“É só uma fase”: como o amor pela One Direction virou identidade e desafia o rótulo de ‘fã histérica’

“Todos querem roubar minha garota”, mas, na verdade, todas queriam ser ela. A frase que abre o refrão de Steal My Girl, single lançado pela boyband One Direction em 2014, capturava o delírio coletivo de milhões de jovens ao redor do mundo que sonhavam em ser mais que fãs: queriam ser vistas, reconhecidas, compreendidas por aqueles cinco meninos britânicos que, mesmo a quilômetros de distância, pareciam cantar diretamente para elas. Era bem mais que paixão adolescente, era uma identificação e um sentimento de pertencimento. O One Direction não foi apenas uma banda como qualquer uma nesse meio artístico, foi um fenômeno cultural que moldou a adolescência de uma geração inteira. Surgido em 2010 no palco de um programa de talentos, The X Factor UK (versão britânica do programa), o grupo parecia ter saído diretamente de um roteiro bem escrito: : cinco garotos tímidos, com talento bruto e um carisma latente, que se transformaram em superestrelas. Harry Styles (16), Niall Horan (16), Louis Tomlinson (18), Liam Payne (17) e Zayn Malik (17) participaram individualmente das audições do programa, mas foi a decisão dos jurados, e do produtor Simon Cowell, de reunir eles como banda, dando início a uma nova era da música pop.

Na época, o formato das boybands já era conhecido: grupos de jovens bonitos, carismáticos, com vozes afinadas e coreografias bem ensaiadas. Mas o One Direction veio na contramão dessa fórmula tradicional. Sem passos coreografados, sem roupas combinando, com uma estética mais despojada e natural. Essa autenticidade, combinada ao uso estratégico das redes sociais, criou uma ponte direta com o público. As fãs não apenas assistiam de longe, elas participavam, criavam, reagiam, viralizavam.

Durante seus cinco anos de atividade, entre 2010 e 2015, a banda lançou cinco álbuns: Up All Night (2011), Take Me Home (2012), Midnight Memories (2013), Four (2014) e Made in the A.M. (2015). Todos estrearam entre os dez mais vendidos nos Estados Unidos, e quatro deles chegaram diretamente ao primeiro lugar na Billboard 200. O álbum Midnight Memories, inclusive, foi o mais vendido de todo o mundo em 2013, provando que o sucesso do grupo não se limitava a um único país, era global.

Divulgação / Arquivo pessoal

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E, se engana, quem pensa que essa devoção adolescente é novidade. Em 1963, quando os Beatles fizeram sua primeira aparição na televisão britânica, o mundo testemunhou o nascimento oficial da Beatlemania. A histeria era palpável: gritos ensurdecedores, fãs desmaiando, um cenário tão caótico quanto fascinante. Era o início de um fenômeno que não apenas redefiniu a música pop, mas também colocou a juventude no centro das transformações culturais da década. Com um som novo, letras que falavam diretamente aos sentimentos dos jovens e um visual que quebrava padrões, John, Paul, George e Ringo não só dominavam as paradas musicais como também influenciavam comportamento, moda e atitude. O corte de cabelo típico dos Beatles, conhecido como “mop-top” ou “corte tigela”, por exemplo, nasceu de uma sugestão de uma fotógrafa alemã e virou símbolo de uma geração. A Beatlemania foi, acima de tudo, um retrato de uma juventude que começava a exigir espaço, representatividade e voz.

Décadas depois, com a internet já estabelecida como extensão da vida social, o One Direction surgiu em um contexto muito diferente, mas despertando sentimentos muito parecidos. Se antes os Beatles mal conseguiam ouvir sua própria música nos shows por conta do barulho do público, o One Direction era capaz de sentir em tempo real o impacto de seus lançamentos nas redes. Foi justamente essa força coletiva das fãs, potencializada por plataformas como Twitter e YouTube, que levou a boyband a bater recordes históricos, inclusive superando os próprios Beatles em número de estreias diretas no top 10 da Billboard. Quando Perfect entrou em décimo lugar logo na semana de estreia, o grupo britânico conquistava sua quinta entrada direta no top 10, ultrapassando os quatro feitos semelhantes dos Beatles. Assim, mesmo separados por cinco décadas e contextos sociais distintos, as duas bandas britânicas compartilham um mesmo legado: o poder arrebatador da juventude em transformar música em movimento.

