Experiências e vivências de quem vive a arte dos sons

Por muito tempo considerada uma linguagem universal, a música ultrapassa fronteiras, conecta pessoas e, para muitos, é um verdadeiro vínculo de amor e sentido de vida. Este é o caso de quatro músicos pernambucanos que vivem e estudam a arte dos sons: Jairo Filho, 25 anos, Guilherme Simões, 17 anos, André Alves, 27 anos e Karla Karolla, 32. De trajetórias distintas, mas unidas pela paixão em comum, eles compartilham como a música moldou suas vidas, influenciou escolhas, guiou desafios e se consolidou como expressão máxima de amor, resistência e identidade.

Em suas narrativas, percebemos como a música vai além de uma profissão ou passatempo: é parte intrínseca de quem eles são, uma lente por meio da qual enxergam o mundo e constroem seus projetos de vida. Suas histórias se cruzam não apenas pelo amor à arte, mas também pela persistência em manter esse amor vivo, mesmo diante de todas as dificuldades pelo caminho.

Jairo: Da igreja ao palco erudito, um caminho de descobertas e amadurecimento

“O espaço para ópera ainda é limitado na cidade”

“O espaço para ópera ainda é limitado na cidade”

A trajetória musical de Jairo, hoje com 25 anos, teve início ainda na infância, marcada por uma forte vivência religiosa. Foi aos 11 anos, em meados de 2010, que ele começou a cantar no ministério de louvor da igreja que frequentava, participando ativamente dos cultos e eventos comunitários. A música, nesse contexto, era inicialmente uma forma de expressão espiritual, mas aos poucos se transformou em algo maior: uma paixão e um caminho de vida.

Aos 14 anos, em 2014, Jairo decidiu profissionalizar sua relação com a música e ingressou na ETECM – Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical, localizada no bairro de Santo Amaro, no Recife. Ali, ele teve contato com disciplinas formais de teoria musical, percepção sonora e prática instrumental, além de participar de grupos de música popular, enriquecendo sua formação e ampliando horizontes.

Com o passar do tempo, Jairo foi descobrindo outros universos musicais além do repertório religioso e popular com o qual já estava familiarizado. Um desses encontros marcantes foi com o canto erudito, despertado pela atuação no Ateliê de Ópera do Recife (AOR), projeto que promove montagens líricas anuais no tradicional Teatro de Santa Isabel. Desde então, Jairo vem se dedicando ao estudo do bel canto, participando de corais especializados como o Bluejeans, coro masculino do Conservatório Pernambucano de Música, e o Grupo Vocal Cantamus, com foco em música sacra.

“Estou atualmente apaixonado pelo canto erudito”, revela. “Tenho estudado muito sobre essa arte, principalmente técnicas vocais específicas, respiração e interpretação.” Seu olhar se ampliou: hoje, além de cantar, Jairo também aprecia o papel de espectador, assistindo a concertos e óperas sempre que possível, numa busca constante por referências e inspiração.

Entre seus ídolos, Jairo cita nomes como Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti, que considera exemplos máximos de técnica e emoção no canto lírico. Mas sua playlist também inclui artistas como Lady Gaga, pela versatilidade e domínio de palco, e o grupo gospel Diante do Trono, que marcou sua infância e adolescência.

Apesar da paixão, Jairo reconhece que o caminho não é fácil. “O espaço para ópera ainda é limitado na cidade”, reflete. No entanto, ele não desanima: seus planos incluem concluir a formação técnica e, eventualmente, ingressar em uma faculdade de música, talvez ampliando sua atuação para além do Recife. “Estou deixando as coisas fluírem, mas sei que a música será sempre parte essencial da minha vida.”

Guilherme: do encanto infantil ao palco do The Voice Kids

"Quero fazer faculdade de música e seguir profissionalmente”

“Quero fazer faculdade de música e seguir profissionalmente”

Com apenas 17 anos, Guilherme já carrega uma trajetória musical rica e inspiradora. Desde muito pequeno, demonstrava fascínio pela música: aos 3 anos, já brincava com instrumentos de brinquedo e imitava cantores que via na televisão. Aos 6 anos, em 2013, iniciou seus primeiros estudos formais, aprendendo violão e técnica vocal, com incentivo da família, que sempre valorizou a cultura e as artes.

