Por sentimentalismo ou vaidade, gostamos de dizer que a saudade só existe em português, mas em 2025 não há mais espaço para esse mito. Apesar de não ter tradução literal em outros idiomas, a saudade é um sentimento comum à vida humana. Ao redor do mundo, há registros emocionais que espelham o que, em português, chamamos de saudade. Nas artes, na memória e na fala das pessoas, ela aparece, com outros nomes, outras melodias, mas a mesma essência.

Sobre isso, o presidente da academia de letras de Pernambuco Lourival Holanda afirmou: “Não é um sentimento próprio do português. Os sentimentos humanos são universais, existindo, claro, particularidades aqui e ali que são próprias da linguagem. Mas a nossa língua é como nossos nervos, é absolutamente pessoal, então há um modo nosso de sentir saudade, como o batimento do coração, que é absolutamente único”. É só prestar atenção: Eric Clapton, cantor britânico, escreveu sobre a saudade e a dor de perder seu filho de apenas 4 anos na música “Tears in Heaven”. Nela, o cantor inconsolável, tenta enxergar a esperança do reencontro nesta tragédia devastadora;

Você saberia meu nome
Se eu o visse no paraíso?
Seria o mesmo
Se eu o visse no paraíso?

Outro exemplo é um clássico do hip hop dos anos 90: “I’ll Be Missing You”, em que Faith Evans, Diddy e a Banda 112 lamentam a partida do jovem rapper, Notorious B.I.G., que foi assassinado: “Cada movimento que eu fizer, A cada dia, cada vez que eu rezar, Eu vou sentir sua falta.”

Na mesma linha, a banda irlandesa The Cranberries canta, em “Ode to My Family”, sobre a saudade da infância, da simplicidade familiar e a nostalgia de momentos do passado.

Entenda no que eu me tornei,
Esse não era meu projeto
E pessoas de todo lugar pensam
Alguma coisa melhor do que eu sou
Mas eu sinto sua falta, eu sinto falta

Fora das canções, a saudade também se manifesta em detalhes miúdos do cotidiano, na memória de um caderno antigo, na sensação de estar sempre em movimento, ou na distância do sertão natal. Às vezes vem como um cheiro, como uma lembrança esquecida, ou em um silêncio.

Saudade pode ser muita coisa

Joumanna Salem é da Tunísia, país Norte Africano. O árabe é sua língua materna, mas ela também fala francês, um pouco de italiano e inglês. Quando perguntei sobre o significado de “saudade”, expliquei o sentimento, e ela me disse que, em sua língua, a palavra “حنين” (Haneen) traduz bem o que eu estava tentando descrever. Segundo ela, trata-se de uma palavra que expressa um sentimento de nostalgia, especialmente por algo que já passou ou por um lugar querido, mas também pode ser o desejo de retornar a um tempo ou espaço que ficou para trás. Joumanna contou que sentiu esse tipo de saudade recentemente: “Esses dias abri um caderno antigo, da época em que ganhei a bolsa para estudar inglês nos Estados Unidos. Lendo minhas anotações, senti falta da leveza daquele tempo.” Para a cantora potiguar Juliana Linhares, a saudade esta no se movimentar “Eu sou uma pessoa que vive indo, indo, indo… Pra distâncias diferentes, né? Não só a distância do meu nascimento, da minha casa, do meu conforto, mas sempre outras. Estou sempre em deslocamento. Então, as saudades são constantes. Acho que sou meio feita disso, meio constituída por saudade.” Já para o poeta Caio Meneses, nascido no sertão do Pajeú, em São José do Egito, a saudade está profundamente ligada à ausência do território e dos familiares que precisaram deixar para trás a vida no semiárido em busca de melhores oportunidades na capital. Há alguns anos, Caio se mudou para lecionar na Universidade Federal do Piauí. A vida longe de casa faz o poeta sentir saudade diariamente sentimento que ecoa em seus versos. Em um de seus poemas, ele escreve: “o silêncio do quarto abandonado faz barulho demais na nossa mente. A saudade é um grito do passado que se escuta no ouvido do presente, como se fosse um fogão descalibrado, incensando de gás o ambiente. A saudade é o tempero do passado, preparando uma comida para o presente.

Se é verdade que saudade só existe em português, é também verdade que esse nome não dá conta de tudo o que ela é. Em cada cultura, o sentimento encontra um jeito de nascer. A saudade é menos uma palavra e mais um lugar íntimo onde se guarda tudo o que foi vivido, e tudo o que ainda se espera viver. E nesse sentido, não é portuguesa: é humana.