Quem nunca ficou feliz por um casal ficar juntos depois de enfrentarem dificuldades que o impediam de viver um romance? Ou quem nunca ficou triste porque uma tragédia os separou? Essas são algumas das reações que uma história de amor causa no seu público consumidor. Geralmente, adolescentes e jovens adultos são o público-alvo principal dos filmes que abordam uma história de amor, como é o caso da estudante Valentine Duarte, de 15 anos, que começou a gostar do gênero ainda na infância. “Desde pequena, eu sempre gostei de ver os filmes das princesas da Disney porque quando elas se encontravam com os seus príncipes, eu torcia muito para que eles se beijassem e fossem felizes. E aí eu fui crescendo e comecei a ver outros filmes de romance porque eu gosto dessa coisa do casal ter seu felizes para sempre”, diz.

Para todos os garotos que já amei. Divulgação
Segundo os dados de Parrot Analytics realizado em 2023, baseado na quantidade média das franquias “Para todos os garotos que já amei” e “Barraca do beijo” assistidas 30 dias após o lançamento, 82% dos consumidores são do público feminino de idade entre 13 e 22 anos, sendo 49% adolescentes. E ainda de acordo com o site, que analisou a quantidade de filmes românticos dos anos 90 e 2000 assistidos em streamings e utilizando o multiplicador de demanda no Brasil, concluiu que “Titanic” é o mais amado pelos fãs por ser procurado 17,3 vezes mais que “Orgulho e Preconceito” e “10 coisas que eu odeio em você”, confirmando que a história de Jack e Rose é marcado na memória de quem assistiu pela primeira vez por conta dos momentos de amor e a tragédia que os separou. “Quando eu assisti pela primeira vez, eu lembro que chorei muito porque eu não imaginava que isso ia acontecer e foi aí que eu percebi que nem toda história de amor acaba com os dois vivendo felizes para sempre como eu achava”, relembra a estudante de enfermagem Maria Júlia de Araújo, de 20 anos.

A Barraca do Beijo. Divulgação
Logo, para compreender o fenômeno do romance nos cinemas, é preciso entender sua origem na literatura. O gênero surgiu no século XIX durante a Revolução Francesa quando a burguesia estava no poder enquanto havia a produção de poesias épicas, porém o romance que conhecemos hoje foi graças a uma escola literária que possui o mesmo nome: Romantismo, onde os sentimentos e as emoções ganhavam vida através da escrita, expressando a idealização do amor. Em seguida, não demorou muito para que essas histórias ganhassem vida no cinema e se popularizassem com o passar dos anos. É o que o professor de Letras da Universidade Católica de Pernambuco, Robson Teles, acredita. “É uma coisa muito mais recente, lógico, até porque o cinema não é tão antigo. Então a adaptação para o cinema, eu acho que é uma forma de pegar uma narrativa que deu certo, que é o romance, e experimentar uma outra linguagem, que é a linguagem do cinema.”, explica. Como exemplo, Robson recita obras literárias do Romantismo brasileiro que tiveram suas versões vividas nas telas do cinema. “Muitos textos de Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis, Helena de Alencar, já viraram peças de teatro e já viraram filmes”, argumenta. Mas o que é preciso para um romance ser atrativo para seu público?
Embora as histórias de romance possuam o mesmo objetivo, isto é, retratar o relacionamento dos protagonistas sendo construído aos poucos, nem todas conseguem chamar a atenção dos fãs. Um dos motivos tem a ver com a abordagem da narrativa e o estilo que diferenciam os romances atuais dos antigos. “Acho que o romance contemporâneo é a cara do homem contemporâneo. Tem que ser uma questão de uma linguagem diferente, uma linguagem mais fluida. (…) Eu acho que a própria narrativa, a forma de narrar e os problemas discutidos pelos romances dos séculos XIX e XX são muito diferentes dos problemas discutidos, por exemplo, por nós que já estamos no século XXI. (…) Porque o romance reflete a sociedade.”, explica o professor Robson. E para comprovar o raciocínio, Robson revela a experiência dos jovens com os livros da época do Romantismo que trouxe para a sala de aula. “Quando os meus alunos, por exemplo, do ensino médio, começam a ler Aluísio Azevedo ou Machado de Assis, José de Alencar, eles não se identificam porque a linguagem é contemporânea aos autores.”
Além do romance ficar interessante com uma escrita mais simples, o professor explica que para o adolescente se sentir representado na história, é necessário que sua convivência no dia a dia seja descrita tanto na literatura quanto no cinema, para moldar o seu ponto de vista sobre diversos fatores de sua vida, como a sexualidade, família e preconceito. “Muitos romances que já vi sempre traziam coisas que já vivenciei, tipo quando eu me mudei para uma escola nova quando eu tinha 13 anos e sofri bullying por causa da minha aparência. Foi aí que eu vi aquele filme lá da Klara Castanho, em que ela faz a nerd excluída, que fez me sentir compreendida pela primeira vez”, revela Valentine quando assistiu ao filme “Confissões de uma Garota Excluída”, adaptação do livro de Thalita Rebouças.
A obra fala de uma adolescente chamada Tetê que precisa lidar com a violência escolar praticada pelos colegas e ao mesmo tempo, com a família difícil e uma paixão impossível. Por fim, o professor Robson reforça que os personagens precisam ser o reflexo de quem os assiste. “Sem dúvida nenhuma, uma história em que o personagem principal é simpático e o leitor se sente identificado com esse personagem, é provável que esse jovem se projete do ponto de vista psicanalítico, né? De maneira freudiana ou de maneira catártica, dizem os gregos, e acabe lendo o romance como se estivesse lendo sua própria vida, até porque a arte reflete a passagem do homem para o mundo e como esse homem está”, justifica.
Partindo para a questão psicológica, os filmes de romance são os principais fatores quando se acredita num amor perfeito. O primeiro beijo, as borboletas no estômago, o sorriso bobo são algumas das características que causam, no adolescente e no jovem adulto, a sensação de experimentar algo parecido com aquele pois, como se veem retratados na personalidade e no ambiente, acabam usando a obra como uma inspiração na vida real. Nesse sentido, a operadora de caixa Lorena Piovani, de 25 anos, confessa que já vivenciou essa fase.

