Escutei de uma entrevistada certa vez uma frase que ecoou por dias na minha mente, me fazendo refletir: “Quem sou quando não estou tentando ser amada por alguém?” Quem sou sem a ideia de que estou sendo observada? O que me motiva, de verdade, a buscar minha melhor versão, sem ser por causa de terceiros?

Lembrei então de algumas das minhas sessões de terapia — que foram muitas. O assunto principal sempre girava em torno da forma como eu me moldava para agradar os outros. Vivia baseada no que imaginava que esperavam de mim. Exatamente, baseado em “fontes da minha própria cabeça”. E sim… isso ficou no passado. Deixei esse pensamento intrusivo de lado depois que perdi noites e mais noites de sono estudando sobre assuntos de psicológica por pura curiosidade. Depois de assistir milhares de documentários e fazer entrevistas com especialistas, entendi, nessa jornada do jornalismo (e da vida), que nenhuma cobrança externa supera a que criamos dentro da nossa própria mente.

Apesar de ser uma jovem em seus 20 e poucos anos, já vivi — e ainda vivo — grandes desafios em meus relacionamentos. Amizades, família, uns poucos amores. Mas o que seria de nós, essa geração pressionada a viver tudo com urgência, se baseássemos o amor apenas em amar a nós mesmas?

Fomos treinadas a lidar desde cedo com o universo das redes sociais. Crescemos assistindo as clássicas comédias românticas, escutando antes de dormir histórias de princesas e durante muito tempo, nosso principal objetivo de vida era encontrar um príncipe encantado.

Mas antes disso, precisávamos “nos amar”. Amar de dentro para fora. Cuidar da saúde. Ir ao médico. Tomar vitaminas. Comer direito. Manter a forma. Se comportar. “Nada de exageros, mocinha, vai passar vergonha.”. Ao mesmo tempo, devíamos estar presentes nas redes. Postar fotos, ir às melhores festas, viver grandes histórias de amor. Todas impecáveis, claro. E se desse errado? “Fica tranquila, foi só aprendizado. O próximo vai compensar.” – Antes fosse fácil assim!

Durante anos, fui levada pelo que meus círculos gostavam, faziam, falavam. Aonde iam, com quem estavam, o que comiam, o que bebiam. Isso me fez feliz? Sim — mas também me apagou. Eu era um reflexo. Moldava opiniões, copiava gostos. Que muitas vezes, nem eram meus. Até que um dia a conta chegou.

Com a maioridade, tudo mudou. A vida adulta bateu à porta. Veio a responsabilidade, os boletos, o foco nos estudos, no trabalho. E aí, aquele teatro que eu encenava para ser aceita, perdeu o sentido. Mas, ironicamente, foi justamente aí que comecei a esquecer de mim.

Não deixei de me amar, mas deixei de zelar por esse amor.

Amor-próprio não é conceito pronto. É prática. É atitude. E eu parei de praticar. Me negligenciei. Parei de me cuidar. A rotina virou um ciclo automático: casa, trabalho, faculdade. Vivia acreditando que a independência era o que importava. “Sou forte, sou capaz, estou vencendo.”. Mas afinal, a que custo?

Meu psicológico estava indo por água abaixo. Alimentação péssima, noites em claro, corpo cansado. Achava que era o preço a pagar por realizar o sonho de ser independente tão cedo. Mas os dias perderam a cor. Eu não me reconhecia mais. Era eficiente, produtiva — mas não era feliz. Porque, no fundo, ainda buscava aprovação. Só que agora, disfarçada de sucesso.

Então precisei parar. Recomeçar. Sair do emprego que me adoecia foi o primeiro passo. Tentei me reencontrar. Redescobrir o que gostava. Nessa fase, a faculdade foi, ironicamente, o lugar onde me encontrei. Onde percebi que meus princípios valem mais do que qualquer ideal que criem sobre mim.

Outro grande desafio de se tornar uma adulta é encarar os novos amores. — Sim no plural.

Os amores… chegam feito furacão. Mudam tudo de lugar. Às vezes parecem calmos, mas basta um sopro e tudo vira caos. E aí você se pega, mais uma vez, tentando ser amada. Se veste diferente. Se comporta diferente. Tenta parecer interessante. Vai ficando ansiosa… Insegura… Se pergunta se está sendo demais. Se está sendo pouco. Se está sendo suficiente.

A grande verdade? É que se fosse um amor de verdade jamais estaria exigindo que você mude quem é.

O grande ponto é que eu era apaixonada pela ideia de ser vista, ouvida, compreendida — não por quem eu era, mas por quem eu fingia ser.

E então, depois de muitas falhas, um dia caiu a ficha: O amor-próprio não é só skincare e frases motivacionais. É silêncio. É se encarar sem filtros. É estar só e, ainda assim, sentir-se completa. É desligar o celular e perceber que o mundo continua.

A gente passa tanto tempo tentando se encaixar que esquece como é existir só por si.

Até entender, enfim, que amor-próprio não é uma versão melhorada de si para os outros.

É a verdade de quem somos quando ninguém está olhando.

Hoje, eu me pergunto mais uma vez: “Quem sou eu quando não estou tentando ser amada por alguém?”

E, finalmente, descobri: Eu sou “eu”. de forma autêntica. com minhas próprias falhas, minha própria história e meus próprios erros. Num mundo que grita por perfeição, ser quem eu sou — sem disfarces — é meu maior ato de amor.