Entrevista com Djalma Claudino, coordenador pedagógico da Orquestra Criança Cidadã

A música não transforma apenas sons: transforma vidas. Esta é a premissa que inspira e impulsiona a Orquestra Criança Cidadã (OCC), um dos principais projetos socioculturais do Brasil, reconhecido nacional e internacionalmente. Criada em 2006, no bairro do Coque, em Recife, a iniciativa promove a inclusão social e o desenvolvimento humano através do ensino gratuito de música clássica para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

Segundo levantamento de 2024 da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), projetos como o da OCC impactam diretamente o desenvolvimento cognitivo, emocional e social de cerca de 300 mil crianças e adolescentes em todo o país. Estudos recentes da Unesco mostram que o ensino formal de música melhora em até 20% o desempenho escolar de jovens em matemática e leitura, além de reduzir a evasão escolar.

À frente da coordenação pedagógica da OCC está Djalma Claudino, 30 anos, músico, educador e defensor da arte como ferramenta de transformação social. Natural de Pernambuco, Djalma vê, diariamente, como a música clássica pode mudar trajetórias, fortalecer vínculos e construir futuros mais dignos para quem antes estava à margem.

O Berro – Como a música clássica e a prática orquestral são trabalhadas na formação das crianças e adolescentes da Orquestra Criança Cidadã?

Djalma Claudino: Na Orquestra Criança Cidadã, a música clássica e a prática orquestral são pilares não apenas artísticos, mas também formativos e éticos. Desde o primeiro contato com o instrumento, a criança é estimulada a desenvolver três competências essenciais: disciplina, cooperação e escuta ativa.

A metodologia que aplicamos é progressiva. As crianças começam aprendendo noções básicas de teoria musical e técnica instrumental, geralmente aos 7 ou 8 anos, e conforme avançam, são introduzidas à prática coletiva. A partir dos 10 anos, já começam a integrar grupos de câmara e, posteriormente, a orquestra completa.

Nosso repertório, que inclui desde obras de Bach, Beethoven e Tchaikovsky até compositores brasileiros como Heitor Villa-Lobos e Clóvis Pereira, é selecionado estrategicamente para desenvolver habilidades técnicas, mas também para proporcionar uma vivência estética rica.

Segundo dados do próprio projeto, 85% dos alunos que permanecem na OCC por mais de 3 anos apresentam significativa melhora no rendimento escolar e no comportamento social. Ou seja, a música é, sim, uma ferramenta de desenvolvimento humano integral.

O Berro – Como você percebe a paixão dos alunos pela música no dia a dia da Orquestra? De que forma esse amor influencia o aprendizado?

DC: A paixão deles é perceptível nos detalhes: no modo como chegam antes do horário para ensaiar, no cuidado ao afinar o instrumento, na forma como pedem para repetir um trecho até sair perfeito.

É impressionante perceber que muitos enfrentam trajetos longos — às vezes, mais de 1h30 de deslocamento —, mas chegam com brilho nos olhos.

Esse amor pela música é, sem dúvida, o que mais impulsiona o aprendizado. A neurociência já comprovou que o envolvimento afetivo com uma atividade potencializa a memória e a concentração. Pesquisas do Instituto de Música e Cérebro de Harvard, publicadas em 2023, indicam que jovens que estudam música com motivação emocional têm 40% mais facilidade em adquirir habilidades motoras e cognitivas complexas.

Na prática, vemos isso acontecer: o amor à música transforma desafios técnicos em metas possíveis. O aluno não aprende só porque é exigido, mas porque deseja, porque se sente pertencente a um universo criativo. Isso cria uma motivação interna que vai além da obrigação, tornando o ambiente de aprendizagem muito mais vivo e produtivo.

O Berro – O que mais emociona você ao ver as crianças e adolescentes se dedicando aos estudos musicais com tanto entusiasmo?

DC: O que mais me emociona é perceber que, através da música, essas crianças e adolescentes estão reconstruindo suas trajetórias. Muitos vêm de realidades de vulnerabilidade extrema, marcadas por ausência de políticas públicas, violência e insegurança. A música surge, então, como um espaço seguro, de acolhimento, de expressão.

É emocionante ver quando um aluno supera não só desafios técnicos, mas também pessoais e sociais. Já tivemos casos de alunos que, através da música, conseguiram melhorar sua autoestima, voltar à escola ou até mesmo se reconectar com a família.

Quando presencio um jovem emocionado após executar uma peça de Mozart ou quando, ao final de uma apresentação, vejo aqueles olhares orgulhosos e felizes, tenho a certeza de que nosso trabalho vai muito além do ensino musical: é um projeto de reparação social e de construção de dignidade.

O Berro – Na sua opinião, qual é a importância de cultivar o amor pela música desde a infância?

