As muitas faces de um luto para quatro mulheres do Recife
“Perder essas três figuras foi das coisas mais cruéis e dolorosas que poderiam ter me acontecido”. Essa fala é de Gabriela Medeiros, professora recifense de 34 anos, que perdeu a mãe, a avó e o tio em um intervalo de dois anos. A dor de perder quem se ama, como muitos sabem e já experienciaram, chegou sem avisar e foi quase que instantânea. Gabriela viveu na pele esse processo tão complexo e cheio de camas que é o luto ao perder três dos grandes amores, e teve sua vida transformada depois disso.
Como em 53,9% dos lares pernambucanos, essa família também era chefiada por duas mulheres: Eliete Medeiros, 92 anos, e Maria de Lourdes Medeiros, 64 anos. A relação filha, mãe e neta era a força motriz daquela casa. “Sempre fomos nós três, em tudo e para tudo”, diz Gabriela. As raízes femininas eram fortes naquele lugar, mas, o que não se imagina, é que ali também houve a presença marcante de uma figura masculina, a quem a professora o referenciava como pai, o tio Ezio Medeiros, de 64 anos. “Foi o tio mais presente na minha vida. O que eu mais amei e por quem eu mais fui amada”, contou. “Às vezes, no horário do almoço, dormia enquanto eu massageava as pernas dele com creme hidratante”, lembra.
Em outubro de 2021 tudo isso mudou. Ezio faleceu repentinamente, vítima de um infarto – maior causa de mortes no país, segundo dados do Ministério da Saúde. “Foi um baque. Como assim tio Ezio havia morrido? Ele estava vivo ontem, falando comigo, andando e se alimentando bem. Não era possível”, conta Gabriela.
Exatamente um ano depois, ela se viu no mesmo lugar, tendo que se despedir de mais um parente. Foi a vez da matriarca da família, dona Eliete, vítima de uma sepse de foco respiratório combinada com a depressão psicótica. “Vovó se foi depois de eu e mãinha lutarmos muito para que ela ficasse”, conta. “Foi o pior dia da minha vida. Eu perdi o norte, o chão, um pedaço de mim”, finaliza. Mas diante das incertezas, a dor precisou se tornar a força. Foi preciso escantear o sentimento, para fortalecer quem ainda estava ali por e com ela: sua mãe.
No entanto, não foi suficiente. Em novembro de 2023, Gabriela perdeu sua mãe, em decorrência de um edema pulmonar agudo secundário a um infarto. “A ausência de alguém que se vai para sempre é cruel. Principalmente quando é alguém com quem você conviveu todos os dias, durante mais de 31 anos. Precisei, e ainda preciso, a duras penas me acostumar com essas ausências tão gritantes”, expõe. “Isso me faz perceber que a nossa relação sempre foi de muito estar-presente, de muita atenção e de muito respeito, mas, sobretudo, de muito amor”, diz Gabriela.
“Ninguém nunca está pronto para perder quem ama”
Esse turbilhão de emoções, muitas vezes não entendidas, realmente é parte da rotina de um enlutado. Em meio a dor, a mágoa, a angústia e a raiva por estar vendo quem amamos partir, também somos tomados pelo sentimento de gratidão por termos tido aquela presença potente em nossas vidas. A estudante de 22 anos Manuela Maia atravessou esse deserto com a perda do pai e, no processo de ressignificação, as diversas faces do luto tomaram conta da sua existência. Na verdade, ainda tomam. “É um processo muito doido, porque ao mesmo tempo que você se prepara, ninguém nunca está pronto, sabe? Ninguém nunca está pronto para perder quem ama”, explica.
Cássio Maia, pai de Manuela, enfrentou o câncer de pâncreas – responsável por cerca de 1% de todos os tipos de câncer diagnosticados e por 5% do total de mortes causadas pela doença. Quando um diagnóstico dessa proporção chega em uma família, acontece quase que um adoecimento coletivo. Tudo se desmorona e falta chão abaixo dos pés. Essa despedida, de alguém que não volta, eu diria ser quase impossível de ser descrita, porque é muito particular de quem vivencia na pele. No entanto, Manuela tenta, em palavras, trazer um pouco dessa percepção.
“É como eu digo sempre para todos, ele [o luto] não é linear, ele vai e volta, ele arranca, tem dias que ele arranca, sabe? Ele me deixa desamparada e depois ele me acalma, ele me acalenta.”, explica. “Eu amava muito ser filha dele, ainda amo ser filha dele. E eu levo essa relação para o resto da minha vida, sabe? E eu tento pensar nela, nutrir ela, todos os dias”, finaliza Manuela.
E ela realmente faz. Tanto faz, que nos últimos seis meses, tirou parte do seu tempo para revisitar amigos dele. Amigos estes que, mesmo sem conhecê-la, o acolheram como filha. Para ela, esses encontros com o passado foram essenciais. “Foi muito importante paraa mim”, resume. Mais do que preencher lacunas, ouvir sobre o pai por outras bocas foi como reencontrá-lo, mesmo que por instantes, através da memória coletiva de quem o conheceu.
