No Brasil, as Torcidas Organizadas (TOs) carregam uma dualidade que há décadas desafia o olhar da sociedade. Por um lado, são vistas como forças institucionalizadas, capazes de mobilizar milhares de torcedores, organizar festas grandiosas nas arquibancadas e manter viva a cultura do futebol, na mesma medida que são associadas aos casos de violência, as preparações para confrontos e marginalizados por essas práticas.

Segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública, até o mês de março de 2022, o Brasil contabilizava um caso de violência no futebol a cada quatro dias. Em contrapartida, a média de público pagante apresenta números significativos, segundo ranking realizado pelo portal GE, em maio de 2025. Dentre as maiores médias, como mandante, estão times como Corinthians (1°), com mais de 44 mil, Cruzeiro (2°) e Flamengo (3°), próximo de 31 mil, e Santa Cruz (9°), com cerca de 23 mil.

Ou seja, compreendemos que a festa continua, apesar dos casos de violência existirem e, infelizmente, se manifestam de maneira concreta nos estádios e arredores. Mas essas duas óticas não contam toda a história.

Por trás dos bandeirões, mosaicos, estandartes, batuques e cantos, há também um trabalho silencioso, mas fundamental entre os torcedores organizados que se mobilizam em ações sociais, promovendo campanhas solidárias, distribuindo alimentos, apoiando causas comunitárias e exercendo um papel ativo em seus territórios – clubes.

Em 2018, a Torcida Organizada Fúria Alvinegra realizou um protesto juntamente com outras organizadas do Clube Atlético Mineiro, solicitando o fim da marginalização do torcedor organizado. Nas redes sociais, a mensagem era clara: “Que julguem e culpem os culpados, as organizadas não podem responder pelo ato de marginais que se escondem atrás de nossas camisas”.

Não podemos reduzir o diálogo com todas as torcidas organizadas apenas à violência, pois estaríamos apagando a complexidade de um fenômeno que também gera pertencimento, identidade e transformação social. É com esse ímpeto de entendê-las para pensar o futuro do futebol que esta reportagem decidiu ir em busca de iniciativas que contribuam com o seu clube de coração dentro e fora dos gramados.

Hélio Dantas, de 33 anos, é membro da Torcida Organizada Avante Santa Cruz – Portão 10 desde a fundação, em 2007, quando um grupo de amigos decidiu transportar uma comunidade do Orkut para as arquibancadas do Estádio José do Rego Maciel (ou Arruda). O torcedor criando vínculos com a Barra Brava (nome original) durante os jogos e com o tempo assumiu responsabilidades administrativas.

‘’Creio que os torcedores organizados servem como referência para boa parte dos ‘torcedores comuns’, então, além do apoio aos jogadores durante a partida, que é nosso principal foco, também buscamos dar um bom exemplo em outras esferas, fora da arquibancada, mostrando que o Santa Cruz vai muito além de um simples clube de futebol’’, afirma Hélio.

Dentre as ações sociais da Avante Santa Cruz, estão campanhas solidárias para a comunidade nas redondezas do Arruda, arrecadação para custear as viagens das categorias de base ou revitalizar a quadra do Arrudinha, distribuição de cestas básicas para funcionários do clube e também a realização de atividades em datas comemorativas, como o Dia das Crianças.

’O impacto de realizar uma ação social é determinante, pois consolida o elo entre torcedor e clube. Essas ações das Torcidas Organizadas aguçam um pertencimento nos participantes e, consequentemente, faz com que os beneficiados enxerguem a grandeza da instituição Santa Cruz’’, expõe o torcedor.

Diante da marginalização dos torcedores organizados, Hélio não esconde a sua indignação aos estereótipos e generalizações que essas organizações sofrem, principalmente, da mídia.

‘’Essas ações sociais sempre existiram entre todas as torcidas, mas parte da imprensa não sabe ou até prefere não publicar, porque geralmente o que todo mundo quer e está acostumado a escutar são coisas ruins das Torcidas Organizadas. É fundamental uma matéria como esta para trazer o outro lado da moeda. A maioria dos integrantes das TOs estão presentes para apoiar e exaltar o seu clube, nada além disso’’, defende Hélio.

Sim, torcedores uniformizados podem arrumar confusão nas ruas da cidade, contudo, esses indivíduos não são comprometidos pelo dia a dia das torcidas. ‘’Os baderneiros que fogem dessa lógica não podem ser usados como referência, e sim, os que lutam pela valorização da sua torcida e clube. As TOs não podem ser estereotipadas por atos de grupos isolados’’, conclui.

Quem vive uma realidade semelhante é Luana Cordeiro, de 24 anos, da Torcida Timbu Chopp, do Náutico. No caso de Luana, a curiosidade de compreender o funcionamento por trás das Torcidas Organizadas levou ela, através de uma colega, a conhecer a história da Timbu Chopp. Em mais de um ano como integrante, a torcedora já alcançou um cargo na diretoria da TO.

‘’A Torcida Organizada não é nada do que a mídia fala. Existe uma história por trás, existem pessoas que fazem acontecer e que dão a vida pelo amor ao time. Eu aprendi com os torcedores da Timbu e acabei virando membro da família. Só quem vive sabe da paixão e da adrenalina que existe dentro de um estádio’’, exalta Luana.

Para a alvirrubra, a Timbu Chopp é um espaço para as pessoas encontrarem amizades e também uma forma de expressar suas emoções de maneira intensa, representando um senso de comunidade, união e paixão de amor ao Náutico. Nesse sentido, surgem as ações sociais desenvolvidas pela organização, como forma de contribuir com a comunidade do clube.

‘’Nossas ações sociais mais importantes acontecem em datas comemorativas (…) e podem contribuir para uma sociedade mais justa, solidária e consciente, além de mostrar que o amor pelo time pode caminhar junto com o compromisso social’’, expressa a torcedora.

Luana argumenta que o impacto das ações sociais podem colaborar na mudança da percepção negativa sobre as torcidas organizadas. ‘’Quando essas torcidas se envolvem em atividades que promovem a inclusão, a solidariedade e o bem-estar da comunidade, elas mostram um lado mais positivo e construtivo’’, finaliza a torcedora.

As Torcidas Organizadas de Sport foram procuradas pela reportagem, mas não retornaram até o fechamento desta matéria. Ainda assim, é importante destacar que essas entidades também realizam ações sociais relevantes, bem como mostram os dois exemplos apresentados ao longo do texto.

Iniciativas como essas evidenciam que, para além da rivalidade nos estádios, as TOs desempenham um papel ativo e comunitário em Pernambuco, contribuindo de forma concreta para seus clubes.