Relacionamentos entre pessoas de diferentes nacionalidades provoca choque cultural e desafia normas
Como uma bússola, o amor pode guiar. Seja para determinados lugares, certas pessoas, ou os dois: conduzir você para outra zona através de um alguém. Assim é a história de Hamanda de Paula, uma brasileira que se apaixonou por Pedro Estevez, um cubano-estadunidense que vive em Miami, na Flórida, e, juntos, ambos têm obtido cada dia mais aprendizados, visitando diversos novos ambientes e conhecendo novos costumes através da troca que a relação entre os dois tem proporcionado.
Em um relacionamento há mais de 2 anos, o casal de diferentes países e culturas tem se desdobrado para ficarem juntos, enfrentando adversidades e tendo como o maior do problema, a distância. Hamanda mora em Igarassu, região metropolitana do Recife, a 6.152 km de Miami, onde Pedro vive, e conheceu o amado através das redes sociais. Segundo a brasileira, o fato de morarem tão longe um do outro é o maior obstáculo na relação. Além da saudade, os gastos de ambas as partes com passagens e renovação de vistos é algo para se colocar na balança, mas as despesas viram apenas um detalhe comparado ao amor e a felicidade que sentem quando estão juntos.
Os dois começaram a conversar via chamada de vídeo para se conectarem melhor, durante meses, até que começaram namorar virtualmente e decidiram se ver ao vivo. “Foi uma loucura. Meus amigos sempre me dizem isso. Eu nunca tinha feito nada assim antes. Querendo ou não, estava colocando uma pessoa estranha em casa. Ainda tem o fato de que moro com meus pais, tive que explicar tudo a eles, aproximar Pedro de ambos para passar segurança”.
Após os primeiros dias juntos, a pernambucana diz que foi amor ao primeiro encontro, tanto que parecia que já o conhecia há muito tempo, especialmente na forma que ele se adaptou em seu ambiente e interagiu com seus familiares.
“Foi tudo muito natural. Tinha coisas que ele não conhecia muito bem e ficava por fora, até porque não falava português tão bem como agora, misturava português com espanhol, mas a primeira vinda dele foi maravilhosa”.
De Paula, que não fala inglês fluente, também começou a aprender mais depois de ter conhecido o namorado. A recém formada em psicologia passou a ter aulas online de inglês para se aproximar mais de Pedro. “É uma língua importante e necessária hoje em dia, pois é a mais falada mundialmente. Mas tive mais interesse depois de começar a namorar com baby, especialmente depois dos planos de futuramente morarmos juntos”, confessa ela.
Com a última pesquisa sobre voltadas para casais interculturais divulgada em 2021 pelo IBGE, levando em consideração o período de 2011 a 2019, os dados mostraram que a grande maioria dos cônjuges interculturais no que residem no Brasil foram formados por mulheres com homens de outras nacionalidades. Neste tempo, 40.739 brasileiras se casaram com pessoas de um país diferente do seu; já 18.716 homens brasileiros com indivíduos de nacionalidade diferente da sua.
Hamanda admite que, apesar do mais provável ser ela se mudar pro país do namorado do que ele vir morar no Brasil, não queria ter que ir para os Estados Unidos, por diversos motivos, incluindo sentimento de não-pertencimento, especialmente, depois do 2º mandato do atual presidente do país, Donald Trump, devido a situação atual de imigrantes no lugar. “Queria que morássemos no Brasil, mas está fora de cogitação no momento. É uma ruptura pra mim sair da minha cultura, além de não poder ir em uma rodinha de samba… Além da solidão”, diz. Ela ainda completa que o fato de seu amor ter nascido em Cuba e possuir raízes latinas facilita a familiaridade no ambiente que passa quando está na América do Norte. “Aqui onde fico tem muitos latinos. A família dele também é latina e facilita muito, pois sou mais familiarizada com espanhol, apesar de também não ser fluente”.
Segundo a psicóloga Laura Melo, todas essas questões do deslocamento e diferenças culturais geralmente ocasionam estranhamento, podendo levar tempo para adaptação. “É um processo contínuo. É importante também que a pessoa que se desloca esteja realmente disposta a conhecer novos hábitos e valores.” Melo ainda conta a importância nessa nova fase de e os passos relevantes para enfrentar a solidão, caso haja. “Nesses casos existe a ausência de familiares e amigos. Terapia em grupo pode ser uma solução, além de estar em contato com pessoas que também não estão em seu país de origem, para compartilhar essas vivências, pois traz sentimento de acolhimento e compreensão”, conclui.