Em um trecho do livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, a autora Ana Claudia Quintana diz que: “A dor do luto é proporcional à intensidade do amor vivido na relação que foi rompida pela morte, mas também é por meio desse amor que conseguiremos nos reconstruir”. Esse pensamento mostra que somos feitos, também, de memórias e das lembranças daquilo que já passou. Aquilo que nos atravessa diariamente. Todo o resto, mesmo que palpável, é finito. E o luto é exatamente sobre isso, relembrar e ressignificar momentos que passaram.
A cura fora do hospital
O diagnóstico de uma doença em estágio avançado e sem perspectiva de cura impõe uma dura realidade e levanta uma pergunta inevitável: por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Um câncer metástico – quando as células cancerosas se espalham de um tumor primário para outros órgãos – transforma profundamente a vida de quem o recebe e de todos ao redor do paciente. Como não há cura, somente tratamentos paliativos para prolongar o tempo e aliviar sintomas, cada dia passa a ter um peso mais urgente e de incerteza constante. Essa incerteza tomou conta não só da família de Manuela, mas de uma outra, a família Dantas: Gercimar, Sandra e Geandra.
Gercimar e Sandra se conheceram em 1991, ele com 22 anos, ela com 14. Ele foi seu primeiro namorado.
O relacionamento, por muito tempo, foi mantido por meio de cartas e telefonemas trocados ao longo dos anos, devido a um período em que Gersimar percorreu diversos estados em função de cursos de formação militar. Até que o casal finalmente conseguiu se estabelecer e dar início ao sonho de formar uma família. Em 1996, nasceu Geandra, a “filha sonhada e desejada”. Desde então, eram os três para tudo. Foram anos de mudança constante entre cidades, até se fixarem definitivamente no Recife.
Mas justo quando tudo parecia se encaixar, a família foi acertada por um duro golpe: Gercimar foi diagnóstico com um câncer no intestino — o terceiro mais comum no país — já em estágio 4, com metástase no fígado. “Parecia mentira, pois ele era um homem saudável, extremamente forte e nunca adoecia”, relata Sandra.
Foram dois anos e meio de tratamento e 64 sessões de quimioterapia. Geandra, a única filha do casal, cursava medicina e já conseguia entender toda a gravidade da situação, mas poupava a mãe de ainda mais sofrimento. “Ele era nossa prioridade e mesmo naquele cenário, tínhamos nós três juntos como sempre tinha sido a vida toda”, conta.
Enquanto o corpo já dava sinais de partida, a formatura de Geandra foi colocada no meio de caminho. Ao mesmo tempo que os eventos se aproximavam, a sensação era de que, a qualquer momento, ele partiria. Mas muitas vezes, o inesperado, no melhor sentido da palavra, chega e muda tudo.
Era início de janeiro quando toda uma operação foi realizada para concretizar um único sonho: a presença dele na festa. Assim foi feito. Os médicos que dele cuidavam autorizaram uma transfusão de sangue para dar aquele corpo forças, mesmo que poucas, para viver aquele dia mágico para os três. Só houve um único problema, os sapatos. Devido ao inchaço dos pés, causados pela doença, nada caberia nos pés de Gercimar. Foi apenas de meias. O constrangimento por parte dele, se fez presente, o que não foi um problema. Como símbolo de todo amor, companheirismo e cumplicidade que circuncidava aquela família, Sandra e Geandra desceram do salto e, juntos, entraram no salão da Coudelaria Souza Leão sem dar importância para qualquer outra coisa que não fosse o elo que os unia.
Dançaram, se divertiram e viveram das melhores noites que poderiam. Parecia a cura, mas não a cura literal da doença, a cura de um processo angustiante que, por algumas horas, parecia não mais existir. Viveram a vida como ela importa e não baseada somente es prognóstico médico. Gercimar morreu uns dias depois do baile. Mas não sem antes segurar em suas mãos a carteira do Conselho Regional de Medicina de Geandra, o símbolo de tudo aquilo que viveram juntos.
Aquela era a materialização de anos de esforço. Era o sonho de uma vida inteira. “Para ele foi o fim de um sofrimento. Para a gente, o início de uma saudade”, conta Sandra, a esposa. “Encontramos sentido na vida colocando em prática tudo aquilo que a gente tinha certeza de que ele gostaria de fazer. Fizemos viagens, fomos a lugares que ele queria ir, revisitamos outros que ele amava frequentar”, finaliza.
O processo do luto é mesmo uma longa e dolorosa revisão de todas as memórias do falecido, até que a pessoa consiga, enfim, seguir em frente. Apesar de diferentes, as histórias de Gabriela, Manuela e Sandra se cruzam exatamente no mesmo ponto: a saudade de quem foi e o amor de quem ficou. O difícil do luto é entender como alguém que “até ontem” fazia parte do meu mundo, de repente, passa a existir de outra forma. Menos presente no cotidiano, mas ainda entrelaçado de alguma maneira àqueles que o amaram. “Comíamos a comida preferida, chorávamos e sorriamos mergulhadas em lembranças. E assim, a saudade encontrava de alguma forma, alívio”, compartilha Sandra.
