Os compositores que transformam a traição amorosa – dos outros – em dinheiro
Em fevereiro de 1996 a banda paulista Mamonas Assassinas desembarcava no Rio de Janeiro para uma série de quatro apresentações no Metropolitan, uma casa de shows na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. Lá pelas tantas da noite e perto da metade do show, Alecsander Alves Leite, conhecido no Brasil inteiro como Dinho (vocalista do grupo), surgiu no palco vestindo apenas uma sunga e usando um chapéu preto com formato de chifres pontiagudos.
Ainda segurando o microfone no pedestal, o que se ouviu foram as primeiras estrofes da música Bois Don’t Cry (1995): Ser corno ou não ser?/Eis a minha indagação/ Sem você, vivo sofrendo/ Pelos buteco bebendo/ Arrumando confusão. Dinho – também compositor da música – foi surpreendido por um coro de quase dez mil pessoas que completam: Soy un hombre conformado (Sou um homem conformado)/Escuto a voz do coração/Sou um corno apaixonado/Sei que já fui chifrado/Mas o que vale é o tesão.
Naquele Brasil dos Mamonas Assassinas, a traição amorosa já não era mais um tabu – era letra de música de sucesso que impulsionava a venda de milhares de cd’s.
Quase vinte anos depois, as coisas não mudaram quase nada por aqui: a infidelidade segue embalando gerações e sendo fonte de lucro para compositores que transformam dores em refrões chicletes.
Quem domina essa arte sabe que, no fim das contas, a própria dor – ou a dor alheia – podem sim virar um grande negócio.
Jaffason Lincon Rodrigues Santos, de 32 anos, tem cerca de trinta composições gravadas nacionalmente. Começou a compor aos vinte anos, após um término de relacionamento. “Eu escrevi a primeira música e fui tomando gosto. Hoje já são mais de mil.”, diz orgulhoso.
É conhecido no meio artístico como Jaffinha. Entre os seus maiores sucessos, Respeita Seu Ex gravada por Mari Fernandez e Murilo Huff; Haverá Sinais por Zé Vaqueiro e Cachaça, Choro e Bar pela banda Cavaleiros do Forró. “A gente sabe que no Brasil, hoje, bebida, carro e traição são temas que vendem muito”, conta.

Mas é uma outra faixa que o compositor tem um apego especial: Amante, da dupla de sertanejo mato-grossense Henrique & Diego, que trás na letra uma história de amor frustrada: uma mulher que sonhava em assumir o seu relacionamento atual para os amigos, mas não podia porque estava se envolvendo com um homem casado. Mas você só lembra de nós dois na hora do prazer/ Deixa eu falar pra você, deixa eu falar pra você/ Queria postar foto de casal, mas lembro que eu sou amante/ Mas eu não quero botar fim nesse romance.
Diferentemente de outros compositores, que usam das próprias decepções amorosas como fonte criativa, Jaffinha afirma que nem sempre é a sua vida que serve como inspiração. “Essa música mesmo não foi baseada em fatos reais. Eu também escrevo de acordo com o mercado. Eu sabia que as pessoas iriam se identificar.”, diz.
Ele relembra o processo de composição da música, atualmente com mais de um milhão de streamings no Spotify. “Eu escrevi na pandemia, ali por volta de 2021.
Na época o tema da traição estava muito em alta por causa da música Roxinho de Gusttavo Lima e Jonas Esticado.”, conta. O sucesso que serviu de inspiração para o compositor trás na letra as seguintes estrofes: Ele já viu esse roxinho no seu pescoço/ E toda noite você some feito Sol/ Ele já viu que você faz amor sem gosto/ Que outro peixe tá mordendo seu anzol. “Aí eu aproveitei o embalo. Não é à toa que quando bateu no ouvido deles [dos cantores], eles quiseram a música.”
Jaffinha é natural de Quixeramobim, no Sertão do Ceará, uma cidadezinha com pouco mais de oitenta mil habitantes. Depois do sucesso, se mudou para Fortaleza, na capital. “Tenho muito orgulho de dizer que hoje eu vivo da música, vivo da composição”.