Mas o grande divisor de águas em sua vida musical ocorreu em 2020, quando, aos 12 anos, participou do programa The Voice Kids Brasil, transmitido nacionalmente pela TV Globo. Para ele, a experiência foi transformadora: “Foi incrível, diferente de tudo que eu já tinha vivido. Estar com crianças que compartilhavam o mesmo sonho foi muito especial.”

No programa, Guilherme pôde vivenciar o ambiente profissional da música: ensaios rigorosos, gravações em estúdio e apresentações ao vivo para milhões de espectadores. “Antes, minhas apresentações eram recitais com público reduzido. No The Voice Kids, aprendi a lidar com a grandiosidade de um show televisivo e a controlar a ansiedade.”

Um dos maiores aprendizados foi entender que não estava sozinho no talento. “Sempre fui a única criança que cantava e estudava música na minha escola. Ver tantas crianças tão boas quanto eu foi um choque, mas também um grande crescimento”, confessa. Esse encontro com outros jovens artistas o motivou a continuar estudando e aprimorando sua técnica.

Após a participação no programa, sua vida mudou. A pandemia trouxe desafios, como o afastamento dos palcos, mas também a oportunidade de se concentrar nos estudos vocais e aprender novas técnicas. “Eu pude perceber coisas que sempre estiveram na minha cabeça, mas que eu ainda não conseguia expressar”, relata.

Suas inspirações são essencialmente brasileiras: Gal Costa, pela doçura e potência da voz; Marisa Monte, pela sensibilidade artística; e Ivete Sangalo, pela energia contagiante nos palcos. Mas Guilherme também admira artistas internacionais como Bruno Mars e Ariana Grande, principalmente pela excelência técnica e capacidade de emocionar multidões.

Para o futuro, Guilherme não tem dúvidas: quer seguir carreira na música. “Já pensei em ter um plano B, mas hoje estou mais certo do que nunca de que quero fazer faculdade de música e seguir profissionalmente”, afirma com convicção. Seu sonho é continuar emocionando pessoas através da sua arte, seja nos palcos ou nos estúdios.

André Alves: o educador que respira música todos os dias

André sonha em ampliar sua carreira para a Musicoterapia

André sonha em ampliar sua carreira para a Musicoterapia

André Alves, com 27 anos, vive a música de forma intensa e cotidiana. Professor de educação musical e de musicalização infantil, ele atua em escolas públicas e projetos sociais, transmitindo para as novas gerações o mesmo amor que sente pela arte.

“Eu respiro música”, diz, com um sorriso. Sua formação começou na igreja, assim como a de muitos músicos brasileiros. “Ali eu aprendi a cantar, a tocar instrumentos e a perceber a música como uma linguagem capaz de unir as pessoas”, relembra. Mais tarde, André aprofundou seus estudos na música clássica, com foco especial no Classicismo e no Romantismo, períodos literários que considera fundamentais para sua identidade musical.

Mas sua atuação vai além dos concertos e das salas de aula. André sonha em ampliar sua carreira para a Musicoterapia, área em que pretende atuar futuramente, levando a música como instrumento de cura e acolhimento. “A música me faz um ser melhor, mais reflexivo e mais empático. Ela me permite influenciar pessoas, ajudar crianças e adultos a se expressarem, a lidarem com emoções.”

Ele reconhece que o cenário musical no Brasil impõe desafios, especialmente pela falta de valorização da profissão. “Nosso país não valoriza o músico como deveria. Muitos acreditam que é só talento, mas é preciso muito estudo e dedicação.” Mesmo assim, André acredita no potencial da música como ferramenta social. “Vejo na educação musical uma possibilidade de transformação real.”

Para quem deseja seguir o mesmo caminho, ele deixa um conselho: “Persevere! Em toda profissão precisamos ser o melhor no que fazemos, porque o mercado busca isso. Temos concursos na área militar, possibilidades de atuar como professores ou músicos de orquestras. É preciso se dedicar.”