Pedro, em sua versão, conta que já havia tido interesse em brasileiras antes, mas Hamanda acabou quebrando certo padrão. Ele ainda acrescenta que o amor que sentiu por sua amada durante as conversas virtuais fez com que em três meses fosse visitá-la no Brasil. “Ela me perguntou se eu queria vê-la, e eu encarei isso como um desafio. Eu tinha que arriscar, então, comprei as passagens. Meus amigos achavam que eu estava louco e me alertaram para eu ter cuidado com tráfico de órgãos e outras histórias malucas que contam, mas eu já estava decidido a ir”.
“Quando cheguei, o pai dela foi me buscar no aeroporto. Tirei foto da placa e compartilhei a localização com um amigo, pois não sabia o que esperar. Quando chegamos, a casa era colorida e acolhedora, tudo diferente do que eu imaginava”, conta sobre sua recepção. Estevez ainda diz que foi amor à primeira vista quando viu a brasileira ao chegar em casa e como ficou surpreso no modo que os brasileiros montam seus pratos para refeições. “Vi Hamanda pessoalmente e fiquei sem palavras. Percebi que ela é péssima tirando fotos, pois é muito mais linda ao vivo”.
Ele ainda brinca sobre seu primeiro contato com a culinária do país. “Provei cuscuz pela primeira vez. Além disso, fiquei surpreso como colocam feijão ao lado do arroz, e não por cima. Foi tudo novidade pra mim. Gostei de quase todas as comidas, mas mortadela? não gostei. Pé de galinha? não gosto de muita gordura”.
Segundo ele, um choque cultural foram as praias. As brasileiras são melhores comparadas às que frequenta em Miami devido a diversidade de coisas que se
pode encontrar no local. “A praia é uma das minhas coisas favoritas. Em Miami, não se pode vender nada, é ilegal, enquanto no Brasil oferecem um serviço completo. É possível obter comida e bebida, ainda trazem até você”. O cubano-estadunidense ainda se declara para seu amor e diz que ter emergido na cultura de sua namorada fez toda a diferença. “Tudo parece certo quando estou com ela. Não só me apaixonei por ela, mas me apaixonei por toda experiência. A família, a cultura, a forma como ela fala e a visão de mundo. Tudo faz parte do motivo pelo qual a amo”, se declara.

Devido a globalização, tem sido cada vez mais comum indivíduos de diferentes origens interagirem em diferentes culturas e construírem esse tipo de vínculo. O fenômeno de integração social, econômica e cultural, permite que cada vez mais pessoas explorem não só outras culturas, mas também que propaguem a sua.
O aumento da emigração, por exemplo, é um dos grandes fatores que permite essa interação cultural, deslocando diversas pessoas para outros países, impactando diretamente no convívio social. Dados do Ministério das Relações Exteriores (MRE) levantados em 2022, mostram que cerca de 4,5 milhões de brasileiros vivem no exterior, sendo que 194.480 saíram do país entre 2021 e 2022 – números esses que refletem cada vez mais a procura de explorar novos ares, seja devido à questões de novas oportunidades financeiras, sonhos, ou até por conta de um relacionamento.
Apesar das mudanças, nos dias de hoje não necessariamente é preciso se deslocar para conhecer diferentes culturas e pessoas. O avanço da internet permite cada vez mais conexões, formando amizades e relações amorosas. Quando acontecem, essas conexões de amor separadas por fronteiras formam casais com membros de diferentes nacionalidades – que já são um fenômeno em crescimento devido à força do online. Redes sociais, jogos virtuais e aplicativos de relacionamentos que permitem filtragem de localização tem sido ponte para que a interação aconteça e pessoas de nacionalidades diferentes se apaixonem, formando o que é chamado de “relacionamento intercultural”.
Os relacionamentos interculturais possibilitam novas experiências, aprender e também ensinar, devido as mais diversas diferenças ali presentes. Se apaixonar por alguém com costumes, tradições e religião divergente pode ser algo ilustre e desafiador – além de questões de distância e problemas de compreensão linguística, que são bastante comuns. Apesar disso, a troca permite algo extremamente peculiar: ambos entenderem os hábitos e normas do outro e, assim, imergir em uma cultura totalmente diferente da que se está habituado, complementando suas diferenças.
