Bourbon, e é profundamente marcada por valores conservadores e pela presença ostensiva de armas, foi um choque cultural para Joana. “O modo como eles interagem entre si é muito diferente. Como eu trabalho dentro da universidade, as relações são muito profissionais e distantes.”, conta. “No Brasil a gente costuma fazer amizades dentro do trabalho e se abrir mais sobre a vida pessoal. No início não foi bem fácil conseguir fazer amigos. As pessoas aqui são bem diferentes nesse sentido.”, finaliza.
E os números atestam isso: uma pesquisa feita pela Intercultural Insights British Council, em 2014, mostrou que entre brasileiros que vivem no exterior, os EUA são um dos países onde as pessoas mais relatam dificuldades em fazer amizades e se sentir acolhidas fora do ambiente familiar. Joana sentiu na pele.
Ela também lembra de uma outra experiência marcante, logo quando chegou na cidade. Em uma das primeiras visitas ao Walmart (rede de supermercados), se deparou com um homem circulando pelos corredores com uma pistola presa ao coldre, exibida com orgulho na cintura, como algo natural.
Nem ela, e nem Fernanda, com quem é casada, esperavam a vitória de Trump. Pelo menos não da forma que foi, tão significativa. A vivência de Joana na bolha acadêmico a levou a acreditar em uma possível vitória da candidata Kamala Harris. Com a demora da apuração dos votos impressos, a expectativa e a esperança foram diminuindo, e quando o resultado veio, foi o estado do Kentucky um dos primeiros a ficar coberto pelo vermelho republicano.
A universidade que Joana estuda logo iniciou um processo de diálogo com os estudantes internacionais. Com a vitória de Trump, começaram a fazer recomendações orientando-os a não sair de casa sem suas documentações em mãos (passaportes, carteirinhas da faculdade). A Polícia de Imigração e Alfandega dos Estados Unidos (ICE), começava, ali, a circular com mais frequência e de forma muito mais agressiva.
Recentemente uma outra brasileira foi cercada em Worcester, no estado de Massachusetts, por esses agentes. Vídeos do momento mostram ela sendo jogada no chão. As imagens foram divulgadas nas redes sociais e causaram protestos e mobilização por parte de autoridades brasileiras. Não é a primeira vez que cenas como essas acontecem e não está nem perto de serem às últimas. Trump anunciou em 2025 medidas extremas contra os imigrantes. Punições que incluem “deportação imediata em local e forma definidos exclusivamente a nosso critério”.
Mas com essa realidade, por vezes insuportável, estar alheio a determinadas situações faz com que o coração não sinta aquilo que os olhos veem, tornando os dias pelo menos um pouco mais fáceis. Foi o que Joana e Fernanda fizeram. Três vezes por semana, elas costumam ligar para suas famílias por vídeo. Também tentam manter a mesma alimentação que tinham no Brasil, sempre que possível, cozinhando comidas típicas, afetivas, que as transportam para vida que tinham antes de migrarem.
Apesar de terem desenvolvido esses métodos para lidar com a saudade, os momentos de dor nunca deixaram de existir. “Sinto bastante saudade de casa. Datas festivas são bem difíceis. Faz três anos que estou aqui, e em todos os meus aniversários eu não sinto que faço uma comemoração completa, sempre falta algo, Nunca vou ser 100% feliz aqui.”, afirma Joana.
Para amenizar esse sentimento, a ideia é voltar ao Brasil sempre que possível: visitar a família uma vez por ano para saborear camarão com alho e óleo da praia, tomar caldinho de feijão, e principalmente, receber amor. Amor que só o povo brasileiro sabe dar, segundo ela.
Mas a viagem desse ano não está garantida. “Fomos aconselhadas a não deixar o país. Evitar passar pelo consulado e pela imigração”, explica. “Por mais que a gente tenha todas as documentações, eu fico com medo de implicarem com a renovação do meu visto ou com a imigração. Dá muito medo não consegui voltar e perder todas as pesquisas, o meu estudo, toda a vida que venho construindo.”, conta.
Assim, as manhãs na praia vão ficando mais distantes. Sem saber a data do retorno, elas vão vivendo dia após dia, sempre que possível, alimentando as raízes com a família que construíram em terras estrangeiras. É cozinhando um brigadeiro, em uma tarde de domingo ou preparando uma feijoada, que o tempo vai passando mais depressa. Assim elas dizem e esperam.
