No camarim de luzes quentes, um rosto vai se formando diante do espelho. É como um nascimento em silêncio, feito de pó compacto, delineador e sombras meticulosamente aplicadas. Enquanto o dia escurece lá fora, a performer Sayuri Heiwa surge. Mais do que uma personagem, mais do que uma performance, ela é a síntese de uma vida. Uma história viva que pulsa com coragem, criatividade e afeto.
A arte além do palco

Reprodução/Acervo pessoal
Desde o início dos anos 2000, com a popularização da internet e o surgimento das redes sociais, a arte drag no Brasil saltou dos clubes noturnos para os palcos do mundo. Ícones como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark e Ikaro Kadoshi não apenas popularizaram a linguagem estética da cultura drag — eles transformaram o modo como o Brasil a vê. De símbolo underground a força política, artística e comercial.
Mas longe dos grandes centros midiáticos e dos holofotes da fama, uma constelação de artistas independentes continua mantendo viva essa arte. Em lugares onde o reconhecimento é escasso, onde o glamour cede lugar à garra, é que surgem histórias como a de Sayuri.
Nascida em Água Fria, Zona Norte do Recife, Sayuri Heiwa é a identidade artística de Gilmar Roberto dos Santos Júnior, de 37 anos. Filho de um vigilante e de uma copeira, Gilmar cresceu em uma casa de taipa, ouvindo conselhos rigorosos e carinhosos. “Me ensinaram a nunca revidar o mal com o mal”, lembra, enquanto esfumaça os olhos com uma sombra preta que contrasta com a rosa delicadamente aplicada nas pálpebras.
As primeiras faíscas
O despertar artístico aconteceu cedo. Na adolescência, um amigo de escola,
Rafael Rodrigues, o convidou para coreografar uma apresentação ao som de Die Another Day, de Madonna. Gilmar, que já dançava desde pequeno e também praticava karatê, aceitou na hora. “A coreografia misturava dança com luta. Foi ali que comecei a entender o que era o universo drag”, ela recorda.
Esse universo se ampliou ainda mais quando Rafael lhe apresentou a Antena Mix, uma revista LGBTQIA+ que circulava em formato de jornal. “Eu me encantei completamente. Era tudo novo, tudo possível.”
A arte drag se revelou como um território onde cabiam todos os seus talentos. “Você pode ser cantora, dançarina, apresentadora, maquiadora, DJ, modelo, dubladora… É uma arte completa. É liberdade em forma de expressão”, diz Sayuri, com a firmeza de quem já percorreu longos caminhos.
A construção de um nome

Reprodução/Acervo pessoal
Sayuri não é apenas um rosto bonito montado com técnica e glamour. Ela é um currículo que se desdobra em múltiplas habilidades: mestre de cerimônias, performer, diretora, produtora, repórter, cantora, dançarina, DJ. É, antes de tudo, uma trabalhadora da arte — dessas que ralam muito mais do que brilham. “Minha rotina é intensa. Tem dias que faço duas, três apresentações. É figurino pra costurar, maquiagem pra refazer, produção pra coordenar.”
E, mesmo com tantos anos de experiência, o palco ainda pulsa com a mesma emoção. “A melhor parte é quando estou pronta. A peruca no lugar, o salto nos pés, o corpo montado… é quando Sayuri nasce”, a performer exibe um sorriso.
Amor que resiste
A paixão pela arte drag, no entanto, nunca foi um mar de rosas. “Já pensei em parar várias vezes. Muita gente tentou apagar minha trajetória. Foram críticas, fofocas, ingratidão… Se eu não amasse isso profundamente, teria desistido.” Ela pausa. Pega um copo d’água. Respira fundo. “Mas o amor me segurou. Me reconstruiu.”
Esse amor não é só pela arte, mas também por quem a vive ao seu lado. Heitor Eiras, seu companheiro, está presente em tudo: dos bastidores à costura dos figurinos. “Sayuri só é Sayuri por causa dele”, diz. “Ele veste a personagem como se fosse a boneca da vida dele. Acompanha tudo. Sonha junto.”
Quando pergunto para quem ela escreveria uma carta de amor, caso a arte drag fosse um bilhete apaixonado, a resposta vem com a ternura de quem tem raízes fincadas: “Para ele. Por todo o carinho, cuidado, dedicação. Por amar minha arte tanto quanto eu.”
Onde começa Sayuri, onde termina Gilmar
Essa é a pergunta que ronda todo artista drag. No caso da artista, talvez a resposta esteja entre os dois: “É o Gilmar que vive nela.” As memórias da infância, os princípios dos pais, o bairro que a moldou — tudo isso está presente em cada gesto que ela leva ao palco.
A maquiagem, o penteado, os brincos, a cinta de ferro que a aperta, os cílios imensos — tudo carrega afeto. “Cada detalhe da montagem é uma prova do quanto sou apaixonada por isso. É minha forma de resistir. De existir.”
Fora dos holofotes, dentro da história

Reprodução/Acervo pessoal
Sayuri nunca estampou capas de revistas nacionais, não assina campanhas milionárias e não está no line-up dos grandes festivais. Mas isso não a impede de brilhar. Sua presença nas noites recifenses é um ato contínuo de resistência. É o tipo de brilho que vem de dentro — e que nenhum refletor consegue apagar.
“Cada vez que entro no palco, sinto. Eu amo estar ali. Em cada performance tem um pedaço do meu coração. Acho que dá pra ver no meu rosto o quanto eu sou feliz montada”, declara.
E dá mesmo. Diante do espelho, ao terminar os últimos retoques, Sayuri Heiwa se ergue como uma entidade pronta para mais uma noite. Há algo mágico em sua presença. Mas o que realmente encanta é a força que pulsa por trás do batom vermelho.
A beleza de não desistir
Na cena drag do Recife — diversa, vibrante, e muitas vezes, invisibilizada — Sayuri Heiwa se tornou referência. Uma artista que não só representa, mas sustenta: a sua arte e seu modo de viver. Que não apenas performa, mas vive a arte que escolheu com a dignidade de quem sabe o valor do próprio brilho.
Sayuri é poesia de salto alto, é discurso em forma de sombra cintilante, é memória montada com glitter e dor. É resistência, ternura e verdade.
Ela segue, palco após palco, noite após noite. E mesmo sem os privilégios da fama, sua presença ilumina — com amor, com arte e com a coragem de quem nunca deixou de acreditar.