Em relacionamentos asiáticos, mais especificamente em países como a Índia, é comum os casamentos se formarem devido a interesses familiares, diferentemente do Brasil, onde as questões são individuais. Além de tudo, o país é mais conservador e fechado, onde um casal só pode se relacionar e morar juntos caso haja cerimônia oficial, diferente de questões brasileiras, onde existe mais flexibilidade e liberdade. A pressão de familiares para seguir normas culturais tradicionais pode impactar diretamente na relação e ambos podem sofrer com as consequências, caso não haja esforços para se manterem juntos, como foi o caso de Alessandra Nirrwann, brasileira que enfrentou dificuldades ao se casar com um indiano.
Popular nas redes sociais, Alessandra acumula mais de 47 mil seguidores só no Instagram. A fotógrafa compartilha a rotina com seu marido indiano, Behavesh, mostrando o cotidiano de como é viver na Índia. Apesar da leveza que o casal leva nos dias de hoje, eles já passaram por dificuldades devido ao choque de cultura que encontraram ao engatar o relacionamento intercultural. O pai de Behavesh, no início do relacionamento, procurava outra esposa para o filho, que o enfrentou e se declarou para Alessandra de uma vez. A brasileira contou em entrevistas que chegou até a dormir em um quarto separado do amado, pois acreditava no relacionamento. “Casar com alguém de cultura diferente envolve desafios. Meu sogro nunca aceitou a mim e meus filhos. Quando conheci a família do Behavesh , o pai dele ficou recluso e não participava das refeições”, disse em uma entrevista ao UOL.
Apesar das dificuldades que casais interculturais podem encontrar, ter alguém de uma nacionalidade diferente como parceiro ou parceira possibilita também novas oportunidades. Mergulhar em costumes distintos possibilita abranger mais os ares, absorvendo mais conhecimento, obtendo novas vivências e até mesmo provando novos tipos de pratos.
Crescente nas redes sociais, está cada vez mais comum esse tipo de casal postar vídeos mostrando o cotidiano e fazendo das diferenças algo agregador e engraçado. No TikTok, ficou popular uma trend onde os casais falam nomes de marcas populares como McDonald ‘s, Cheetos, Colgate etc., deixando clara a diferença entre as pronúncias das palavras tendo em vista o determinado país.
O conteúdo dos vídeos também abrange a culinária, como brasileiras fazendo seus estrangeiros provarem pratos tradicionais do Brasil como feijoada, pão de queijo e paçoca.
No TikTok, Letícia Stoll acumula mais de 100 mil seguidores. A brasileira casada com um estadunidense mora nos EUA e grava constantemente o marido descobrindo novas coisas relacionadas ao Brasil. Em uma das publicações, o parceiro – que fala pouco português – tenta decifrar provérbios brasileiros, erra todas as tentativas e a brasileira reage: “Ele tentou seu melhor”. Entre um de seus vídeos, Letícia fala que um dos maiores choques culturais que já esteve emergindo no país do companheiro foi descobrir que os estadunidenses não usam facas para fazer refeições. “No começo eu achava que era só com meu marido, até sair com amigos americanos e ver que eles também não usavam faca. Estava no jantar da empresa, olhei pro lado e reparei que nenhum deles estavam usando faca […] eles pegavam, cortavam [a comida] e deixavam a faca de lado… e usavam o dedo para colocar a comida em cima do garfo e comer”. Indignada, ela ainda brincou: “Tem coisas que não dá pra entender. País de primeiro mundo e a gente tem que ensinar pra eles que faca não serve só pra cortar comida. Meu Deus”.
Relacionamentos interculturais são como um quebra-cabeça de experiências, criando e trazendo histórias únicas em nome do amor. Todas as dificuldades e diferenças – mesmo que nos pequenos detalhes – que esses casais enfrentam ultrapassam barreiras, sejam elas no sentido figurado, ou não. Divergências políticas, religiosas e até problemas como a distância viram meros detalhes quando é pra estar com um alguém no qual o apego emocional prevalece.
Casais formados por pessoas de diferentes nacionalidades, especialmente nos dias de hoje, representam a celebração da diversidade, conectando o mundo, deixando que todas as divergências se complementem fazendo que o amor e a pluralidade prevaleçam acima de tudo.
