Entrevista com Dra. Camila Cardoso Borges – Psicóloga Clínica especializada em comportamentos compulsivos

O Berro – Por muito tempo relacionamentos românticos eram vistos como mandatórios para a felicidade humana. Como a psicologia moderna enxerga essa suposta necessidade?

Camila Cardoso Borges: A psicologia atualmente entende a necessidade de se buscar nosso autoconhecimento e, a partir desse entendimento sobre o que queremos, alcançar uma satisfação dentro de nós mesmos, não necessitando, assim, de uma relação amorosa para nos sentirmos completos. Além disso, a busca pelo autoamor precisa acontecer antes de se começar a buscar pelo amor vindo do outro, pois só assim, ao entendermos aquilo que nos traz felicidade, podemos adquirir uma probabilidade maior de se construir um relacionamento saudável. Sem isso, podemos acabar por permitir com que passem por cima de alguns princípios que são essenciais para nossa identidade como indivíduos, como o respeito aos próprios limites, o que torna o amor-próprio imprescindível.

O Berro – Com a idealização do amor imposta pela sociedade, fica cada vez mais difícil de se firmar um relacionamento, quanto mais um saudável. Com isso em mente, gostaria de saber sua visão sobre como isso nos afeta.

CCB: Acredito que, cada vez mais, ficamos com a sensação de que temos uma obrigação de fazer parte de um relacionamento romântico, e na maioria das vezes podemos nos colocar em situações muito problemáticas por causa disso. Ou seja, o que estamos dispostos a fazer para nos encontramos dentro de um relacionamento amoroso? Se faz de suma importância refletir ao nos relacionarmos se estamos o fazendo por sentirmos um amor de proporções extremas ao ponto de querermos ficar ao lado de uma pessoa que nos é especial ou se apenas buscamos o alívio de ter comprido uma exigência imposta pela sociedade. Tenho a sensação de que, pela ansiedade da contemporaneidade e o desespero para fugir de si mesmo através da companhia do outro, acabamos por fazer vista grossa para essas questões.

O Berro – Quais podem ser as consequências de permanecer em um relacionamento infeliz?

CCB: Traumas dos mais diversos, o que pode acabar por gerar gatilhos duradouros e, até mesmo, consequências fatais. Também vale observar que quanto mais tempo se passa preso dentro de um relacionamento abusivo, mais difícil fica de sair pelo fato de a dependência emocional ter tido mais espaço para se desenvolver. Quando permanecemos em um relacionamento infeliz, agarrados a uma memória agradável daquela fase que já se foi na relação, acabamos por perder as possibilidades de viver outras coisas muito melhores, mais alinhadas e saudáveis. Quando não cultivamos o autoconhecimento e nos encontramos infelizes em uma relação, podemos acabar por perder a vista daquilo que nos faz quem somos, e nunca devemos fazer isso, porque, afinal de contas, no final somos nós por nós mesmos.

O Berro – Quais podem ser as consequências de ser incapaz de firmar relacionamentos?

CCB: Não sei se acredito na incapacidade de firmar relacionamentos ou não, mas com certeza vejo que, se isso vira um padrão, uma questão existe e isso deve ser analisada mais a fundo. Com o processo terapêutico temos a oportunidade de entender as crenças, pensamentos, comportamentos e sentimentos que nos é provocado quando se trata de relacionar-se com outra pessoa, assim sendo possível descobrir o que pode ser trabalhado”.

O Berro – Você tem muita experiência em lidar com pessoas que demonstram dificuldade em firma relacionamentos saudáveis e com pessoas que tem dificuldade em sair de relacionamentos problemáticos?

CCB: Infelizmente, sim. Vejo como sendo algo extremamente comum, tanto nos pacientes que atendo em um contexto terapêutico quanto no convívio com as pessoas no dia a dia da minha vida cotidiana. É muito triste como algo tão terrível pode ser interpretado como uma norma, um sintoma de uma sociedade machista, que normaliza atrocidades mesmo quando algo assim não devesse ser lidado com naturalidade. Vejo muito mais pessoas buscando ou se enquadrando numa dinâmica superficial e casual do que em busca algo saudável e duradouro.

O Berro – Com base em sua experiência, saberia determinar, entre homens, mulheres e pessoas não binárias, quem tende a ser mais afetado com isso? Poderia me fornecer sua visão de porque esse ser o caso?

CCB: Mulheres e pessoas não binárias, com certeza. Por sermos minoria, sofremos muito mais pressão para nos enquadrarmos. No que diz respeito à relacionamento não é diferente. Falando no lugar de mulher cis, partindo de meu local de fala, desde novas e desde muito tempo somos ensinadas e estimuladas a servir o homem branco na posição de ‘mulher para casar’, para ser mãe, para ser ‘do lar’ e, mesmo que muitos padrões estejam sendo reconsiderados e que exista um entendimento melhor sobre nossos direitos como seres humanos, ainda, sim, sofremos as consequências desses pensamentos machistas. Portanto, ficamos suscetíveis a entrar em relacionamentos nem um pouco saudáveis em nome de cumprir essa ‘função’, como se tivemos isso como missão na terra, a qual nos dizem que deve ser cumprida custe o que custar.

O Berro – Conseguiria me fornecer um perfil da pessoa que se encontra nesse dilema? Algum padrão que você nota, como trauma ou evento na vida da pessoa que possa tornar difícil um término, mesmo que necessário?

CCB: Mulheres vindas de um contexto em que foram criadas com uma educação marcada por um intenso conservadorismo tendem a ser mais suscetíveis a essa situação, por terem tido essa concepção sexista muito presente em seu desenvolvimento. Acho que elas acabam por passar por um processo que as faz seguir dinâmicas nem um pouco saudáveis e acabam ultrapassando seus próprios limites em prol desse ideal imaginário que lhes é exigido desde cedo pela comunidade em que cresceram.

O Berro – Além de, claro, buscar ajuda profissional, o que pode ser feito para auxiliar pessoas presas em um relacionamento difícil?

CCB: Ao vivermos em uma sociedade que nos impõe expectativas quanto ao que devemos ser, se torna necessário um esforço dobrado para firmarmos nossa identidade através da formação de uma rede de apoio com pessoas de confiança e fazendo as coisas que amamos, para assim encontrarmos núcleos de uma personalidade pela qual podemos encontrar aquilo que nos torna quem somos e nos fortalece para tomarmos decisões em prol de nosso bem-estar.