Atualmente, André está focado em concluir sua graduação, prevista para o final deste ano de 2025. Quanto aos sonhos, prefere manter alguns guardados, mas não esconde sua alegria por já ter realizado importantes conquistas na carreira. “Outros objetivos mantenho no coração, com a esperança de realizá-los um dia”, conclui.

Karla Karolla: entre o lirismo da ópera e a emoção do brega romântico

“São experiências que reforçam meu amor e minha missão na música.”

“São experiências que reforçam meu amor e minha missão na música.”

Natural de Olinda, cidade que respira cultura em cada esquina, Karla Karolla descobriu sua paixão pela música ainda na infância.

Sempre fui cercada por manifestações culturais muito fortes, e desde pequena a música me encantava. Lembro de ouvir minha mãe cantando em casa e de ficar fascinada com os sons”, recorda com emoção.

Mais tarde, esse amor se transformou em vocação, quando ingressou no Conservatório Pernambucano de Música, referência na formação musical do estado. Lá, Karla desenvolveu sua técnica vocal e ampliou sua percepção artística, transitando com naturalidade entre estilos distintos.

Eu sempre digo que a música é um universo sem fronteiras”, afirma. “Amo cantar ópera, mas também amo o brega romântico, que fala direto ao coração das pessoas. Cada estilo me permite expressar uma parte diferente de mim. Esse trânsito me mantém apaixonada e curiosa, sempre querendo explorar novas sonoridades e emoções.” Karla enxerga o ato de cantar como um verdadeiro gesto de amor. “É uma forma de me comunicar, de tocar o outro.

Quando estou no palco, sinto uma conexão muito profunda com o público, como se estivéssemos vivendo juntos aquele momento.” A música também impacta sua rotina de maneira decisiva: “Ela me dá disciplina, mas também liberdade.

Me emociona, me inspira, me desafia. Mesmo fora dos palcos, ela está presente: na minha rotina, na criação dos meus projetos e, principalmente, na forma como me relaciono com o mundo.”

Entre os momentos mais marcantes de sua carreira, Karla destaca a estreia na ópera “Il Maestro di Musica”, realizada no Teatro de Santa Isabel, em agosto de 2023. “Foi emocionante levar o canto lírico para um público tão diverso e perceber como a música, mesmo erudita, pode emocionar e ser acessível.” Outro momento inesquecível foi o lançamento de suas músicas no estilo brega romântico, que geraram identificação imediata do público. “São experiências que reforçam meu amor e minha missão na música.”

Para quem está começando na carreira musical, Karla deixa uma mensagem sincera: “Ame muito o que faz, porque o amor vai ser seu combustível nos dias difíceis. Estude, se dedique, mas nunca perca a sua essência e a sua alegria em fazer música. A arte é, acima de tudo, um presente que a gente oferece ao mundo.”

O amor como fio condutor da arte

As histórias de Jairo, Guilherme, André e Karla são diferentes em trajetórias, estilos e momentos de vida, mas todas demonstram como a música é, acima de tudo, um vínculo de amor. Um amor que inspira, que fortalece, que transforma. Seja no palco de um teatro histórico, na sala de aula, no set de um programa televisivo ou nos bastidores de uma gravação, a música ocupa um espaço de protagonismo na vida de quem escolhe vivê-la.

Em meio aos desafios que cercam o fazer artístico no Brasil, como a falta de políticas públicas, o preconceito contra determinadas expressões musicais, como o brega-funk, e as limitações do mercado, o que mantém esses músicos firmes é esse amor profundo, visceral e inegociável.

Mais do que uma profissão ou um hobby, a música para eles é um compromisso com a arte, com a sensibilidade humana e com a construção de um mundo onde a expressão artística seja sempre um caminho legítimo de conexão e transformação. Em cada nota, em cada verso, em cada acorde, eles encontram não apenas o sentido da própria vida, mas também a chance de tocar e transformar a vida de outras pessoas.