Pessoas encontram na música uma profissão. Outras, uma paixão. Para Ernandes Candeia Júnior, ela é tudo isso — e ainda mais: é um elo afetivo, um gesto de amor, uma forma de estar no mundo. Técnico e Bacharel em Piano Erudito, Licenciado em Música, Especialista e Mestre em Educação Musical, ele dedica sua vida ao ensino da música com uma entrega que transcende técnica e método. Mais do que formar músicos, ele cultiva almas apaixonadas por sons, vozes e sentimentos.

Atualmente com 38 anos, professor do Conservatório Pernambucano de Música e atuando em escolas privadas e cursos de Licenciatura em Música, Ernandes é impulsionado por algo que vai além da rotina docente. A música, em sua trajetória, sempre foi uma linguagem de afeto. “Tive sorte de nascer em uma família de músicos profissionais, tanto por parte de pai quanto de mãe. Por estar inserido nesse meio, foi muito natural o meu interesse”, conta. Mas esse “interesse” era, na verdade, uma paixão silenciosa, que crescia junto com ele, costurada nas melodias da infância.

Essa relação íntima com a música também se fez presente em seu vínculo familiar. A figura de sua mãe — professora de música e referência profissional — foi determinante para essa construção. Durante nove anos, ela foi não só sua mãe, mas também sua educadora nas aulas de música, da educação infantil ao fundamental. “Sempre admirei minha mãe pela profissional que é. Ela me inspirou com seu exemplo e me mostrou, desde cedo, que ensinar música é um ato de amor.”

Ao contrário de muitas histórias marcadas por obstáculos e incertezas, Ernandes reconhece que seu caminho foi privilegiado. Teve apoio, acesso à formação e incentivo para seguir o que amava. Desde cedo, por volta dos 5 anos, teve aulas particulares de piano, depois entrou no curso técnico aos 14 e, logo em seguida, na Licenciatura em Música aos 17. “Nunca tive grandes dificuldades. Então me agarrei a essa oportunidade e segui a vida com certa ousadia!”, afirma.

Mesmo diante de um futuro promissor, chegou a considerar uma carreira fora da música. No terceiro ano do Ensino Médio, hesitou entre Engenharia Química e Música. Mas o coração, como costuma acontecer quando se trata de verdadeiros amores, falou mais alto. “O fato de já estar finalizando o curso técnico em música me ajudou na decisão. A certeza veio com naturalidade.”

Desde então, sua dedicação ao ensino musical tem sido profunda, sensível e inspiradora. Embora não tenha se voltado com tanto foco para os palcos da performance, brilhou em outros: os palcos da transformação humana através da educação. Entre os projetos mais marcantes, destaca com carinho a criação de um coro infantil no município de Camaragibe, com quase 70 crianças. “Elas cantavam em até quatro vozes. Era emocionante ver aquele grupo crescer musicalmente e se unir como uma grande família.”

Outro momento inesquecível foi a produção de uma opereta de Chiquinha Gonzaga no ano de 2022, com mais de 200 estudantes iniciantes. “Foi um verdadeiro desafio, mas um daqueles que renovam a paixão pela docência”, diz, com brilho nos olhos. Atualmente, Ernandes também dirige o grupo vocal masculino BlueJeans, que tem ganhado destaque no Recife e em outros estados do Nordeste. Mais do que projetos, são encontros — e cada encontro, para ele, é uma oportunidade de compartilhar o que a música tem de mais valioso: sua capacidade de tocar o coração.

Essa dimensão afetiva da música também se revela em sua trajetória como educador. “Já tive o privilégio de atuar em diversos contextos: Educação Infantil, fundamental 2, Escola Especializada e Licenciatura. Ser professor nesses ambientes tão distintos me trouxe experiências únicas. Em cada um deles, aprendi que ensinar música é, acima de tudo, cuidar das pessoas.”

Para Ernandes, o espaço da sala de aula é tão sagrado quanto o palco. Cada aluno, cada turma, cada grupo coral é uma nova oportunidade de despertar sentimentos, trabalhar a escuta, cultivar o respeito mútuo. A música, quando bem ensinada, ensina muito mais do que afinação e ritmo. Ela educa o olhar, suaviza a convivência, acalma ansiedades. “A música tem o poder de transformar qualquer ambiente. Basta que se esteja disposto a escutar — não só os sons, mas também as pessoas.”

Ao refletir sobre sua evolução como profissional, Ernandes fala com sinceridade sobre os contrastes entre o início da carreira e o momento atual. “No começo, eu tinha o ímpeto, o entusiasmo, o fogo nos olhos. Hoje, com mais experiência, domino técnicas e habilidades, mas às vezes sinto falta daquela coragem impulsiva que me movia no início.” Mesmo assim, sua paixão permanece firme — agora mais amadurecida, mais consciente e igualmente intensa.

Sua rotina é intensa: aulas em duas escolas privadas, atividades no Conservatório Pernambucano de Música e sete disciplinas ministradas em um curso de Licenciatura. Mas nada disso pesa quando se faz o que se ama. “É cansativo, claro, mas também profundamente gratificante. Ver meus alunos crescendo, se emocionando com a música, criando laços… isso me renova todos os dias”.

E os planos não param por aí. Ernandes já se prepara para ingressar em um doutorado. Seu objetivo agora é ampliar ainda mais seu alcance, formar professores com sensibilidade e competência, e lutar pela democratização do ensino musical. “A música precisa estar em todos os espaços de educação. Ela transforma, aproxima, cura. É uma forma de amor que todos deveriam poder acessar”.

Mais do que um educador, Ernandes é um apaixonado. Um desses raros profissionais que mantêm viva a chama da vocação, mesmo diante dos desafios e da rotina exaustiva. Para ele, ensinar música nunca foi apenas transmitir conhecimento. É compartilhar emoções, construir vínculos, oferecer um refúgio de beleza e sensibilidade em um mundo muitas vezes duro e apressado.

A música, em sua vida, é mais do que trilha sonora: é abraço, é palavra não dita, é cuidado em forma de som. E esse cuidado, que ele aprendeu em casa e aperfeiçoou nos corredores da escola e do conservatório, é o que ele oferece a cada aluno, a cada ensaio, a cada projeto. Porque, para Ernandes, ensinar música é, no fundo, ensinar a amar — e não há partitura mais bonita do que essa.