Como o fisiculturismo e o mundo fitness transcenderam sua timeline e viraram estilo de vida

Existem muitas formas de amor. Algumas são mais instintivas, fortes e surgem por conta própria, sem que a gente note. Outras precisam do nosso esforço para brotar e florescer. Esse é o caso de uma que tem estado em alta nas redes sociais nos últimos anos: o amor por um estilo de vida mais saudável, voltado às atividades físicas.

O psicanalista Erich Fromm dizia que o “amor não é apenas um sentimento; é também uma decisão, um julgamento, uma promessa”. Por trás das séries de abdominal, das refeições calculadas e dos vídeos motivacionais com a legenda “tá pago”, há um sentimento que vai muito além de músculos e treinos. É um afeto, uma escolha diária, que envolve disciplina, foco e um enorme senso de comunidade.

“A minha principal motivação, com certeza, sempre foram os meus amigos. Isso e uma vontade que eu tinha há anos de mudar meu corpo para uma melhor versão de mim mesmo.”

Essas são palavras de Lúcio Mário, um estudante universitário que decidiu seguir um novo estilo de vida. E ele não é o único a se sentir assim.

A ciência mostra que o amor é composto por fases. Assim como os outros tipos de amor, esse também tem as suas. E, para entendê-lo, é preciso compreender cada uma delas.

Primeira fase: paixão e encantamento

As redes sociais são um dos principais fatores que moldam a sociedade do século XXI. São elas que entretém, informam, conectam e vendem no mundo globalizado. Então não seria de estranhar que se tornariam o berço de vários movimentos sociais e estilos de vida. E um dos mais economicamente promissores (e com alto potencial de engajamento) é o mundo fitness.

“Acho que meu desejo por começar a praticar exercícios começou com os vídeos engraçados e informativos do [Renato] Cariani, Julio [Balestrin] e [Paulo] Muzy.”, conta Lúcio. “Depois passei a seguir e acompanhar vários outros influenciadores.”

Renato Cariani é um influencer e empresário com 9,8 milhões de seguidores no Instagram, 7,8 milhões no Youtube e 1,8 milhões no Tik Tok. Ele é uma das maiores referências do país na área do fisiculturismo — tanto que ganhou o prêmio Ibest na categoria fitness e wellness em 2022, 2023 e 2024. Julio Balestrin e Paulo Muzy, por sua vez, também são influenciadores e, juntos, somam mais de 17 milhões de seguidores em suas redes sociais.

Mas não são só os homens que influenciam esse meio. As mulheres, como Gracyanne Barbosa, Gabriela Pugliesi e Carol Borba são nomes de peso que sustentam uma enorme parcela do público do mercado fitness. Gracyanne, por exemplo, é fisiculturista e ganhou destaque com sua participação no BBB25; hoje, ela transmite dicas de treino e motiva seus 13 milhões de seguidores a cultivar uma rotina saudável.

Alanne Carvalho é uma das milhares de mulheres e meninas que usam as redes sociais todos os dias e acabam sendo influenciadas pelas personalidades da internet. Ela não costumava acompanhar grandes influencers fitness como Gracyanne, mas suas colegas sempre apareciam na timeline com fotos treinando e exibindo os próprios corpos no espelho. “Eu sempre via minhas amigas da faculdade e do colégio postando stories na academia, montando marmitas saudáveis. E eu não estava me sentindo bem com meu corpo. Estava com o percentual de gordura corporal muito maior do que o percentual de massa magra. Quando eu ia fazer alguma atividade física, cansava rápido. Percebi que isso atrapalhava o meu dia a dia, então tomei coragem e me matriculei na academia.”

Segunda fase: “Lua de mel”

Ela não foi a única. O movimento fitness ganhou força, atraindo a atenção do público — e das grandes empresas. E o que antes era só uma forma de compartilhar experiências acabou se tornando uma oportunidade para o mercado. Uma pesquisa da ABIAD (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres) afirmou que, em 2022, houve aumento no consumo aparente de concentrados de proteínas (como o famoso Whey Protein) em 25%, quando comparado ao mesmo período de 2021. E estão inseridos nessa conta pré-treinos, barras proteicas e outros alimentos criados para abastecer o mercado que não parou de crescer.