Uma outra brasileira também vive algo parecido, só que um pouco mais distante dali. Gabi* se mudou de Belo Horizonte, em Minas Gerais, para a cidade do Porto, no noroeste de Portugal, com o intuito de concluir os estudos em Artes Plásticas na Universidade do Porto.
Desde então, a mineira tem assistido o país impor legislações que retiram cada vez mais direitos. Nas últimas eleições legislativas, o partido de extrema-direita ganhou destaque com propostas que incluem a deportação de imigrantes em situação irregular e restrições ao acesso a serviços públicos.
O governo de coalizão conservadora Aliança Democrática, liderado por Luís Montenegro, anunciou planos para expulsar aproximadamente 18 mil imigrantes irregulares.
Em Lisboa, logo na saída do aeroporto, é possível ver um outdoor, que diz: “Sorria… Esta a ser substituído!” (Sorria…você está prestes a ser substituído). A mensagem é irônica, e remete diretamente ao aumento de imigrantes no país. É um alerta, para os portugueses sobre o suposto risco de os estrangeiros os substituírem em seus trabalhos, ocuparem suas terras.
O aumento do número de pessoas que migram para Portugal é um fato. A Agência para a Integração, Migração e Asilo (AIMA) apontou que, até o final de 2024, o país já contava com cerca de 1,6 milhões de imigrantes, quase quatro vezes mais do que os 421.785 registados em 2017. A maneira como muitos portugueses têm tratado os imigrantes, contudo, não justifica esse fato.
Gabi lembra do clima na sua chegada. “A primeira impressão foi bem negativa. O tratamento das pessoas e o choque cultural foram bastante impactantes”, lembra. “Além da adaptação da cultura, clima, rotina de estudos e de trabalho, e à saudade… ter que lidar com um novo tipo de preconceito, com a xenofobia, foi um desafio imenso.”, finaliza.
Ela também defende um novo olhar dos brasileiros para o exterior. “Grande parte da raiva que começou a me consumir vinha do contraste entre a realidade europeia e a imagem que nós, brasileiros, ainda alimentamos e bajulamos, construída intencionalmente há séculos. É doloroso perceber como esse ideal europeu ainda molda nossas referências, mesmo quando ele nos exclui e nos rejeita.”
Desde que os números de imigração começaram a aumentar, os casos de xenofobia em Portugal também têm se intensificado. De acordo com o balanço da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), as denúncias cresceram 505% entre 2017 e 2022.
O processo de sair do seu lugar de origem, de “desenraizar”, não afeta apenas a adaptação à nova cultura, mas também afeta a saúde mental, alterando a percepção de identidade e o bem-estar geral.
Em uma pesquisa intitulada “O sofrimento de imigrantes: um estudo clínico sobre os efeitos do desenraizamento no self”, realizada em 2005, pelo professor Jorge Fouad Maalouf da PUC- SP, o resultado foi claro: a migração, especialmente em cenários de crise ou em países com políticas de acolhimento restritivas, pode provocar um impacto psicológico profundo nos imigrantes.
Mas diante desse cenário, em vez de se render à exclusão e ao preconceito, os brasileiros têm resistido, reagido: abrindo estabelecimentos comerciais, encontrando com outros brasileiros para rememorar sua cultura, dançando forró, sambando. Fazendo carnaval em pleno inverno europeu.
Quando a opressão bate à porta, é preciso, ao invés de abaixar a cabeça, responder de uma outra forma: transformar a saudade de casa em combustível, fazendo com que o amor pelas nossas raízes apareça ainda mais, com força, com orgulho.
Esse movimento de resistência se reflete nas histórias de Fernanda, Joana e Gabi. Para elas, saudade é o desejo da presença. Independente dos governos, a vida vai passando e, mesmo sem saber o que o futuro reserva, elas permanecem: com saudade de casa, mas sem deixar de tentar construir um outro futuro para elas.
A saudade é substantivo que vira verbo na boca de quem sente. Não há opressão, discriminação ou discurso de ódio que substitua sua força. E no fim do mundo, imerso em desesperança, é como diz o compositor Eduardo Gudin, o importante mesmo é que a nossa emoção sobreviva.
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados
