O trabalho dos detetives particulares e o mercado da traição

Há quem diga que o amor se baseia na confiança. Mas e quando a dúvida aparece?

No Brasil, milhares de histórias de amor — ou o que restou delas — são investigadas todos os dias por detetives particulares. A traição movimenta um segmento bastante lucrativo que de acordo com a Fact.MR, empresa de análise de mercado americana, cresce em média 4,5% ao ano no mundo inteiro, com a expectativa de alcançar a marca dos US$ 28 bilhões até 2032. As puladas de cerca, carro chefe do setor de investigação particular, correspondem a boa parte desse montante.

Nesta reportagem, mergulhamos no universo discreto e em crescente expansão dos detetives que investigam infidelidade conjugal, onde cada caso é um retrato do amor em seu momento mais frágil. Eles seguem carros, escondem câmeras, reviram.

a vida de pessoas de cabeça para baixo, se for necessário. Tudo isso em nome de uma pergunta que tira o sono de muita gente: a pessoa que eu amo ainda me ama?

Sherlock do Nordeste

É madrugada em uma rua sem saída de São Luís, no Maranhão. Dentro de um carro estacionado, Nobre, de 42 anos, observa à distância um casal trocando carícias à porta de um motel. Ele não é o marido traído e nem um curioso qualquer; é um detetive particular em mais um dia de trabalho. Disfarçadamente, com a câmera do próprio celular, coleta provas que em poucos minutos estarão nas mãos de um cliente ansioso – e que pagou caro por respostas.

Há mais de dez anos, Nobre trabalha no ramo e utiliza esse nome, falso, por questões de segurança. Mora em Salvador, Bahia, mas viaja o Brasil inteiro investigando supostos casos de infidelidade conjugal, o motivo que mais leva clientes à sua agência. Esconde a profissão de detetive particular até mesmo dos familiares e amigos mais próximos.

Sonhava em ser detetive desde os 11 anos. “Sempre fui um menino muito curioso. O primeiro investigado foi o meu pai. Comecei a seguir os passos dele e descobri que ele estava traindo a minha mãe com outra mulher”, conta. O investigador chega a ganhar uma média de R$6 mil a R$10 mil por caso, no pacote que afirma ser o carro chefe da sua empresa: o que promete descobrir a suposta traição em até sete dias. Cobra pela hora trabalhada e não tem outro emprego. Paga todas as suas contas com o dinheiro que fatura no mercado da traição.

Nobre utiliza aparelhos celulares de última geração para fazer os flagras. “Eles chamam menos atenção que as câmeras. Eu prefiro os com zoom óptico porque dá para ampliar a imagem sem perder a qualidade.” Também usa um aplicativo chamado Timestample porque diz que deixa os clientes mais seguros. “Ele salva automaticamente as fotos com a data, horário e local. Não dá para fazer qualquer tipo de modificação”.

Antes de ser detetive, ele se formou em direito e trabalhou por alguns anos no Departamento de Polícia Técnica (DPT). Foi lá onde aprendeu e aprimorou seus métodos investigativos. Há oito anos abriu o próprio escritório de investigação junto com um sócio, mas para todos os efeitos, responde para quem perguntar que é apenas um advogado.

Com vinte anos de serviço e quase dez de mercado, faz um grande apanhado até aqui: 1) a maioria esmagadora das buscas acabam se confirmando em traições; 2) os homens procuram os serviços tanto quanto as mulheres; 3) as mulheres traem tanto quanto os homens; 4) o tempo médio para descobrir uma pulada de cerca é de até sete dias (ele afirma que em casos extraconjugais fixos dificilmente se passa mais do que isso para reencontrar o amante ou a amante); 5) pessoas desconfiadas dos parceiros ou parceiras são capazes de pagar qualquer valor para ter uma resposta rápida (conta de um caso em que um cliente o contratou por 8h diárias, todos os dias, durante um mês: o homem teve que desembolsar R$45 mil para confirmar a dúvida: estava mesmo sendo traído pela esposa).

Mas a lei permite tudo isso?

No Brasil, a profissão de detetive particular é regulamentada e sindicalizada. A Associação Nacional dos Detetives e Investigadores Privados do Brasil (Anadip) é um exemplo: fundada em 2013 com o propósito de defender os interesses da classe, a sociedade civil já conta com mais de dois mil associados pelo país.

Entre as principais reivindicações, a luta pela obtenção do porte de arma; por um projeto de inclusão dos detetives no Programa do Mei (Micro Empreendedor Individual); e pela criação de um curso técnico profissionalizante reconhecido pelo Ministério da Educação (Mec). O exercício da profissão também é regulamentado. A Lei nª 13.432, de 2017, considera detetive aquele profissional que, por conta própria ou revestido de sociedade civil ou de empresa, colete dados e informações visando esclarecer assuntos de interesse privado.