DC: Cultivar o amor pela música desde a infância é fundamental para o desenvolvimento de habilidades que vão muito além do fazer musical. Crianças que aprendem música desde cedo tendem a ter melhor desempenho cognitivo, maior capacidade de concentração e desenvolvem valores como paciência, perseverança e empatia.

Um estudo recente da Fundação Nacional de Artes (Funarte) revelou que crianças expostas a atividades musicais regulares têm um aumento de até 35% na capacidade de resolver problemas complexos. Além disso, desenvolvem habilidades socioemocionais essenciais para a convivência em sociedade.

A infância é a fase em que mais somos influenciados por experiências afetivas. Quando a criança associa a música a prazer, pertencimento e expressão, esse amor tende a acompanhá-la por toda a vida. Não estamos formando apenas futuros músicos — embora muitos sigam essa carreira —, mas principalmente cidadãos mais sensíveis, críticos e éticos.

O Berro – Qual foi o momento mais emocionante que você já viveu na Orquestra, ao perceber a força do amor desses jovens pela música?

DC: Há muitos momentos emocionantes, mas um deles sempre me marca profundamente. Foi há cerca de dois anos, em setembro de 2023, durante um ensaio geral para um concerto na Sala São Paulo, um dos palcos mais importantes do país.

Um dos nossos alunos, que enfrentava uma situação familiar muito delicada, chegou atrasado ao ensaio. Estava visivelmente abalado. No entanto, em silêncio, pegou seu violoncelo, posicionou-se e, quando começamos a tocar a Sinfonia nº 9, de Dvořák, ele simplesmente se entregou à música com uma força impressionante. O som dele parecia falar de dor, mas também de resistência, de superação.

Ao final do ensaio, muitos estavam em lágrimas. Não pela tristeza, mas pela intensidade emocional do momento. Ali ficou claro, mais uma vez, que a música é para muitos deles um meio de sobrevivência, um espaço onde encontram sentido, expressão e acolhimento.

Esse episódio resume o que sempre acreditamos: a música salva, transforma e reconstrói vidas.

O Berro – O que mais inspira você, como coordenador pedagógico, ao trabalhar diariamente com jovens que amam tanto a música?

DC: O que mais me inspira é a força de cada um desses jovens. Cada história, cada trajetória, carrega uma luta, um sonho e uma esperança. E perceber que a música é o fio condutor que permite que eles se expressem, se reconstruam e sonhem, é algo que me renova diariamente.

Além disso, trabalhar com eles me ensina a ser um educador mais sensível, mais atento e mais paciente. A música clássica exige rigor, sim, mas também exige afeto, acolhimento e escuta. Cada progresso, cada sorriso depois de um trecho bem executado, cada aplauso após uma apresentação, me lembra que nosso trabalho é profundamente significativo.

Dados da Associação Internacional de Educação Musical mostram que programas de música social como o nosso contribuem para reduzir em até 50% as taxas de evasão escolar e promovem a inclusão de jovens em espaços antes inacessíveis para eles. Saber que fazemos parte desse impacto é uma inspiração constante.

O Berro – Como você definiria, em uma frase, o papel da música na vida dessas crianças e adolescentes?

DC: Eu diria que a música, para essas crianças e adolescentes, é um ato de resistência, de afirmação e de esperança. É a possibilidade de dizer: “eu existo, eu sou capaz, eu posso ir além do que o mundo parece me oferecer”.

O Berro – Para finalizar, que mensagem você deixaria para quem deseja apoiar iniciativas como a Orquestra Criança Cidadã?

DC: Eu diria: apoiem! A arte, especialmente a música, é um direito fundamental. Apoiar iniciativas como a nossa é apostar na potência transformadora da arte, é investir na formação de sujeitos mais críticos, criativos e humanos.

Nosso trabalho só é possível porque existe uma rede de pessoas, instituições e apoiadores que acreditam nessa causa. Segundo o Observatório da Cultura, cada real investido em projetos de educação musical gera um retorno social de R$ 4,50, seja pela redução da violência, pela melhora na educação ou pela inserção social.

Portanto, apoiar projetos como a Orquestra Criança Cidadã não é apenas um ato de solidariedade: é um investimento estratégico em um futuro mais justo e mais humano.

Música como elo, resistência e possibilidade

Ao longo desta conversa com Djalma Claudino, fica evidente que a Orquestra Criança Cidadã não é apenas uma escola de música, mas uma verdadeira escola de vida. Em cada nota, cada ensaio, cada concerto, manifesta-se a força da arte como caminho de transformação social, como espaço de acolhimento e como projeto de futuro.

Em tempos de tantas urgências sociais, o exemplo da OCC revela que a música, quando oferecida como direito e não como privilégio, pode ser uma das ferramentas mais potentes para a construção de uma sociedade mais justa, mais bela e mais humana.