Uma especialista em skin care, uma terapeuta holística e uma psicóloga tentam definir o sentimento
Nos dicionários, a expressão “amor-próprio” é definida como: “a capacidade de se reconhecer como suficiente”, “celebrar conquistas sem precisar de validação externa”, “respeitar seus limites e desejos” e “ser gentil e verdadeira consigo próprio”. Os dicionários não erram, isso é fato. Mas será que é só isso?
Na prática, o conceito de amor-próprio evoluiu. Com o amadurecimento das tecnologias e o surgimento das redes sociais, essa expressão adquiriu um novo sentido. O que antes era uma expressão de fortalecimento pessoal se transformou em uma mercadoria valiosa.
O amor-próprio virou “trend”, um comportamento popular amplamente engajado na internet. O que era para ser uma ideia de empoderamento, se tornou um produto no mercado, algo totalmente “vendável”. Marcas, influenciadores e até mesmo profissionais de saúde especializados em estética adaptaram-se a essa lógica.
A cultura de consumo passou a redefinir o amor-próprio como algo que pode — e deve — ser conquistado por meio da compra. A busca por aceitação, autocuidado e inclusão se tornou uma oportunidade lucrativa para empreendedores, que enxergaram o potencial de comercializar essa ideia. Produtos que prometem bem-estar físico, emocional ou espiritual são oferecidos a consumidores que esperam, de alguma forma, transformar suas vidas.
Os dados reforçam essa tendência: segundo a Euromonitor International, os consumidores “em busca de amor-próprio” são apontados como uma nova tendência global. O levantamento revela que 54% dos profissionais já reconhecem que experiências de compra mais personalizadas terão um forte impacto no varejo até 2027.

Brena Passos. Reprodução/Acervo pessoal
Nesse cenário, figuras como Brena Passos ganham protagonismo. Graduanda em Cosmetologia e especialista em skincare, Brena começou sua jornada nas redes sociais apresentando os produtos que utilizava em sua rotina de cuidados com a pele. No entanto, ao compartilhar seus próprios relatos e experiências, seu alcance cresceu rapidamente.
Transformar um surto de acne em um marco pessoal e profissional foi o que a fez viralizar. Brena ganhou visibilidade ao expor seu “antes e depois” sem esconder imperfeições ou vender fórmulas mágicas.
Para Brena, o skincare vai muito além da pele. “ É um momento de conexão consigo mesma, como se fosse um lembrete diário de que você merece cuidado e atenção”.
Atualmente, com quase 20 mil seguidores no Instagram, Brena se consolidou como uma influenciadora da área. Seu crescimento nas redes não só trouxe parcerias com grandes marcas de beleza e cosméticos, mas também a transformou em referência para um público espalhado por diferentes estados do Brasil.
A demanda por seu conteúdo e credibilidade levou Brena a iniciar consultorias online, onde orienta seus clientes de forma personalizada, promovendo não apenas a estética, mas o bem-estar.

Gesiele Pimenta. Reprodução/Acervo pessoal
Gesiele Pimenta, moradora de Osasco, na Grande São Paulo e atualmente com 32 anos, há cerca de dois anos tomou a decisão de contratar os serviços de Brena. Ela conta que durante muitos anos não se achava bonita. “Eu queria que as pessoas vissem a minha beleza sem maquiagem”. E ela não está sozinha.
Uma pesquisa da marca Dove, feita com 6,4 mil mulheres em 20 países, revelou que só 4% delas se consideram bonitas. No Brasil, esse número é um pouco maior: 14%. Ainda assim, a maioria sente pressão para ser bonita — e essa cobrança vem principalmente delas mesmas (32%), mas também da sociedade (12%), amigos e família (9%).
Antes da consultoria com Brena, Gesiele tinha vários produtos em casa, mas não sabia como usá-los. Durante o acompanhamento, que durou três meses, ela não só aprendeu a cuidar da pele, mas também a ter paciência com os resultados.
Os primeiros resultados vieram rápido. “Em menos de 15 dias, eu já vi melhora nos poros dilatados e nas manchas.” Mas, para Gesiele, a maior mudança foi na autoestima.
“Antes, eu olhava para o meu rosto e, mesmo quando alguém dizia que eu era bonita, eu não acreditava. Via só as manchas, a acne, e me sentia escrava da maquiagem para esconder isso”, lembra. “Eu queria que as pessoas vissem a minha beleza natural, sem maquiagem.”
Ela também passou a aceitar o próprio cabelo. “Eu alisava sempre, não aceitava meu cabelo natural. Mas depois da transição, entendi que posso ser bonita do meu jeito — com meu cabelo afro, minhas marquinhas. Eu posso melhorar minha pele, mas sem me odiar.”
Hoje, além de cuidar da pele, ela também aprendeu a aceitar os elogios. “Eu não preciso esperar a validação dos outros. Eu já tenho a minha validação, e isso é muito importante.”
Esse processo de transformação não é só sobre aparência. É sobre escuta, paciência e tempo — coisas que parecem cada vez mais raras em um mundo digital, onde tudo é rápido, cheio de fórmulas prontas e filtros perfeitos.

