Julia Bento do Nascimento, uma mulher vinda da cidade de Taquaritinga, no interior de São Paulo, foi vítima de violência contra seus direitos. Teve a alfabetização, seu entendimento de si própria como indivíduo na sociedade, negado pelo patriarca de sua família, horrorizado diante dos livros de geografia e história na posse da filha por terem a capacidade de elucidar a percepção da jovem quanto a suas aptidões para além da sombria ilusão de apenas servir como uma dona de casa.

Em 1937, com apenas 17 anos de idade, Julia veio sozinha ao Recife, sem saber nada e sem conhecer nada, em busca de trabalho. Acabou por encontrar emprego em uma fábrica na Macaxeira, onde conheceu seu marido, José Laurentino do Nascimento, de falsa natureza doce, que aguardou apenas aprisioná-la com o grilhão em forma de aliança para então exercer seu papel de algoz e fazê-la passar por inúmeras formas de violência.

Ela, como muitas outras mulheres, se via forçada a permanecer em um relacionamento abusivo. A sociedade esperava dela, como esposa, total obediência ao seu marido, o divórcio sendo, até hoje, visto com maus olhos. Sua família, primeira a ensinar-lhe esse ideal maldito, em vergonha a rejeitaria por ter fracassado em seu “papel” como mulher domesticada. Não importa o que ela fizesse, entre escolher diferentes formas de violência não há escolha real.

Junto de seu agressor, foi morar no alto da loira, no Brejo da Guabiraba, onde cresceram seus sete filhos, que consistiam em três homens e quatro mulheres. Sem o auxílio de e seu marido, ela teve de lutar sozinha para cuidar de suas crianças, trabalhando incansavelmente, noite e dia, na máquina de costura, mesmo passando fome, para conseguir dar o que comer a eles.

Entre eles havia a pequena Ana Cláudia, uma jovem com uma deficiência física que, embora o esforço incessante da mãe, por boa parte de sua infância não teve meios para se adquirir uma cadeira de rodas por se encontrar em uma posição financeira muito precária, precisando se locomover através do uso de uma bola de pilates, que mais tarde seria trocada por um triciclo.

Mesmo crescendo em um ambiente hostil e opressor, testemunhando as agressões físicas diariamente sofridas por sua mãe e escutando comentários alheios que a reduziam a um fardo sobre os ombros da família, Cláudia foi uma menina de gênio forte, não permitindo com que a violência do mundo a impedisse de brincar e dançar de seu jeito.

No entanto, aos oito anos de idade, lhe foi imposta a mesma violência sofrida pela mãe, sua alfabetização também lhe sendo negada, precisando ser retirada da escola por falta de acessibilidade na ladeira entre o morro onde ela morava e a instituição de ensino onde estudava. Isso fez com que Ana Cláudia sentisse uma inadequação quanto a ela mesma, questionando o motivo por ela não “merecer” estudar como as outras crianças, ideia essa que sua irmã, Maria do Carmo, não aceitaria.

Maria, conhecida como “Carminha”, sempre foi uma mulher com miolos na cabeça e um coração forte batendo no peito, trabalhando incansavelmente para melhorar a sua vida e a daqueles que ela amava, especialmente Cláudia, apelidada carinhosamente de “Caluda” por ela. Desde cedo demonstrava uma preocupação com os estudos da irmã, indo além para garantir sua alfabetização, contratando uma tutora particular com seu dinheiro suado.

Ao completar quinze anos, Caluda, depois de muita luta, finalmente conseguiu adquirir a cadeira de rodas, algo que, embora necessário, abalou por completo sua percepção de si. Agora, sim, ela passou a se enxergar como uma deficiente. Isso e a impossibilidade de estudar fizeram com que ela passasse a conceder falsa veracidade aos comentários que ouvia desde criança, que a categorizavam como um fardo, indigna de viver dentro da sociedade junto das outras pessoas.

Carminha não permitiu com que a sociedade fizesse sua irmã pensar menos de si mesma, tal qual fizeram com sua mãe, e argumentou a Caluda que a cadeira de rodas não era obstáculo, que aquela criança alegre e sabida ainda estava lá, persistindo mesmo em meio a tanta adversidade. Ela não podia desistir de lutar para continuar estudando, porque somente a educação as libertaria de toda aquela violência.

Caluda levou isso para o coração, se esforçando cada vez mais em seus estudos e não permitindo com que ninguém a diminuísse por conta de sua condição física. Inspirada em sua irmã, ela sonhava em cursar Direito na faculdade como uma forma de ajudar aqueles como ela a lutar por seus direitos, determinada a ajudar e a provar o potencial no qual Carminha sempre acreditou.