Assim que decidiu começar a academia, Alanne comprou tudo o que era necessário para ter uma boa performance: roupas, sapatos, pré-treinos e até fones de ouvido. “Gastei quase 300 reais com tudo, incluindo um par de luvas e um ‘potão’ de Whey para me ajudar na musculação, porque passo muito tempo fora de casa e minha alimentação não é tão boa. Na época, uma amiga também decidiu fazer a mesma coisa. Acho que ter a companhia dela me motivou a dar o primeiro passo.”

O número de academias no Brasil triplicou em uma década. O panorama Setorial Fitness Brasil apontou que, em 2014, havia 19.266 CNPJs ativos nessa área em todo o país. E dez anos depois, em 2024, esse número saltou para 56.883.

Esse foi um avanço positivo para as empresas do ramo, que passaram a lucrar mais. Mas também foi benéfico para os clientes, que agora têm mais comodidade e opções na hora de escolher onde malhar. . Ricardo Giuseppe é um jovem que há pouco mais de dois meses decidiu começar a ter uma vida mais saudável.

Por morar em Paulista, em uma área distante do centro urbano, ele nunca esteve próximo a uma academia. Mas agora, três unidades diferentes foram inauguradas próximo ao seu trabalho em menos de dois anos, e ele pôde finalmente ter a comodidade de escolher uma opção que se adeque à sua rotina.

Terceira fase: Desilusão

A desilusão é uma das várias fases do amor e está presente nessa jornada. É aquele período em que se passa a enxergar o objeto de afeto de uma forma mais realista e menos idealizada, com todas as suas qualidades e defeitos. O artigo da USP “Fatores que influenciam a evasão de clientes em uma academia: Estudo de caso” mostra que cerca de 70% das pessoas que começam a praticar exercícios desistem logo nos primeiros meses — e existem vários motivos para isso.

Lúcio é um exemplo: fazer com que os exercícios encaixassem na rotina foi sua maior dificuldade. “Já tentei começar uma rotina de treinos, mas sempre falhava em menos de um mês. Só consegui superar esse obstáculo depois que deixei o treino flexível: podia ser em qualquer horário. E se eu faltasse um dia, fazia no próximo.”

Já Ricardo teve outro problema. “No início senti muita dor e cansaço. Foi difícil sair da minha zona de conforto.”

Essa dor, muito comum em quem começa a malhar, tem nome: DOMS, traduzido do inglês como Dor Muscular de Início Tardio. Mas ela não representa um problema; é uma resposta do corpo ao estresse muscular, uma reação natural que surge de oito a doze horas após o exercício e some à medida que você vai se adaptando ao treino.

“Quando comecei a trabalhar, meu dia ficou corrido”, conta Alanne. “Eu trabalhava de manhã e depois tinha que ir para a faculdade. Quando chegava em casa, não tinha mais energia para nada, e mal conseguia pensar em pegar um ônibus para malhar. Ter uma academia perto da faculdade facilitou bastante as coisas. Eu conseguia conciliar minhas aulas com o tempo de ir para a academia, e no final do dia eu chegava em casa e podia descansar.”

E é esse processo de desilusão que marca o início do amor pelo novo estilo de vida. É preciso, primeiro, superar todos os obstáculos e incômodos para chegar na fase que todo mundo quer: mudar o corpo, a saúde e amar o processo.

Quarta fase: Adaptação, aceitação e compromisso

Passada a fase de adaptação, a adesão ao novo estilo de vida começa a ser mais natural e prazeroso. Tudo muda: a disposição, a forma como vê o mundo, a saúde e, claro, o que muitos consideram principal: o corpo.