Vivian Loietes. Reprodução/Acervo pessoal
Para a psicóloga Vivian Loietes, que trabalha com autoestima e vínculos afetivos, o amor-próprio não é um ponto de chegada. “É uma travessia. É ter coragem de olhar para dentro.” No entanto, em tempos de redes sociais, onde tudo parece imediato e superficial, essa travessia acaba se confundindo com performance.
Um exemplo claro está no impacto das redes sociais na autoestima, com destaque para o TikTok — uma plataforma com mais de 2 bilhões de usuários em todo o mundo. Apesar de se apresentar como um espaço de entretenimento, criatividade e comunidade, o TikTok tem se tornado um ambiente cada vez mais tóxico e viciante, especialmente para os usuários mais jovens.
A lógica do aplicativo é simples: quanto mais você assiste, mais ele entende seus interesses e sugere conteúdos semelhantes. O problema é que isso pode criar um ciclo perigoso. Um estudo recente da Universidade Charles Sturt, na Austrália, revelou que passar apenas oito minutos no TikTok já é suficiente para impactar negativamente a percepção da imagem corporal entre as mulheres.
A pesquisa entrevistou 273 mulheres com idades entre 18 e 28 anos e mostrou que o algoritmo da plataforma não apenas reflete, mas reforça padrões irreais de beleza. Ou seja, quanto mais uma usuária interage com conteúdos relacionados à aparência, mais o aplicativo sugere vídeos que reforçam esses mesmos padrões — criando uma pressão constante para se encaixar em um ideal muitas vezes inalcançável.
“As redes sociais podem ser incríveis para encontrar inspiração, aprender coisas novas, até se sentir menos sozinha. Mas também podem virar um espelho cruel, onde a gente se compara o tempo todo com versões editadas da vida dos outros”, alerta Vivian.
Para muitas pessoas, o conceito de amor-próprio virou um roteiro pronto: fazer skincare, repetir afirmações positivas no espelho, compartilhar fotos com legendas motivacionais. Mas será que isso é suficiente? Nos atendimentos, Vivian percebe um padrão. “Muita gente sabe que deveria se amar mais, se valorizar, ser confiante. Mas não sabe por onde começar.”
O problema, segundo ela, é que a autoestima não nasce de frases prontas ou de uma rotina postada nas redes sociais. “Amor-próprio não é fazer skincare ou repetir afirmações — é se responsabilizar pela própria história, olhar pras dores que a gente aprendeu a esconder, aprender a se acolher de verdade.”
O efeito desse consumo digital é uma busca constante por aprovação. As pessoas postam esperando likes, comentários e elogios, mas, como diz a psicóloga, isso não preenche o vazio.
“A validação externa, por mais viciante que pareça, é bastante volátil. A gente até se sente bem por um tempo, mas logo volta o vazio.”
Vivian explica que a verdadeira autoestima tem raízes mais profundas. “Ela não depende do olhar do outro, e sim do modo como a gente se enxerga quando ninguém está vendo a gente.” É nesse espaço de silêncio e auto escuta que começa o verdadeiro trabalho de fortalecimento interno.
Mas e se o amor-próprio for mais do que apenas um conceito psicológico ou uma tendência digital? E se ele também for uma conexão com algo maior, com uma energia que vai além do corpo e da mente?
Em busca dessas respostas, muitas pessoas têm se voltado para práticas que integram corpo, mente e espírito. Meditação, Reiki, terapia energética e outras abordagens holísticas vêm ganhando espaço como alternativas para quem deseja se reconectar consigo mesmo de forma mais profunda.

Ariana Borges, terapeuta holística. Reprodução/Acervo pessoal
A terapeuta holística Ariana Borges, que atua com diversas técnicas como ThetaHealing, leitura de aura, psicanálise e neurociência, explica que o amor-próprio é mais profundo do que a maioria das pessoas imagina. “Amor-próprio é algo que muito se fala, mas pouco se entende. Para que a gente realmente evolua no processo terapêutico, é preciso aprender a se perdoar em um nível muito profundo. Às vezes, a gente está com o perdão aberto para quem está fora, mas não para a gente mesma”, afirma.
Segundo Ariana, o caminho do amor-próprio passa por três pilares: perdão, compaixão e consciência. “O primeiro passo é o perdão. O segundo é a compaixão — com os próprios erros, com os equívocos, com as coisas que não deram certo. E o terceiro pilar é o amor-próprio, que não se resume a fazer a unha ou comprar uma roupa nova. Isso pode ser consequência, mas não é a essência. Amor-próprio é prioridade. É você se priorizar, é você pensar em si em todas as situações da sua vida.”
Ela ressalta que, ao contrário do que se pensa, o autocuidado não está apenas no físico. “Muitas pessoas dizem que se amam, mas continuam se colocando em situações de risco, se autossabotando, se ferindo com palavras.
Amor-próprio também é cuidar do que você diz para si mesma, das escolhas que você faz, da energia que você cultiva.”
Nesse sentido, a terapia holística pode ser uma ferramenta potente de reconexão interior. “É uma terapia suave, que acolhe. Ela olha para o sentimento, mas também para a energia, para a intuição, para o que o corpo sente diante das pessoas e situações. É um caminho de autoconhecimento que nos ajuda a voltar para dentro, num mundo cada vez mais voltado para o exterior”, explica Ariana.
A profissional acredita que o excesso de tecnologia e a lógica científica predominante têm afastado as pessoas da própria essência. “Nós somos seres intuitivos, espirituais. Sentimos, sonhamos, pressentimos. E é nesse lugar de escuta interna que o amor-próprio começa de verdade”, conclui.
No fim das contas, o amor-próprio pode nascer de um creme no rosto, de uma transição capilar, de um rompimento com padrões irreais nas redes ou de um mergulho silencioso na própria essência. Ele pode surgir no consultório de uma psicóloga, durante uma sessão de leitura de aura, ou na rotina de cuidados diante do espelho. Não existe fórmula única, nem caminho certo. O que existe é a necessidade — urgente e legítima — de aprender a se escutar com mais verdade, se olhar com mais gentileza e se reconhecer, enfim, como alguém que merece ser amado. Por si. E para si.
