Marianne Branquinho é psicóloga clínica e especialista em luto. Em 2015, pouco depois de concluir a graduação, passou pela perda do pai e, sem nem esperar, esteve diante de algo que ela nunca havia sentido tão presente, a morte. Foi durante esse “deserto” que a terapeuta percebeu não ter sido preparada ao longo da universidade para auxiliar as pessoas a atravessarem o processo do luto, inclusive, o dela mesmo.

Nesta entrevista pingue-pongue, Marianne, formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), traz informações de como se dá a ressignificação desse sentimento tão complexo e profundo. A psicóloga possui especialização em Saúde na modalidade de Residência Multiprofissional pelo Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/HU). Após concluir a residência, iniciou uma formação em Tanatologia, o estudo sobre a morte e o morrer. Desde então, vem integrando essa abordagem em sua atuação profissional, promovendo reflexões e práticas voltadas ao cuidado, à escuta sensível e à humanização dos processos de fim de vida.

O Berro – Quanto tempo dura o luto?

Marianne Branquinho: Não existe um tempo exato. É um processo individual, que varia muito de pessoa para pessoa e depende de diversos fatores. A natureza da perda, a idade da pessoa enlutada, o tipo de vínculo com quem partiu, a presença ou ausência de rede de apoio, o momento de vida em que a perda ocorre, tudo isso pode influenciar a intensidade e a duração do luto. Pode durar meses ou anos e não segue uma trajetória linear. O mais importante é observar se, com o passar do tempo, a pessoa consegue retomar a vida, vislumbrar novos projetos, criar possibilidades e encontrar formas de manter um vínculo simbólico com quem partiu.

O Berro – Em meio a este processo, somos atravessados por diversos sentimentos. Quais são as fases do luto? É possível descrevê-las?

MB: Essa ideia (fases do luto) é uma forma didática de compreender as diferentes reações emocionais que podem surgir após uma perda, mas é importante lembrar que o luto não segue uma ordem fixa ou linear. As cinco fases mais conhecidas foram descritas pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. No entanto, nem todas as pessoas passam por todas essas fases, e elas não acontecem necessariamente nessa ordem.

O Berro – Então é normal sentir raiva ou evitar falar de uma pessoa que faleceu?

MB: O luto é um processo complexo que envolve muitas emoções, e nem todas são socialmente esperadas ou bem compreendidas. Então, sim, é normal. Esses sentimentos podem surgir, dependendo da história e do vínculo com quem faleceu. Isso tudo também pode ser uma forma temporária de lidar com a dor, especialmente quando a perda é recente ou quando há conflitos não resolvidos. Essas reações fazem parte do processo e não devem ser vistas como sinal de falta de amor ou desrespeito. Com o tempo, e com acolhimento, essas emoções tendem a se reorganizar, abrindo espaço para outras formas de lembrança e conexão.

O Berro – O luto pode se tornar patológico?

MB: Muitas pessoas usem o termo luto patológico, mas na prática clínica preferimos falar em luto prolongado ou complicado. Isso acontece quando a pessoa permanece por muito tempo imersa no sofrimento, sem conseguir alternar entre momentos de dor pela perda e movimentos de restauração da vida. Essa oscilação, entre se voltar para a ausência e retomar aos poucos a rotina, os vínculos e os projetos, é esperada e saudável no processo de luto. Quando ela não acontece, e a dor se mantém constante e paralisante, é importante ficar atento.

O Berro – Muitas pessoas encontram conforto em rituais de despedida ou homenagens. Qual o papel dessas práticas na jornada do luto?

MB: Essas práticas marcam simbolicamente a perda, permitindo que a pessoa enlutada reconheça que algo mudou, que alguém se foi, e que a vida precisa ser reorganizada. Elas também oferecem um espaço de expressão emocional, onde é possível compartilhar a dor, o amor, as memórias e receber o suporte de outras pessoas. Os rituais criam um senso de continuidade. Eles mostram que, mesmo com a ausência física, o vínculo pode permanecer. Seja através de uma carta, uma vela acesa, uma música, um lugar, um gesto simples – essas ações são formas de se conectar com quem se foi.

O Berro – Quando perdemos alguém, são apenas as lembranças que ficam e é nelas que projetamos nossos sentimentos. Como essas memórias podem servir de conforto e não de dor?

MB: As memórias costumam doer muito, mas com o tempo e o acolhimento do luto, elas podem se transformar em fonte de conforto. Isso acontece quando a pessoa enlutada consegue acessar lembranças não apenas com tristeza, mas também com afeto, reconhecimento da história vivida e gratidão pelo vínculo. Para isso, é importante não evitar as memórias, mas criar espaços seguros para que elas sejam lembradas, contadas e compartilhadas. Quando o luto é elaborado de forma saudável, as lembranças deixam de ser apenas uma lembrança da perda e passam a ser também uma forma de presença emocional e continuidade do amor.

O Berro – Então, para que esse processo seja saudável, o que você considera fundamental no acolhimento de uma pessoa enlutada?

MB: Oferecer presença, escuta genuína e ausência de julgamentos. É essencial respeitar o tempo e o ritmo de quem vive o luto, sem tentar apressar o processo ou minimizar a dor. Ouvir frases simples como “estou aqui se quiser falar sobre isso” ou “você não precisa dar conta de tudo agora” podem ter um impacto profundo (no enlutado). Mais do que dizer algo certo, o mais importante mesmo é estar disponível de forma afetiva, criando um espaço seguro para que a pessoa possa sentir e expressar sobre sua perda.

O Berro – Quais são as principais dificuldades que as pessoas enfrentam ao tentar ressignificar uma perda?

MB: Com certeza a pressão social para superar rapidamente o luto. Temos uma cultura que valoriza a produtividade e o controle das emoções, o que faz com que muitas pessoas sintam que não têm permissão para viver sua dor com autenticidade. Além disso, a falta de espaços seguros para expressar o sofrimento e de uma rede de apoio empática tornam o processo ainda mais solitário. Ressignificar uma perda exige tempo, acolhimento e a possibilidade de reconstruir vínculos simbólicos com quem partiu.

O Berro – É comum ouvirmos a expressão “o amor que fica” mesmo quando alguém parte. Como podemos manter esse vínculo sem que ele se transforme em sofrimento?

MB: Essa expressão traduz bem a ideia de que o vínculo com quem partiu não se desfaz com a morte. Esse sentimento pode continuar existindo de forma simbólica, por meio de memórias, rituais, gestos cotidianos, ou até em escolhas que a pessoa enlutada passa a fazer inspirada por quem se foi. Para que esse vínculo não se transforme em sofrimento constante, é importante permitir que ele evolua: sair da dor aguda da ausência e encontrar formas saudáveis de integrar a lembrança à vida que continua. O amor que permanece pode ser fonte de força, saudade e significado.