Recentemente, viralizou em páginas e perfis tricolores nas redes sociais um vídeo de um pai tricolor com o seu pequeno filho nos braços, comemorando a vitória do Santa Cruz contra o Ferroviário, do Ceará, no Arruda, pela sétima rodada da Série D do Campeonato Brasileiro 2025. De imediato, esbocei um sorriso alegre ao ver o momento, no entanto, após uma longa pausa de reflexão notei que eu não me lembro da minha primeira vez no estádio.

Antes, vamos voltar no tempo. Rubro-negro de berço, eu não tive muita escolha se não torcer pelo Sport, afinal, pai, mãe, avô, tio, irmão e quase todos os familiares – que se importam com futebol – são torcedores do Leão da Ilha. Antes mesmo de aprender a falar, as cores vermelhas e pretas faziam parte do meu guarda-roupa, contudo, não me recordo de nenhum momento torcendo para o Sport.

Claro, partidas televisionadas chamavam a minha atenção e conseguiam – por alguns instantes – me aquietar, mas eu nunca torci. Eu não nem gostava de futebol, até então. O que mudou na vida deste jornalista para que ele decidisse anos depois dedicar o seu tempo e escrever esta crônica sobre sua relação com o futebol?

Bom, vamos lá!

Depois de anos separada, minha mãe, conhecida popularmente como Dona Ceça, casa novamente com um antigo amor da sua graduação, inclusive, eles se conheceram na Universidade Católica de Pernambuco, ela cursando Psicologia e ele Geografia – veja a ironia do destino que também me levou a escrever este texto na Unicap.

Após o relacionamento ser abençoado pelos pavões, nós mudamos para a casa de Fernando, que hoje tenho o orgulho de chamar de pai. Na época, ele dificilmente perdia um jogo do Santa Cruz, adorava ir ao estádio beber, confraternizar com os amigos tricolores e torcer pelo ‘’santinha’’. E não demorou para passar esse sentimento para mim, seu filho mais novo. Seus filhos de outros casamentos, já estavam preocupados com o vestibular e moravam em outras casas, não tinham o costume de acompanhá-lo. Mas eu tive. Como disse, eu não lembro da minha primeira vez no estádio, mas guardo m mim diversas memórias e saudades de um Arruda sempre lotado, sempre cantando, sempre tricolor. Desde o primeiro jogo – que não faço ideia qual tenha sido – até hoje, o sentimento é o mesmo: amor.

O que foi paixão à primeira vista se tornou um sentimento muito maior de identificação e pertencimento. Evoco lembranças banais, como o cheiro de cerveja que impregna após a comemoração de um gol, subir nas costas do meu pai, a mão tingida pelo corante vermelho do picolé, a manteiga da pipoca salgada, a providência duvidosa do salsichão, os mosaicos, os bandeirões, as faixas de campeão, até de Jesus Tricolor, uma entidade no Arruda.

Recordo de partidas importantes, como a vitória na Copa do Brasil em cima do São Paulo, com mais de 40 mil torcedores no estádio, os estaduais vencidos contra o Sport e o título inédito da Copa do Nordeste, em 2016. Claro, nada disso teria o meu sorriso se não tivesse em cada um desses momentos o meu pai ali do lado comigo.

Uma vez ‘’minha jóia’’, Thiago Medeiros, questionou o meu pai. ‘’Fez o menino virar tricolor, senhor Fernando? Pelo menos viveu momentos áureos’’, claro que sim!

Mas também, aprendi que a vitória é somente uma das possibilidades de resultado de uma partida, mas a festa nas arquibancadas é fundamental para se viver. A composição de Capiba é certeira: Santa Cruz, Santa Cruz // Junta mais esta vitória // Santa Cruz, Santa Cruz // Ao teu passado de glória.

Juntos, o sentimento de unidade que desejo passar adiante é fruto de uma vivência que não me recordo quando começa, tampouco me preocupa como irá acabar, pois o que eu quero mesmo é continuar sendo tricolor, e por enquanto, isso basta.