Nas redes sociais, o amor-próprio virou tendência. Vídeos ensinam rituais de skincare como solução para autoestima, frases motivacionais prometem transformação imediata e influenciadores comercializam métodos que garantem um “passo a passo” para aprender a se amar. Mas será que esse conceito vendido online realmente representa o que é o amor-próprio?
De acordo com o relatório Panorama da Saúde Mental, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, 36,9% dos brasileiros que passam três horas ou mais por dia nas redes sociais apresentam sinais de ansiedade, o que evidência como o excesso de exposição online pode afetar negativamente a saúde mental e distorcer a percepção de si.
Para entender melhor sobre esse assunto, conversamos com a psicóloga especialista Katharine Alves para entender os impactos dessa nova era do autocuidado e como desenvolver um amor-próprio genuíno e saudável.
O Berro – Como você, enquanto psicóloga, define o amor-próprio de uma maneira saudável e realista?
Katharine Alves: Se eu fosse definir o amor-próprio de uma maneira saudável e realista, eu diria que é aquele tipo de amor onde eu consigo me acolher, apesar das dificuldades. O amor-próprio vai muito além de fazer uma skincare ou ler
um livro. Eu acho que o amor-próprio se constrói quando a gente estabelece uma base sólida por dentro: conseguindo reconhecer nossos sentimentos, expressar nossos desejos e colocar limites no outro, por mais desconfortável que isso possa ser.
O Berro – Existe um limite entre o autocuidado e a ideia de que amar a si mesma está diretamente ligado a investir em produtos e serviços?
KA: Sim. É bom lembrar que o autocuidado vai muito além do que consumimos ou compramos, até porque nem todo mundo tem o mesmo dinheiro para investir nos produtos de maior qualidade ou até mesmo em uma terapia, que sabemos que é um investimento. Mas quando você tira um tempo para si, consegue dizer não, toma um banho um pouco mais demorado com uma luz mais baixa, faz uma comida que gosta… Isso também é autocuidado. Então, pode haver uma ligação com investimento em produtos e serviços, mas é importante colocar um limite, porque não se resume a isso. E, mesmo para quem tem condição financeira, não dá para depositar todo o autocuidado apenas nisso, porque vai muito além.

Reprodução/Acervo pessoal
O Berro – As redes sociais transformaram o amor-próprio em um conceito mais acessível ou trouxeram novas pressões para as mulheres?
KA: Eu acho que é uma linha muito tênue. A rede social é um local muito amplo, então você pode achar de tudo um pouco. Muito vai depender de qual nicho você está filtrando para você. Se você tende a seguir pessoas que fazem várias publis, que são blogueiras e sempre atrelam o autocuidado a algum produto, é raro ver alguém falando sobre isso sem ter uma marca ou propaganda envolvida. Mas, ao mesmo tempo, algumas pessoas compartilham experiências reais de autocuidado, mostrando rotinas simples, como acordar mais cedo, escrever, fazer atividade física em casa. Então, sim, o conceito ficou mais acessível, mas também criou novas pressões.
O Berro – Como o consumo de produtos e serviços vendidos como ferramentas para o amor-próprio pode afetar a forma como as mulheres enxergam a si mesmas?
KA: Pode ser negativo quando a pessoa começa a acreditar que só terá amor-próprio se tiver determinado produto ou consumir determinado serviço. Hoje em dia, as redes sociais se aproveitam desse movimento crescente para monetizar em cima disso, porque sempre foi assim: exploram justamente os pontos sensíveis da sociedade, aquilo que já está ferido.
O Berro – Hoje, vemos cursos, e-books e mentorias que prometem ensinar o amor-próprio em etapas. Do ponto de vista psicológico, esse tipo de abordagem pode ser eficaz ou pode gerar uma visão limitada sobre o processo de autoestima?
KA: Pode ser interessante como uma porta de entrada para quem quer começar a olhar para o próprio amor-próprio, mas não sabe por onde. Se eu sinto que gostaria de melhorar isso, posso ler um e-book mais curto ou assistir a uma mentoria, principalmente se for algo que não exija um grande investimento. Mas isso não pode ser a única fonte de aprendizado, porque são conteúdos muito generalizados, que não consideram cada pessoa de forma específica. Algumas coisas podem servir para você, outras não. Então, a ideia é não se limitar a isso e entender que amor-próprio vai além do que está nesses materiais.
O Berro – Como diferenciar conteúdos realmente embasados na psicologia daqueles que apenas exploram o discurso motivacional?
KA: Quando você for consumir um conteúdo, é importante avaliar quem está por trás dele. Essa pessoa tem formação na área? Suas falas são baseadas em estudos científicos ou apenas em experiências pessoais? Vale a pena pesquisar o nome dela na internet, ver se há algum respaldo, artigo ou matéria. Buscar ajuda profissional, como terapia ou psiquiatria, também pode ajudar a entender se o que aquele influenciador está propagando faz sentido. Infelizmente, na internet, qualquer um pode postar o que quiser, como quiser, e muita gente usa isso para benefício próprio, para ganhar seguidores, visualizações e monetizar.

Reprodução/Acervo pessoal
O Berro – Quais são os maiores desafios que as mulheres enfrentam ao tentar desenvolver um amor-próprio genuíno?
KA: Acredito que o maior desafio é estar inserida – e eu me incluo nisso também – em um mundo onde tudo é urgente. A informação chega muito rápido, as mudanças acontecem o tempo todo. Talvez a maior dificuldade seja conseguir estabelecer uma base sólida, porque a cada momento surge uma nova tendência de autocuidado, um novo produto que você “precisa” ter. Desde sempre, as mulheres recebem pressão sobre como deveriam ser e, além disso, estão sempre pensando nos outros antes de si mesmas.
O Berro – Como a construção da autoestima pode variar de acordo com fatores como experiências de vida, contexto social e ambiente familiar?
KA: Nós somos muito moldados pelo ambiente em que vivemos. Por exemplo, se eu venho de uma família que tem o costume de criticar constantemente, que não valoriza pequenas conquistas, apenas as grandes, minha autoestima pode ser minada. Eu começo a achar que nunca vou ser boa o suficiente. Se, na escola, estou em um ambiente onde os colegas ridicularizam os erros uns dos outros ou fazem comentários depreciativos, eu posso começar a duvidar de mim mesma. Com isso, dificilmente vou me colocar em espaços onde serei valorizada, porque fui ensinada a acreditar que não mereço tanto. O ambiente em que crescemos, as influências que recebemos dos cuidadores e protetores, tudo isso tem um impacto direto na construção da autoestima na vida adulta.
O Berro – Para mulheres que se sentem pressionadas a atingir um ideal de amor-próprio, por onde começar essa jornada de forma saudável e realista?
KA: Pode parecer clichê, mas acredito que a terapia é um ótimo ponto de partida. Na terapia, a pessoa pode começar a olhar para essas questões sem ser julgada ou pressionada a atingir um padrão. É um espaço onde conseguimos identificar o que está acontecendo, por que está acontecendo e como podemos melhorar isso. Se eu não consigo me amar, como posso mensurar o que mereço dos outros? Se eu tenho dificuldade de entender o que mereço de mim mesma, como vou saber impor limites? Se eu não coloco limites para mim, deixo que os outros façam isso da forma que quiserem, quando quiserem. Então, acredito que a terapia é um espaço fundamental para iniciar essa jornada.