Para Alanne, o motivo de adotar o novo estilo de vida foi ficar parecida com as pessoas que acompanha nas redes sociais. Mas o tempo mostrou para ela algo muito mais valioso nessa jornada. “Eu diria que ainda não atingi o meu corpo dos sonhos… Sinto que ainda tenho muito o que melhorar. Mas mudar meu estilo de vida me ajudou com mais coisas do que eu imaginava. Minha saúde e meu sono melhoraram. Agora consigo fazer várias atividades físicas sem me exaurir. Aprendi a andar de bicicleta com meus amigos, conheci muitas pessoas na aula de pilates e jump e me apaixonei por dança. Sinto que, nessas horas, consigo dar uma pausa na minha rotina turbulenta, desestressar e simplesmente me divertir.”

Quinta fase: Amadurecimento

(e tudo o que pode vir a acontecer depois)

E para quem deseja ir além? É possível que o amor se torne algo mais?

Sim, é.

O fisiculturismo é um esporte e uma profissão que nasce desse amor pelo estilo de vida fitness. E não é novidade: existe desde a Grécia Antiga, quando os homens desenvolviam força e agilidade para a guerra. Depois, se tornou uma forma de expressão artística com Eugen Sandow, o primeiro fisiculturista da história e fundador da The Great Competition — uma competição que, na Londres de 1901, deu origem a todos os campeonatos de fisiculturismo que existem hoje.

Mas o que é preciso para entrar nesse mundo? Para quem já ama o mundo fitness, é um passo a mais. É uma dedicação e comprometimento com um estilo de vida que muitos encaram como restritivo, mas que, na verdade, é libertador para quem o vive. Para Lúcio, foi uma escolha que vai moldar o seu futuro.

Depois que se tornou bolsista em um projeto de pesquisa na universidade, Lúcio pôde começar a se dedicar à essa escolha. Planejou a alimentação, entrou para uma academia profissional e hoje treina para, um dia, subir no palco junto com outras pessoas que admira pela tela do celular.

“Uma das maiores mudanças que fiz foi na minha alimentação. É dela que consigo tirar a energia para os treinos”, contou. “Pela manhã, como de 6 a 7 bananas, pão e mortadela. No almoço, arroz, feijão, ovo e carne. Todos os dias, sem fugir do cardápio. Às vezes, essa quantidade pode aumentar. O ovo e a carne me ajudam a bater a meta de proteína, enquanto o resto me ajuda a não emagrecer”.

Mas é preciso mudar muito mais do que apenas a alimentação. De acordo com Philippe Aquino, personal trainer e pós-graduado em educação física, a disciplina está presente em todos os aspectos da vida de um fisiculturista. “Para ser um bom atleta, você precisa de preparo. Ter uma boa alimentação, treinamento com personal trainer e uma rotina de sono. Se um desses aspectos estiver desequilibrado, o rendimento é afetado.

“O fisiculturismo é um trabalho que nunca para”, Philippe afirma. “A sessão de treinos pode durar de 3 a 4 horas diárias, mas toda a rotina precisa estar adaptada ao ganho muscular. Sem pausas no final de semana. Então sair com os amigos, por exemplo, pode significar assisti-los comer em um restaurante enquanto você come uma marmita caseira pesada na balança e com os nutrientes milimetricamente calculados. E enquanto eles passam a madrugada bebendo, você precisa voltar cedo porque tem que respeitar o horário de sono”.

Se é preciso renunciar a tanta coisa para seguir essa vida, será que vale a pena se dedicar ao fisiculturismo? Para Lúcio, a resposta é sim.

“Eu posso ganhar muito com isso. Mas os maiores ganhos não são os financeiros. É minha saúde, quando fico doente com menos frequência. Minha disposição, quando acordo com mais energia para enfrentar o dia. Me olhar no espelho e me sentir bem comigo mesmo. E o mais importante, que são meus amigos: as pessoas que conheci graças à academia, me motivaram e fizeram minha vida valer muito mais a pena”.