A história de um percussionista alvirrubro, um professor de matemática rubro-negro e uma apaixonada tricolor resistem no Recife

Por Eduardo Leite

No Recife, na manhã do dia 1° de fevereiro de 2025, antes do Clássico das Multidões que aconteceu naquela tarde, as Torcidas Organizadas (TOs) de Santa Cruz e Sport entraram em conflito na rua Real da Torre, no bairro da Madalena. O episódio não foi uma exceção. Infelizmente, o medo toma conta do recifense que em dia de clássicos aguarda observar as ruas da capital pernambucana se transformarem em cenário de guerra em mais uma confusão entre as uniformizadas do Trio de Ferro (Náutico, Santa Cruz e Sport).

A violência no futebol brasileiro é uma realidade que, segundo a pesquisa realizada pelo jornalista esportivo Rodrigo Vessoni, causou 407 mortes de 1988 a 2024. O mapeamento de confrontos entre torcidas e/ou forças de segurança aponta para um índice preocupante para o Brasil, considerado popularmente como o "país do futebol". Conforme ranking feito pelo portal do GE, em março de 2025, a maior média de pagantes com jogos públicos como mandante é do Corinthians, cerca de 44 mil torcedores. Santa Cruz e Sport aparecem na lista com aproximadamente 23 mil e 10 mil, respectivamente.

De fato, a paixão pelo futebol faz parte da identidade nacional, uma cultura enraizada em muitas famílias brasileiras, desde o inédito pentacampeonato mundial da Seleção Brasileira masculina até os oito títulos da Copa América Feminina. Porém, a afeição do torcedor transcende a clássica amarelinha.

Acompanhar o clube de coração exige mais afinco, fixação e, agora, perseverança. Afinal, o amor pelo time perdura, mas ele é capaz de vencer o medo?

‘'Eu estou muito desesperado’’. Foi como o estudante da graduação de História, Márcio Dias, de 20 anos, descreveu o sentimento de aflição após ter presenciado de perto o confronto protagonizado pelas principais organizadas de Santa Cruz (Explosão Inferno Coral) e Sport (Torcida Jovem do Leão) no dia 1° de fevereiro deste ano. Na ocasião, o jovem estava em seu carro se encaminhando para uma unidade da academia Selfit, próxima ao local do violento episódio, que aconteceu na frente dele. ‘’Eu não sei como conseguir sair ileso’’, confessa.

Quando teve seu veículo apedrejado durante a confusão, Márcio estava acompanhado da namorada, Marianne Cardoso, de 21 anos, que também cursa História. Ele relatou que estava na rua Real da Torre, esperando o sinal abrir para seguir o seu trajeto, quando se deu conta, uniformizados das duas torcidas começaram o conflito e, rapidamente, um ‘’arrastão’’ praticado pela organizada do Sport avançou em direção aos veículos.

Segundo o estudante, a chegada dos torcedores corais e da Polícia Militar (PM) conteve o avanço. O susto foi grande. O resultado também. Além dos vários estabelecimentos depredados na região próxima ao conflito, houve ao menos 13 feridos e quatro pessoas internadas no Hospital da Restauração (HR), incluindo o presidente da organizada do time rubro-negro, João Victor. No dia em questão também foi relatado outros episódios de violência na cidade, antes e depois do jogo – que não foi adiado -, mas em proporções menores, muito por conta da quantidade de torcedores uniformizados detidos pelas autoridades naquela manhã.

‘’Não há condições de segurança no momento para que jogos do Santa Cruz e do Sport sejam feitos com torcida”, informou o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, em entrevista concedida na noite do confronto. Ele acrescentou que ‘’não houve nenhuma falha no policiamento. Existem torcedores e existem aqueles que querem brigar, muitas vezes provocando mortes’’.

Essa omissão é profundamente problemática, pois não apenas impede ações preventivas e educativas, como também contribui para a marginalização das torcidas, que continuam atuando de forma desregulada e invisibilizada. Em Pernambuco, o Ministério Público Estadual (MPPE) e o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) determinaram a extinção formal das principais torcidas organizadas do Trio de Ferro em 2020, mas não significou, na prática, o fim de sua existência ou de suas atividades.

O que ocorreu foi uma mudança dos Cadastros Nacionais de Pessoa Jurídica (CNPJ), burlando as restrições e decisões judiciais. Sendo assim, o poder público perde a chance de atuar de forma estratégica e integrada, contribuindo, ainda que indiretamente, para a perpetuação da violência no futebol.