E, é impossível, falar da ascensão do grupo sem mencionar o papel central das redes sociais nessa equação. O One Direction foi a primeira grande boyband da era digital. A conexão era direta, sem mediação de revistas ou programas de TV. Os integrantes faziam vídeos caseiros, interagiam com fãs, comentavam nas redes e isso gerava um sentimento de intimidade que potencializava ainda mais a devoção.

Esse vínculo emocional construído virtualmente ajudou a consolidar uma geração de fãs que, mais do que consumir música, viveu uma experiência transformadora. O amor pelo One Direction virou parte da identidade de muitas meninas e meninos mundo afora. Estava no jeito de se vestir, nas amizades formadas online, nos sonhos projetados sobre o futuro, inclusive, para muitos, foi o primeiro contato com o inglês, com o consumo de cultura internacional.

Mas para muitas fãs, como Gabriela Queiroz, de 25 anos, o amor pelo One Direction nunca foi “só uma fase”. Formada em odontologia e atualmente estudante de moda, ela conheceu a banda em 2012, às vésperas do lançamento do álbum Take Me Home, por influência de uma amiga da escola. Até então, Gabriela já era fã de ícones do pop como Lady Gaga, Ariana Grande, Selena Gomez e etc, mas foi com o One Direction que viveu o amor de fã por uma banda.

Divulgação / Arquivo pessoal

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“Ah, é só fase, dura enquanto é criança, adolescente… e de fato todo mundo passa por essa fase. Mas perpetuar isso até a vida adulta é um traço da minha personalidade que eu me orgulho bastante”, conta ela. A conexão com o grupo atravessou os anos e se entrelaçou com sua própria trajetória emocional, Gabi descreve como cada música da banda marcou um período da sua vida: “Quanto aos momentos tristes e felizes, eu tenho uma música do One Direction para cada um deles.”

A entrega era tamanha que ela relembrou de um episódio que, embora hoje renda boas risadas, foi extremamente marcante na época: aos 13 anos, ela montou uma espécie de “santuário” dedicado a eles em casa, com pôsteres, CDs, DVDs e fotos. Mas quando ficou de recuperação na escola, sua mãe decidiu que o castigo ideal não era tirar o celular ou cortar o acesso à internet, era algo mais certeiro.

“Ah, é só fase, dura enquanto é criança, adolescente… e de fato todo mundo passa por essa fase. Mas perpetuar isso até a vida adulta é um traço da minha personalidade que eu me orgulho bastante”, conta ela. A conexão com o grupo atravessou os anos e se entrelaçou com sua própria trajetória emocional, Gabi descreve como cada música da banda marcou um período da sua vida: “Quanto aos momentos tristes e felizes, eu tenho uma música do One Direction para cada um deles.”

A entrega era tamanha que ela relembrou de um episódio que, embora hoje renda boas risadas, foi extremamente marcante na época: aos 13 anos, ela montou uma espécie de “santuário” dedicado a eles em casa, com pôsteres, CDs, DVDs e fotos. Mas quando ficou de recuperação na escola, sua mãe decidiu que o castigo ideal não era tirar o celular ou cortar o acesso à internet, era algo mais certeiro.

Ela sabia que meu hiperfoco era neles, então, tirou tudo. Mandou eu arrancar os pôsteres da parede, guardar as fotos, e ainda pegou meu iPod para eu não ouvir mais as músicas. Foi o pior castigo da minha vida.” Enquanto guardava as coisas que a mãe pediu, ela colou uma foto da banda no teto do quarto e é um segredo que a mãe nunca descobriu, até hoje.

Divulgação / Arquivo pessoal

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Mas se o amor por uma banda já foi capaz de moldar identidades e influenciar escolhas de vida, por que ainda é tratado com condescendência quando parte das mulheres?

O fã homem, quando se dedica intensamente a algo, como o futebol, por exemplo, é admirado por sua lealdade. Já a mulher, quando chora num show, espera horas na fila ou usa roupas com frases de música, é vista como “sem noção”, “infantil” ou “histérica”. A mesma intensidade que desperta orgulho em um, vira motivo de piada em outra.