O mercado da composição no Brasil – também chamado de publishing musical – movimenta bastante dinheiro. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) pagou mais de R$ 800 milhões em direitos autorais no primeiro semestre de 2024, representando um aumento de 31% em comparação ao mesmo período de 2023.
Desse montante, 78% foram destinados aos detentores de direito autoral, aonde se encaixam os editores e compositores. Os outros 22% ficaram com os intérpretes, músicos e produtores fonográficos, enquadrados dentro dos direitos conexos.
Jaffinha explica. “Existem duas formas para vender a sua música hoje no Brasil: a exclusiva, mais cara, onde o artista que compra os direitos pode passar até doze meses para trabalhar a faixa. E a simples, onde eu posso vender a mesma música para diversos cantores.”, conta. “O que acontece muitas vezes é o artista comprar a simples, o negócio começar a fazer sucesso, fazer barulho, e ele decidir pegar a exclusiva. Aí as outras são derrubadas.”, finaliza.
Os compositores também ganham dinheiro com as execuções públicas – em shows, rádios e programas de televisão – e com as reproduções nas plataformas digitais, como Youtube, Spotify e Deezer. “Composição só dá dinheiro quando a música estoura. O combustível do compositor é esse. Ele tem que sempre tentar emplacar uma nova música no mercado, já pensando no retorno dos direitos autorais”, revela Lilían Nunes, compositora com mais de 400 músicas escritas.
A pernambucana de 46 anos começou a compor em 2019. “Eu ficava cantarolando em casa e as letras vinham na minha cabeça. Eu escrevia e gravava no meu próprio celular.” Hoje já são mais 70 músicas gravadas por artistas de diferentes lugares do Brasil. Entre eles, Silvano Salles, Raphaela Santos, MC Tocha e a banda Unha Pintada.

Lilían Nunes. Divulgação
O seu maior sucesso ficou conhecido, porém, na voz de Japinha Conde, cantora do grupo de forró eletrônico alagoense Conde do Forró. A música Saudade de Mim ultrapassou a marca das dez milhões de reproduções no Spotify e 100 milhões no Youtube. Também foi regravada por outros artistas. A letra fala sobre alguém que sofre por não ter coragem de admitir seus sentimentos.
Mas Lilían também diz que, vira e mexe, precisa recorrer ao tema da traição na hora de compor. “A gente sempre tenta pensar nas histórias que são comuns a muitos relacionamentos”. E nada que as pessoas se identifiquem mais do que uma traição amorosa. “Foi aí que nasceu a ideia de Amiga Falsa.”, revela. A música foi gravada pela banda Companhia do Calypso. “Ganhou videoclipe e tocou muito nas rádios. Ainda tenho bastante retorno financeiro com ela.”
A letra conta a história de uma mulher que flagrou a traição do seu companheiro com alguém que acreditava ser sua amiga. As primeiras estrofes contam da decepção. Te emprestava as minhas roupas/ Sapatos e batons/ Pensei ser uma amiga / Mas era uma traíra/ Criei uma cobra/ Pra um dia me machucar. E no refrão, o momento da descoberta. Eu não queria, mas eu peguei/ Os dois na cama, como chorei/ Era tanto bate, bate/ Tanto toma, toma/ Com o ar ligado/ E eu pagando a conta.
Além do retorno financeiro com as suas próprias músicas, Lílian também descobriu um novo jeito de lucrar. “Vendo as músicas de outros compositores que não tem tempo, habilidade ou os contatos certos. Ganho em cima das comissões”, revela.
Se a traição parte corações, no Brasil ela também enche os bolsos de dinheiro. Em um país onde sofrer por amor virou matéria-prima para hits, compositores como Jaffinha e Lílian descobriram que a dor — a própria ou a emprestada — rende mais do que consolo.
Não por acaso, somos também a terra que criou a figura do “corno apaixonado”. A terra dos grandes Reginaldo Rossi, Amado Batista, Wando, Agnaldo Timotéo, Pablo do Arrocha, Marília Mendonça e tantos outros cantores e compositores que construíram suas carreiras falando sobre as dores de cotovelo e as puladas de cerca. Por aqui, a infidelidade não se esconde: ela canta bem alto, e sempre à plenos pulmões.