A repercussão alcançou um grande debate nas mídias nacionais, com as violentas imagens gerando repulsa de quem se deparava com as cenas de violência registradas pelos moradores dos prédios aos arredores ou das câmeras de segurança de estabelecimentos comerciais.

Segundo a psicóloga psicanalítica Patrícia Amazonas, a teoria de Freud sobre a natureza humana como "um animal de horda" pode ser relacionada a episódios de violência coletiva, como o ocorrido entre as Torcidas Organizadas de Santa Cruz e Sport.

‘’A perda de individualidade e uma maior propensão a comportamentos agressivos ocorrem, especialmente, quando o grupo é estimulado por emoções fortes, como a rivalidade e a competição. Portanto, quando torcedores se reúnem, a identificação com o grupo e a figura do líder podem intensificar esses aspectos, resultando em ações violentas’’, reforça a profissional.

Em um áudio compartilhado entre as uniformizadas através do Whatsapp, um integrante da Torcida Organizada rubro-negra expõe uma contradição na atitude tomada pelo presidente João. No conteúdo vazado, o torcedor relata a postura imprudente do principal dirigente que teria incentivado a ida dos membros ao confronto com a torcida rival, sob a suposição de que esta também se mobilizaria em maior número para um embate.

Conforme o relato, a decisão foi tomada sem o devido planejamento e ignorando riscos concretos de violência, revelando uma falta de noção por parte da liderança sobre as consequências potenciais daquele incentivo. João sofreu abuso sexual, após ter sido agredido pelos rivais. Ele foi para o HR no dia do ocorrido, local que recebeu a prisão preventiva (ele já está em liberdade provisória), e dias depois foi transferido para outro hospital da Região Metropolitana do Recife (por sua segurança a informação do hospital não foi divulgada).

‘’Então, por um momento eu tive uma epifania, uma descrença do futebol, mas depois eu parei para pensar e entendo que isso não é a representação do futebol. Esses episódios de violência se conectam muito mais a identificação dessas pessoas com a organização das quais elas são filiadas’’, compartilha Márcio.

Alvirrubro desde pequeno, Márcio começou a frequentar ocasionalmente os jogos do Náutico no Estádio Eládio de Barros Carvalho (ou Estádio dos Aflitos) há dois anos. Em 2025, ele se tornou sócio-torcedor e integrou a Torcida Organizada Os Centenários, além de ir ao campo em quase todas as partidas disputadas em casa pelo Timbu (apelido e mascote do clube). Devido aos casos de violência no futebol, em Pernambuco, o jovem já se preocupou em sair com a camisa do time e deixou de ir para os jogos por conta do medo.

Depois de ter presenciado cenas violentas de perto, o sentimento de Márcio como torcedor mudou, de acordo com ele.

‘’De lá para cá, a minha identificação e o meu amor ao futebol e, principalmente, ao Náutico aumentou. As pessoas que fazem esse vandalismo representam disputas ideológicas que foram criadas a partir da experiência além do estádio, mas não está vinculada àquilo’’, expressa o jovem torcedor.

Em tempos de violência, Márcio aproveita para exaltar a festa feita dentro dos estádios, defendendo, inclusive, que o torcedor não deve ir apenas para ver a partida do seu time, mas aproveitar a festividade do ambiente. Pensando nisso, ele entrou no grupo de percussão dos Centenários, sendo um dos bateristas da organizada, de forma voluntária, mudando a relação dele com a arquibancada.

‘’É um sentimento único e ímpar estar nos Aflitos tocando a música e fazendo os torcedores pularem. Não tem pagamento. É realmente um sentimento de orgulho, de amor e de felicidade que não vai acabar e aumenta a cada jogo (…) é Náutico, cerveja e nada mais’’, exalta Márcio.

Agora, imagina um torcedor que frequenta o estádio há 40 anos – como a sua relação foi alterada ao longo de quatro décadas? O professor de matemática Carlos Eduardo, de 53 anos, que costuma ir aos estádios desde 1985, segue indo ver o seu clube do coração – o Sport -, por conta de uma questão de logística e amor.