Infelizmente, Maria do Carmo veio a falecer repentinamente com 27 anos por conta de um infarto fulminante, assim cortando o acesso de Caluda ao tutor particular que a auxiliava. O luto causado pela perda de sua irmã, a responsabilidade de agora ser a única de seus irmãos a estarem dispostos a cuidar de sua mãe e a inacessibilidade de terminar seus estudos fez com que Ana Cláudia, agora sem o seu maior suporte, caísse em uma profunda depressão.

No entanto, Wyllyams do Nascimento, seu sobrinho, quase como influenciado por Carminha em espírito, não a permitiu desistir de seus sonhos, a incentivando a ir atrás de seus direitos através de um estudo independente pela internet, a matriculando em um curso de informática. Assim, sendo carregada de cima a baixo todos os dias pelo sobrinho, Caluda foi se informando quanto aos seus direitos, motivada pelas palavras da irmã que pairam na eternidade.

Por meio desse estudo independente, chegou ao conhecimento de Caluda o direito a um Transporte Escolar Inclusivo, um serviço oferecido pelo poder público que visa garantir um meio de transporte aos estudantes com deficiência para levá-los a escola. Mesmo assim, o veículo providenciado pela prefeitura não era capaz de subir o morro, fazendo com que ela precisasse ser carregada 50 degraus nos braços de um vizinho até o local onde a van estava estacionada. Depois de muito esforço e luta, ela conseguiu terminar o fundamental aos 35 anos de idade.

No entanto, ao tentar ingressar no ensino médio, o governo lhe negou o transporte até a escola, com o pretexto de que o veículo designado a essa tarefa, embora conseguisse subir, não conseguia descer o morro. Caluda sabia que o transporte inclusivo tinha a obrigação de buscar o aluno em sua residência para levá-lo diretamente à instituição de ensino, independente das barreiras de acesso e a dificuldade de locomoção. Ou seja, se a van não conseguia efetuar a tarefa, a prefeitura tinha a obrigação de providenciar um veículo mais capacitado.

Aconselhada por uma amiga trans, acostumada a enfrentar a violência da sociedade e a lutar por seus direitos, Caluda se matriculou na escola Tomé Gibson, onde a diretora era uma conhecida, como forma de pressionar o governo enquanto entrava com um processo no Ministério Público.

Levou três meses para que a Secretaria de Educação providenciasse um carro particular, mas, através de muita luta, Ana Cláudia conseguiu finalizar o ensino médio aos 48 anos de idade.

Durante todo esse tempo, o irmão mais velho de Caluda mostrava ter herdado o temperamento e o alcoolismo do pai, muitas vezes agredindo e ameaçando seus irmãos em surtos de raiva. Durante 27 anos ela suportou o abuso, sempre desencorajada pelos parentes a fazer a denúncia, mas a situação se tornou insuportável. Durante um episódio envolvendo a sua irmã, Cláudia foi até a Delegacia da Mulher, onde conseguiu denunciar seu agressor.

Depois do ocorrido, foi procurar auxílio no Centro de Referência Clarice Lispector, onde se acolhe e orienta mulheres em situação de violência doméstica e/ou sexista. Lá, teve acesso a um o atendimento gratuito de uma equipe multidisciplinar de psicólogas, assistentes sociais, advogadas e educadoras sociais, com os casos sendo acompanhados pela rede municipal de proteção à mulher. O Centro ainda dispõe de espaço para o abrigamento emergencial de usuárias em atendimento, acompanhadas ou não de filhos.

Foi no Clarice Lispector que ela recebeu a oportunidade de ingressar em uma universidade através de uma bolsa. Agora Ana Cláudia, Caluda, é uma estudante universitária no segundo período do curso de Gestão da Tecnologia na Uninassau e trabalha na multinacional Accenture, uma empresa de consultoria de gestão e tecnologia da informação.

Mesmo não seguindo a carreira no Direito, Caluda, muito inspirada em sua mãe e em Carminha, ainda luta em prol dos direitos humanos, participando de palestras sobre agressão doméstica no Instituto Maria da Penha (IMP), uma organização que funciona como um braço da entidade nacional, buscando apoiar ações voltadas para a qualidade de vida da mulher e para a conscientização sobre questões de gênero e violência sexista.

Ana Cláudia é uma mulher que lutou a vida toda por dignidade, movida por um amor que transcende a morte, eterno, que a move junto de milhares de outras mulheres que enfrentam violências todos os dias, sendo transformadas pelas políticas públicas pelas quais elas mesmas lutaram.