Por trás de Sayuri Heiwa, existe o amor firme e cuidadoso de Heitor. Marido, produtor, confidente e coautor de cada brilho que reluz no palco. Nesta conversa íntima, ele abre o coração e revela como é viver os bastidores da arte de quem se ama.
Sentado à beira da bancada de maquiagem, entre tecidos cintilantes e uma parafernália de pedrarias, Heitor sorri como quem já viu esse espetáculo começar mil vezes — e ainda assim se emociona. Ele não está no centro da cena, mas é impossível falar de Sayuri Heiwa sem falar dele. Marido, produtor, braço direito e esquerdo da drag queen recifense, Heitor é o alicerce invisível que sustenta cada entrada triunfal. E nesta conversa, ele nos convida para um passeio pelos bastidores do seu amor.
O Berro – Como foi que tudo começou? Quando você percebeu que queria estar não só ao lado da Sayuri, mas dentro do universo dela?
Heitor: “Foi tudo muito natural, sabe? A gente começou a namorar em 2013. Nessa época, a Sayuri estava dando uma pausa. Mas quando surgiu a chance dela voltar, em 2017, eu já fui junto. Comecei a acompanhar nos eventos, fazia os registros, filmava, tirava fotos… e de repente estava ali, metido em tudo. Me entrementes mesmo [riso]. Nunca mais parei.”
Heitor fala com um brilho no olhar. Um brilho que lembra muito o que Sayuri leva ao palco — só que o dele é mais discreto, quase cúmplice.
O Berro – E como é essa divisão de papéis: o marido e o produtor? São pessoas diferentes dentro de você?

É impossível falar de Sayuri Heiwa sem falar de Heitor
Heitor: “Ah, são sim! O marido é mais tranquilo, não liga se a roupa tá perfeita, se o salto combinou. Já o produtor… esse é exigente! Quer tudo certo, tudo impecável. E aí rola pressão, rola cobrança, estresse. Mas é por querer o melhor sempre. A gente vive num meio onde o cuidado com os detalhes faz toda a diferença.”
Heitor cruza os braços, como quem segura um pouco do peso que essa responsabilidade carrega. Mas logo relaxa quando falo de algo que Sayuri já havia contado — que às vezes é ele quem se entrega mais à arte dela do que ela mesma.
O Berro – É verdade que você mergulha tanto na arte dela que parece viver cada gesto como seu?
Heitor: “É… eu me entrego demais mesmo. Às vezes, acho até que passo do ponto. Mas é porque quero que tudo fique bonito, redondo, sem falhas. O público merece isso. Se a gente entrega um bom trabalho, ele se destaca. E com destaque vem reconhecimento, mais oportunidades. No fim, essa entrega toda é por acreditar no que a gente está construindo juntos.”
O Berro – Você já disse que ajuda a bordar, a escolher músicas… como é amar ajudando a construir uma estrela com as próprias mãos?
Ele sorri, dessa vez, sem pressa. A resposta vem como um sopro leve.
Heitor: “É incrível. Ver a roupa pronta, o número montado, tudo ganhando vida… é um orgulho danado. Me sinto parte de algo maior. Tipo missão cumprida, sabe? Porque não é só sobre estar junto — é sobre fazer acontecer junto.”
O Berro – E em Sayuri, o que é você? O que tem de Heitor nesse espelho que reflete cor, dança e presença?
Heitor: “Olha, a Sayuri tem um jeito só dela. A maquiagem, os trejeitos, os movimentos… são muito únicos. Mas tem pedacinhos meus ali, nos detalhes. Um brinco que escolhi, um jeito de prender o cabelo, um acessório. O salto alto que eu sugeri. Às vezes é meu gosto que aparece ali, escondido no brilho.”
O Berro – A arte dela também te molda? Desperta algo em você?
Heitor: “Total. Me instiga, me dá vontade de criar mais. A arte não é só o palco. É tecido, é corte, é ideia, é música, é cor. Cada pedacinho abre uma nova possibilidade pra eu trabalhar junto. Ela me provoca a pensar fora da caixa.”
O Berro – E de todas as faces da Sayuri… qual é a que mais te toca? Aquela que faz seu coração bater mais forte?
Heitor: “A do palco, com certeza. A Sayuri completa, pronta, entrando com tudo que a gente pensou e construiu… Aquilo me emociona. Ver o resultado final, o conjunto da obra, é a parte que mais me encanta. Porque ali está tudo: o esforço, o cuidado, o amor.”
A conversa termina como começou: com brilho. Mas não o que vem do glitter ou das luzes de cena. É um brilho mais raro — o da partilha. Heitor não é só o homem por trás da drag queen. Ele é o parceiro que costura sonhos, um a um, com paciência e devoção. E se existe mágica no palco, é porque, nos bastidores, existe amor.
“É muito mais do que ajudar. É viver junto. Cada show é um pedaço de mim também.”, conta Heitor.
A conversa vai chegando ao fim como um espetáculo que se despede sob aplausos — com a certeza de que algo bonito foi compartilhado. Entre sorrisos, lembranças e confissões, o que fica é um sentimento que vai além da arte, além do palco, além dos bastidores.
Heitor não ama só a Sayuri do palco. Ele ama Sayuri inteira — com suas dúvidas, brilhos, exaustões e conquistas. Ama a artista, mas também a pessoa que existe por trás da peruca, entre uma costura e outra, na volta pra casa depois do show. E Sayuri, por sua vez, encontrou em Heitor mais do que um parceiro de vida: encontrou alguém que não só acredita em seus sonhos, mas que arregaça as mangas para torná-los reais, todos os dias.
O amor dos dois é como a própria arte drag: construído com camadas, feito de detalhes, moldado pela coragem de ser e fazer junto. É amor que aprende, que se reinventa, que brilha até mesmo quando as luzes se apagam. Um amor que não se limita ao “eu te amo” no camarim, mas que se costura no figurino, se afina na trilha sonora e se revela inteiro quando Sayuri pisa no palco — sabendo que, no meio da plateia invisível do coração, Heitor estará sempre ali, torcendo, vibrando, ajudando a fazer da arte um lar.
E talvez seja isso que torne os dois tão fortes: o fato de que, no fim das contas, o amor deles também é uma performance. Não no sentido de fingimento — mas no de entrega. Uma apresentação contínua, onde cada gesto diz: “estou com você”. E isso, sim, é o que há de mais bonito no show da vida real.

