Uma carta aberta ao meu pai Celso
Desde dezembro de 2011 não teve um dia se quer em que não pensei em você, papai. São nas coisas mais comuns do cotidiano que, de alguma maneira, você se faz presente. Eu o sinto, o vejo, o percebo e o procuro em diferentes circunstâncias, porque os poucos, mais muito bem vividos nove anos de vida em que tive sua presença física foram tão marcantes, que eu nunca aprendi a conviver com essa ausência, mesmo após tantos anos. Já são quase 14 anos para ser mais exata. Eu era só uma menina, completamente louca e apaixonada por você, e você me deixou. Você foi arrancado da minha vida e eu não tive nem a chance de me despedir. Mas há quem diga que na medida em que o tempo vai passando, o luto vai abrindo espaço para sentimentos mais leves e aceitáveis. Eu não concordo com isso. A dor não muda, ela não se transforma e não vai embora. Ela continua a mesma, mas a gente que precisa reconstruir nossa vida em torno daquela mesma dor. Tanto é que, por muitas vezes, eu sinto como se você tivesse partido na noite de ontem, é como se eu voltasse no tempo e vivesse mais uma vez o dia 29 de dezembro de 2011. É uma dor que sufoca, rasga o peito e me deixa vulnerável em meio a solidão que toma conta do meu ser. Ela chega, sem nem pedir licença, e faz morada. É uma solidão angustiante, penetrante e difícil de acostumar.
Uma vez eu li que perder um pai ou uma mãe traz à pessoa algumas mudanças. A gente ganha um selo de tristeza de órfão que não desprega da pele por nada, culpa e ônus da saudade. Eu não poderia concordar mais. É uma sensação de desamparo constante e de que parte da minha história se foi junto contigo. Isso por muito tempo me fez sentir-me ingrata, porque você se foi, mas mainha ficou. Mesmo sem forças, sem direção e sem saber como dar continuidade a esta família, foi ela a nossa fortaleza e é ela que nos mantém firmes até hoje. No entanto, ela continua sendo somente a minha mãe, porque o meu pai, o meu painho, eu já não tenho, e nada do que for feito, pode transformar ou amenizar essa ausência masculina tão visceral.
Em meio a tudo isso, eu preciso te confessar uma coisa, desde que você partiu, criei um hábito um tanto quanto curioso em momentos de insegurança: fingir que você está comigo, porque tudo era mais fácil com você. De apresentações do meu tempo de bailarina até os dias de sufoco para tirar a “carta” de habilitação, eu te visualizei em todos os momentos. Parece perturbador, mas de alguma forma isso me deixa mais leve. Eu gosto de pensar em como as coisas seriam diferentes se você ainda estivesse aqui. Por muitas vezes eu fiz questionamentos a Deus, porque para mim não parece justo com tantas pessoas ruins no mundo, um homem tão bondoso, parceiro, companheiro e amoroso partir e deixar sua esposa e seus dois filhos, sendo eles uma criança e um adolescente. Não me parece certo, sabe? Quem os daria a presença paternal? Quem seria capaz de preencher esse espaço de dor no coração? E a verdade é que não há o que ser feito. São marcas que carrego comigo para todo sempre. Não há tempo, terapia, remédios ou qualquer outra ferramenta que seja capaz de mudar. Você conseguiu me dar uma eternidade dentro de nove anos, pai. Hoje eu só tenho as lembranças e eu não quero me distanciar delas, quero deixa-las perto, inteiras, vivas e presentes, pois é te revisitando em memórias que eu consigo tornar tudo um pouco mais suportável.
Mas hoje eu te escrevo não para falar só de tristeza, porque esse substantivo não combinava contigo. Eu quero lembrar de todos os momentos que compartilhamos juntos. Você moldou parte da minha personalidade, e isso é tão verdadeiro que já perdi as contas de quantas vezes me compararam a ti. Muito do que sou, é por sua causa.
Foi você que me ensinou como viver é magnífico, e também como devemos fazer do hoje o melhor dia de nossas vidas. Um homem destemido, corajoso, divertido — essa era sua maior qualidade — e capaz de fazer qualquer momento ser grandioso. Sua presença forte e marcante deixou marcas profundas em todos que tiveram o privilégio de te conhecer. Mas em mim, aquela menina de cachinhos e sorridente, essa partida tocou em lugares ainda mais delicados.
Até hoje, quando coloco I don′t wanna talk about it de Rod Stewart eu me tele transporto para os dias em que, juntos, sentávamos na área de televisão da nossa casa e você me apresentava uma coletânea de sucessos internacionais com grandes clássicos da música como La Isla Bonita, We Are The World, Total Eclipse of The Heart e My Heart Will Go On. Era engraçado como em uma fração de minutos passeávamos disso para um grande clássico da música brasileira, sobretudo nordestina: Calcinha Preta. Acho que isso era uma das coisas que te fazia único, a capacidade de transitar em diferentes grupos, perfis e estereótipos. Você era querido por todos que te conheciam e eu não exagero quando digo isso, porque não são declarações minhas, mas daqueles que falam de você para mim sempre que os encontro. Todo mundo tem uma história incrível ao teu lado e isso é um dos meus grandes confortos: saber que você foi essencial em vida. Para mim, foi pouco, mas na verdade eu gosto de acreditar que vivesse tempo suficiente para se tornar inesquecível. Foram os anos necessários para que você viesse, desse seu show e retornasse para a vida eterna. Como uma estrela cadente, que realiza sonhos, traz felicidade e euforia. Você foi isso.
Existem dias que me pego pensando o que você diria para mim, o que você me ensinaria, os lugares que conheceríamos… muita coisa mudou por aqui, acredita? Mainha aprendeu a sacar dinheiro no banco; Júlio está trabalhando na Usina, assim como você e eu estou namorando. Conheci um homem incrível, que me apoia, incentiva e que todos os dias conversamos sobre como a relação de vocês dois seria especial. Mas teve algumas outras coisas que não mudaram: o amor que sentimentos por você, o lugar que ocupas e o que representas para todos nós. Isso, nada e nem ninguém pode nos tomar. Eu te amo para todo sempre, painho. Naquela mesa continua faltando você.