Crepúsculo. Divulgação
“Na minha época de adolescente, quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, eu era viciada nos filmes de Crepúsculo e era apaixonada pelo Edward. Então na minha cabeça, eu iria namorar com alguém que era igual a ele e pedia pra Deus que me desse um namorado que agisse como aquele vampirão lindo”, relata. E assim que foi questionada se foi influenciada pelos filmes a dar o seu primeiro beijo, Maria nega, mas alega ter visto outras jovens imitando os filmes quando começavam a namorar. “Eu lembro de uma menina da minha sala que começou a agir que nem a Bela de Crepúsculo para conseguir um namorado e ela até fez isso com um cara que ela tava namorando, tipo fingir que era depressiva, coisa que ela não era, só para o menino gostar mais dela. Mas daí não durou muito tempo porque ele beijou outra e ela quebrou a cara. Foi engraçado, mas me deu dó dela”, expõe.
Antes de julgar os filmes e até o próprio público mais novo, deve-se olhar essa situação do ponto de vista da Psicologia. Por isso, a psicóloga Viviane Barros demonstra o que diferencia a mentalidade de um jovem e um adolescente e o que levam a acreditar no amor idealizado pela ficção. “A diferença está ligada a falta de experiência, maturidade e a impulsividade presente na maioria dos adolescentes. O adulto tende a ser mais comedido, atento e um pouco mais consciente do que pode ser real ou imaginário. Os motivos, provavelmente, estão ligados a necessidade de aceitação e busca da perfeição. Porém, vale ressaltar que a fragilidade das relações familiares, abusos diversos, preconceito, entre outros, propiciam a descrença no próprio eu.”, esclarece Viviane.
Em complemento a fala, Viviane afirma que os filmes de romance impactam de duas maneiras distintas, desde que o jovem esteja consciente do que sente. “Os efeitos positivos são: o trabalho com o imaginário e divulgação de pontos de vista diferentes. Os negativos, por outro lado, são a idealização de realidade fictícia como sendo a real, estímulo ao consumo diversos e, em alguns casos, se torna uma fuga da realidade.”
Dessa forma, é preciso uma análise profunda dessas histórias que envolvem o psicológico dos jovens. A psicanálise de Sigmund Freud – citado, anteriormente, na fala do professor Robson – diz que não se deve olhar apenas para as ações que os protagonistas cometem de forma consciente, mas também a impulsividade que os motiva para fazer o tal ato, ou seja, quais são os conflitos, segredos e as causas que responsabilizaram o indivíduo que o levaram a escolher o amor. Logo, se os jovens olhassem ou fossem orientados pelas famílias a ver por essa perspectiva, talvez entenderiam melhor os seus sentimentos. “Na visão da psicologia, escutar, tentar entender e orientar para superar acontecimentos fazem parte do aprendizado emocional do indivíduo. Experiências reais, muitas vezes, são importantes para o amadurecimento”, responde a psicóloga Viviane.