De 1993 a 2023, o Brasil já contabilizou 384 mortes ligadas ao confronto entre torcidas. Ainda assim, ser torcedor apaixonado segue sendo sinônimo de masculinidade e se tornou algo “normal” nas arquibancadas. Enquanto isso, o fanatismo feminino, que raramente resulta em violência, ainda precisa ser justificado, defendido, explicado.

“Tenho um amigo que vai para jogo balançar rede, ouvindo ameaça de morte, e isso é aceito. Mas se eu fico sete horas na fila, no sol, sem machucar ninguém, me dedicando a alguém, sou a problemática”, desabafa Gabi.

Essa desproporção na forma como o fanatismo é encarado tem nome: machismo estrutural. Ele não apenas define o que é “apropriado” para homens e mulheres, como também reforça os estereótipos que diminuem os sentimentos femininos. O termo “fã histérica”, que surgiu lá na época da Beatlemania e ainda é usado hoje, carrega uma carga de deslegitimação que não aparece quando falamos de homens em estádios, em mesas de bar discutindo escalações ou cole cionando camisas oficiais.

Estudos comprovam que a música e o envolvimento com a arte têm um impacto significativo na saúde mental, no fortalecimento da autoestima e na sensação de pertencimento social. A música, em particular, tem sido demonstrada como um fator importante para a redução do estresse, ansiedade e depressão, além de estimular a produção de neurotransmissores, responsáveis pela sensação de bem-estar. Em um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Neurodesenvolvimento (IBND), um grupo de pessoas com sintomas depressivos foi dividido em dois: aqueles submetidos à musicoterapia apresentaram uma melhora de cerca de 25% no quadro clínico

A psicóloga Vyctóriah Santana destaca que ser fã na adolescência vai muito além de uma fase passageira: “Aquilo era um ponto de apoio emocional em um período marcado por dúvidas, inseguranças e instabilidades hormonais”. A psicologia social ajuda a entender como esse sentimento de fazer parte de algo maior fortalece o bem-estar psíquico, enquanto os laços com outros fãs criam uma rede de apoio simbólica.

“Não tenho a menor vergonha de dizer que sou fã. Quando falam ‘ah, isso é coisa de criança’, estou nem aí. Meu orgulho é o amor que perpetuou e virou parte de mim, eu não seria quem sou hoje sem isso”, conclui Gabriela. Ser fã, para ela, não é uma fase passageira, mas uma estrutura emocional. Algo que cresceu com ela e que continua ali, firme, mesmo depois do fim.

Em 2015, a saída de Zayn Malik foi um abalo não só para a banda, mas para toda a base de fãs. A partir disso, o clima entre os integrantes e o ex-colega esfriou publicamente. Pouco depois, em 2016, o grupo anunciou um hiato, que com o passar dos anos e sem retorno oficial, consolidou-se como um fim.

A morte repentina de Liam Payne, em 2024, aos 31 anos, comoveu milhões de fãs ao redor do mundo. O cantor, que marcou uma geração inteira com sua voz e carisma, partiu deixando uma lacuna irreparável no coração daqueles que cresceram ao som de suas músicas. Em diversas cidades, fãs se reuniram para prestar homenagens, vídeos se espalharam pela internet mostrando multidões emocionadas cantando músicas da banda.

Mas apesar da perda, é impossível falar de Liam sem falar do que ele ajudou a construir. E o que ficou não foi apenas a discografia ou os prêmios, o que permaneceu foi o impacto afetivo e social, o One Direction foi, e ainda é, muito mais que uma banda. É memória viva de uma geração que aprendeu a amar, a se expressar e a encontrar força na música, um fenômeno que atravessou fronteiras, quebrou recordes e, acima de tudo, formou laços.

Por isso, não se trata de um fim. A história que eles escreveram juntos continua reverberando em cada lembrança, em cada verso. E é como eles cantam em uma das músicas mais queridas da banda: “This is not the end.” (Este não é o fim). Porque, no fim das contas, “You and me got a whole lot of history.” (Você e eu temos muita história).