O texto determina alguns preceitos que devem nortear o exercício da profissão: agir com técnica, legalidade, discrição e apreço pela verdade.

Trata dos deveres: respeitar o direto à intimidade, à privacidade, à honra e a imagem das pessoas; zelar pela conservação e proteção de documentos e objetos que lhe forem confiados pelo cliente. E faz ressalvas importantes: as investigações só podem ser realizadas em casos de natureza “não criminais”, como de infidelidade conjugal, por exemplo.

A lógica do mercado também vale no amor

A SPC do Amor: Serviço de Proteção ao Coração se enquadra nesses termos. A firma tem sede em São Bernardo do Campo, São Paulo, e está registrada na Receita Federal desde 2023 como uma microempresa (ME) especializada em investigações particulares que atende clientes de todo o Brasil.

A companhia cobra R$250 para uma conversa inicial de até 45 minutos com um de seus detetives e promete confidencialidade total garantindo que “apenas as informações essenciais serão repassadas para os agentes envolvidos na operação”.

Na conta do Instagram com quase 300 mil seguidores, a SPC do Amor cria diversos conteúdos esclarecendo dúvidas sobre as investigações, que dão conta até de parentes desaparecidos, brigas por herança ou pais que querem monitorar filhos adolescentes.

A maioria das perguntas, contudo, sempre se voltam para o tema da traição: a grande parte são enviadas por mulheres tentando decifrar mudanças de comportamento ou aproximações dos maridos com colegas de trabalho ou amigas da época de escola, por exemplo. Em um dos vídeos publicados, os donos da página dão o ultimato: “Se você ainda não foi, será traído em algum momento da vida”. Sabem que no mercado da desconfiança, quem se propõe a investigar, lucra.

Tudo pela verdade, mesmo

A Alfa é uma outra agência de detetives particulares cuja sede fica no Recife, em Pernambuco, e que oferece serviços bem parecidos, mas com abordagens completamente diferentes. No cardápio: clonagem de celulares, instalações de escutas, camêras escondidas, rastreadores e varredura completa de redes sociais.

Seu carro-chefe ainda é a clássica perseguição com registros fotográficos. Para contratar um de seus pacotes, pedem que os clientes primeiro forneçam informações sobre seus parceiros como os horários que saem e chegam em casa; se vão trabalhar de carro, uber ou ônibus; quais bares ou restaurantes costumam frequentar etc.

A empresa foi fundada em 1984 e é administrada por Moraes* e Roberto*, pai e filho, ambos detetives. O escritório fica na terceira torre de um dos empresariais mais luxuosos da Zona Sul da cidade, o Riomar Trade Center. Ao longo desses quarenta e um anos, bradam ter solucionado mais de mil casos.

No site oficial da agência, dão algumas dicas gratuitas de como descobrir se seu companheiro ou companheira está lhe traindo. Em primeiro lugar, ensinam algo bem simples: fique atento a lista dos contatos mais frequentes do Whatsap dele ou dela. O segundo passo, contudo, vai bem mais além: incentivam a instalação de um software capaz de clonar o aplicativo de mensagens. Logo abaixo do post, avisam: “Apesar de ser bastante precisa, essa política é ilegal, então é necessário que você [o cliente] nos peça para instalar o programa espião.”

Mais suspeitas, mais negócios

Patrícia*, de 56 anos, mora em Recife e recorreu ao serviço de detetives particulares há algum tempo. A dona de casa desconfiava que o marido pudesse ter uma amante no trabalho. “Eu contratei uma equipe de detetives na época. O escritório deles ficava no bairro da Caxangá.”, relembra. “Eles conseguiram tirar fotos, grampearam o telefone dele. Eu ouvi tudo, todas as conversas, todas as ligações.”, completou.

Patrícia diz que o marido negou toda a história. Ela se separou logo depois. “Estávamos juntos há dez anos, ele é o pai da minha única filha, eu amava demais aquele homem. Mas foi [a investigação] o que me fortaleceu para que eu pudesse tomar a decisão.”, comenta. “Fiquei com essas provas guardadas por anos, ficava olhando, olhando…depois de muito tempo eu destruí tudo. Finalmente não me doíam mais”, finalizou.

Os detetives particulares, portanto, convivem com o que há de mais íntimo nas relações humanas: o ciúme, a raiva, o medo, a insegurança. Mas tentam resgatar algo que também tem muito valor: a esperança. A traição só doí porque houve (ou ainda há) amor.

E a principal engrenagem que move esse mercado é justamente essa tentativa desesperada de entender um sentimento que parece já não ser mais o mesmo, tarefa que nem sempre é bem-sucedida. A grande sacada desses profissionais foi entender que o amor em crise é também uma baita oportunidade de fazer dinheiro.

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.