O romance e o cinema são irmãos que nasceram quase na mesma época, mas cresceram juntos. E com eles, surgiram os filmes de amor. Não é só um, são vários. Tem o amor que surge depois que um príncipe salva uma princesa das garras de uma bruxa má. O amor que acaba depois que a morte os separa. O tal do amor impossível pois ambas as famílias se odeiam e os pombinhos precisam ficar juntos antes que seja tarde demais. Ou o amor de mentirinha para conseguir se destacar em algum ambiente, mas acaba quebrando a regra principal (jamais se apaixone). E tem aquele amor. Ah, o amor comediante. Onde a vida prega peças divertidas e engraçadas para os personagens viverem intensamente e só ficarem juntos quase no final do filme, quando um deles quase desaparece do mapa e sempre depois de uma briga. São histórias lindas e cheio de superações e desafios para estar com quem ama, mas o fato é que estamos cansados de não ver a veracidade nessas narrativas. Ou seja, não vemos o amor real no cinema. E é aí que está a pergunta problema: onde ele está?

Com Quem Será?. Divulgação

Com Quem Será?. Divulgação

Onde está o amor que junta dois personagens que não acreditam em destino depois de terem vivido milhões de decepções amorosas? Esses que acham que o amor é só uma simbologia pregada pela sociedade para trazer engajamento aos seus produtos ou o pior sentimento do mundo que só traz pessoas confusas para confundir e piorar a sua saúde mental. E quando menos espera, o destino surge como um pequeno cupido que usa a flecha do amor para fazê-los refletir sobre isso ao invés de criar um “acidente” desastroso que os força a criar essa dinâmica. É o que aconteceu com Frank (Keanu Reeves) e Lindsay (Wimona Ryder) do filme lançado em 2018, “Com quem será?”. Tudo o que eles tinham eram apenas um casamento chato com pessoas desagradáveis e um sonho. O sonho de sair dali o mais rápido possível. Mas o que não imaginavam eram que iriam sair apaixonados um pelo outro no fim.

Só que nem todos sabe o que é um namoro. Tudo o que sabem é como se começa uma relação amorosa. No início, os personagens podem ser amigos, estranhos, conhecidos “só de vista”, inimigos ou até mesmo um amor antigo, mas tudo o que precisam fazer é conhecer um ao outro. Depois, o desenvolvimento do namoro se dá pela forma como o casal lida com os problemas sociais (família, violência) ou os momentos trágicos (doenças terminais) para poderem ficar junto no final. Por fim, dependendo do subgênero, eles terminam o filme juntos ou não. Mas como a maioria só foca no surgimento do romance e como termina, muitos que não tiveram nenhuma experiência com amor ficam sem saber o que acontece dentro de um relacionamento amoroso. Eu também estaria com essa dúvida se eu não tivesse conhecido o alfabeto do amor, ou melhor, o namoro de Zelda e Andrew.

A para Z. Foto: Jessica Brooks/NBC

A para Z. Foto: Jessica Brooks/NBC

“A to Z”, traduzido para “A para Z”, é uma verdadeira aula de como é o cotidiano de um casal comum. Nele, conhecemos Andrew (Ben Feldman), um publicitário que cresceu acreditando no amor por causa do casamento de seus pais que durou até a morte de sua mãe. Por isso, ele trabalha em um site de namoro para ajudar as outras pessoas a achar o seu par ideal. Porém, o que ele não imaginava era que o destino decidiu brincar com ele assim como fez com os dois pessimistas de “Com quem será?”. Pois em um momento de tensão da sua empresa, ele conhece Zelda (Cristin Milioti), uma advogada que é o oposto em relação no que ele acredita. Por crescer em um ambiente desiquilibrado por causa da mãe, Zelda não é romântica e carrega opiniões mais racionais e realistas sobre a vida. Mas assim que ambos se cruzam em seus caminhos, ocorre o famoso “amor à primeira vista”.

Enquanto as crianças podem aprender o alfabeto com a Xuxa, os jovens sem experiência no amor podem aprender com o alfabeto de Andrew e Zelda. Com apenas 13 episódios de uma única temporada, os dois apresentam suas manias, desejos, loucuras, segredos e até mesmo seus defeitos durante o namoro de 8 meses. Nesse sentido, podemos ver as personificações reais de um homem e de uma mulher que vivem em um tempo moderno. Enquanto Andrew, por ser o homem da relação, esconde suas inseguranças para que isso não prejudique sua namorada e o relacionamento, como o fato dele ser agressivo quando é provocado por alguém ou até mesmo o seu pai ser desrespeitoso com a maioria das namoradas que ele já teve, Zelda é intensa no trabalho e no dia a dia, mas não gosta de ser ajudada ou acolhida para não se sentir indefesa, como no episódio em que um rapaz a insulta verbalmente e ela se defende antes mesmo de Andrew a protege-la. Para ela, o seu tipo ideal de um homem é alguém sensível como Andrew, mas esse não se sente confiante ao ver o que não tinha feito o que qualquer homem faria: cuidar de quem ama. Mas é claro, com muito diálogo e aprofundamento na conversa, os dois conseguiram ajudar um ao outro nessas questões: Zelda deixou ser salva pelo seu “príncipe encantado” e aprendeu que está tudo bem pedir ajuda e Andrew entendeu que o cuidado não está só em seus punhos, mas também nas suas palavras de conforto.

Logo, para entender o amor real, é preciso representá-lo de forma realista e compreensível. Nem todos nasceram sabendo o que é namorar e nem outros sabem o que fazer depois do fim. Mas a verdade é o que Frank disse, não exatamente o que ele diz, mas olhando sob outro ângulo, não é porque uma pessoa entre 6 bilhões de pessoas no mundo inteiro sabe o que é o amor porque presenciou todos os tipos de relação que as outras cinco bilhões, novecentos e noventa e nove milhões, novecentos e noventa e nove mil e novecentos e noventa e nove terão a mesma sensação. Assim como nem todas essas pessoas são ruins só porque uma quebrou suas expectativas. Para isso, como diziam os Titãs, é preciso saber viver. Principalmente o amor. Não o de cinema, mas o real.