Dedicado ao estudo e aplicação da matemática, o professor resolveu um grande problema através de uma grande mudança – literalmente. Com os índices de violência aumentando, mas o desejo de acompanhar as partidas como mandante do time rubro-negro no Estádio Adelmar da Costa Carvalho (ou Ilha do Retiro) permanecendo, Carlos decidiu se mudar para um edifico que fica a 300 metros do campo do Sport.

Para ele, essa distância (de cinco minutos andando) permite uma locomoção mais segura, com a possibilidade de chegar perto da hora do jogo, bem como, sair antes do apito final, evitando assim grandes aglomerações de torcedores. Por que uma mudança tão drástica?

‘’A atmosfera do estádio permite uma conexão com o Sport distinta do jogo televisionado. O barulho da torcida, a interação com outros torcedores, o grito de gol na Ilha do Retiro é diferente’’, expõe Carlos.

Claro, Carlos não frequenta mais clássicos fora de casa, porque se tornou um ambiente muito inseguro para ele. Antigamente, ele ia aos Aflitos e ao Estádio José do Rego Maciel (ou Arruda) ver o Sport jogar contra seus rivais, no entanto, hoje, além da Ilha do Retiro, o professor comparece aos jogos do time rubro-negro no Estádio Governador Carlos Wilson Campos (ou Arena de Pernambuco).

Difícil é imaginar que, mesmo não sendo incentivada, a estudante de Jornalismo Mariana Gonçalves, de 23 anos, tenha chegado às arquibancadas no momento mais conturbado da história do seu time de coração, o Santa Cruz.

O clube ficou oficialmente sem divisão nacional em 2024, mas foi a curiosidade que reacendeu a sua paixão pelo Mais Querido (apelido do tricolor).

Durante a sua infância e adolescência, Mariana foi impedida pela sua mãe de ir acompanhar o seu pai nos jogos do Santa Cruz, por ela acreditar ser um ambiente muito perigoso para uma criança. Ao longo dos anos, a estudante não criou o hábito de acompanhar futebol até surgir o desejo de comparecer a uma partida, quando tinha 20 anos. ‘’Eu me apaixonei e não quis mais parar de ir ao estádio (…) reacendeu a minha paixão pelo Santa Cruz, a vontade de apoiar e torcer de perto.Sou fã do Santa Cruz e a arquibancada faz parte dessa minha conexão’’, declara.

Desde aquele dia, Mariana permaneceu indo ao Arruda, relembrando até momentos de quando seu avô ensinou para ela os cantos da torcida tricolor, que ela canta no estádio atualmente. Inclusive, seu momento mais marcante com a camisa do Santa Cruz aconteceu no dia 16 de janeiro de 2025, doze anos depois do falecimento do seu avô.

‘’No final das contas, futebol é sobre esse amor que é muitas vezes passado de geração em geração como no meu caso. Então, esse dia foi muito especial para mim, pois lembrei muito do meu avô’’, conta Mariana.

No jogo em questão, o time coral superou (por 2×0) o Petrolina, em partida válida pelo Campeonato Pernambucano. A euforia na arquibancada levou em conta também o fato da assinatura da proposta vinculante para a venda de 90% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Santa Cruz ter sido assinada pelo presidente Bruno Rodrigues, no dia 13 de janeiro de 2025.

A jovem tricolor evita os jogos considerados mais perigosos, como os clássicos e partidas decisivas que podem interferir no temperamento dos torcedores. ‘’Após o episódio do dia 1° de fevereiro deste ano, o que aconteceu é de gerar pânico e medo no torcedor, porque às vezes as pessoas que não tem nada a ver sofre com a situação. Então, eu tenho muito medo e dúvidas se eu iria para um jogo com torcida mista’’, salienta a jovem.

Contudo, sempre que pode ela vai marcar presença no Arruda. ‘’No estádio observamos pessoas de diferentes idades e classes sociais juntas num só ideal vibrando com o time. Isso é lindo. A gente realmente se conecta com a torcida e entende o poder do futebol e do amor ao clube’’, afirma Mariana.

Apesar dos riscos e da violência no futebol, a história desses três torcedores mostra que o amor pelo clube resiste. Entre memórias, pertencimento e paixão, eles seguem firmes nas arquibancadas, provando que, para quem vive o futebol de verdade, o sentimento é mais forte que o medo, afinal, como diria o artista pernambucano Capiba ‘’Por um amor eu não choro. Prefiro sempre cantar’’.