Antes das oito, ele já está coando o café e fazendo o ovo frito de todas as manhãs. A música sempre acompanha suas tarefas e o som sai de um JBL que ganhou de presente de Natal. A playlist varia entre: Jorge e Mateus, Taylor Swift, BTS, Elis Regina, Twenty One Pilots, Chico Buarque, Michael Jackson até bregas eternizados por Reginaldo Rossi. Mas uma música em especial não pode faltar: Drag Me Down, do One Direction.
Enquanto mexe o café, fica cantarolando, sem se preocupar com a pronúncia exata do inglês. O refrão, esse sim, sai firme, (“Nobody can drag me down”). O ritmo combina com sua disposição, e a música parece carregar um significado que vai além da melodia. Sempre que escuta canções, há um brilho nos olhos — às vezes, até um sorrisinho discreto, talvez lembrando de algo especial.
A batida ecoa pelo apartamento de Desmostenes Ferreira de Moraes, na Zona Sul do Recife, quem passa pelo corredor do quinto andar talvez imagine alguém revivendo alguns sucessos pops, mas ali vive Seu Moraes, um senhor de 74 anos, careca, de bigode e óculos, que fala com o sotaque nordestino de quem já mora no Recife há mais de 40 anos, mas nasceu no Rio de Janeiro.
Ele não faz parte da geração que cresceu acompanhando os cinco meninos revelados pelo reality show The X Factor, mas, encontrou neles um tipo de conforto. History, sua música preferida da banda, o transporta para as memórias do que já viveu e das que ainda estão por vir.
Mas nem todos entendem essa relação com a música. Dona Lúcia, 73, sua esposa há mais de 50 anos, nunca entendeu essa mania do marido de colocar uma trilha sonora para tudo: lavar a louça, organizar a papelada ou simplesmente deixar o tempo passar. Para ela, música é ruído, é distração, algo que deveria ter hora de acontecer e momentos de escutar. “Abaixa esse som, Moraes!”, reclama, mesmo quando o volume está baixo. Seu Moraes, que nunca gostou de embates, apenas suspira, desliga o som e segue com suas tarefas.
Certa vez, tentou argumentar. Ela, reclamava do sertanejo que tocava na caixa de som. Ele, com a calma de quem já viveu décadas ao lado da mesma pessoa, resolveu tentar uma última vez. “Escuta essa letra, Lúcia. É sobre alguém que errou, mas que ainda tem esperança.” Mas a esposa sequer deixou que ele terminasse. Revirou os olhos, disse que “essas músicas são tudo a mesma coisa”. Ele suspirou, baixou o volume e não insistiu mais. Não porque concordasse com ela, mas porque sabia que, por experiência, certas conversas não levam a lugar nenhum – e que algumas coisas a gente aprende a guardar só para gente e que para alguns, música é só música. E para outros, é algo que não se explica.
Mas nem todos na casa acham que música é só barulho. As netas de Seu Moraes entendem exatamente o que ele sente. Foram e são muitos os momentos no carro, em que bastava um olhar pelo retrovisor, uma batida de mão no volante no ritmo da música ou um simples suspiro no refrão para que soubessem: ali morava um sentimento que palavras não diziam.
A primogênita, que sempre teve o avô como referência, cresceu ouvindo suas playlists gravadas no pendrive e muito do seu gosto musical vem dele. Foi ela quem apresentou ao avô as músicas da sua geração. Mostrou boybands, artistas novos e estilos diferentes. E ele, com curiosidade e carinho, mergulhou nesse universo. A neta ouvia aquelas músicas com o mesmo brilho nos olhos que ele tinha ao escutar os Beatles pela primeira vez.
Ele sempre diz a ela “Nós nos conhecemos de outra vida, minha filha”. Ele acreditava que havia algo maior, invisível, ligando os dois e a música selou esse pacto silencioso, e foi com ela que vieram conversas, confissões, lágrimas e gargalhadas. A neta dizia que herdou o gosto musical do avô. Mas Seu Moraes sabia que foi ele quem recebeu um presente, como se, em vez de deixar um legado, tivesse ganhado um. Uma herança ao contrário, que chegou como afeto, e ficou como abrigo.
A segunda neta, trouxe algo desconhecido para ele. Um universo inteiro vindo do outro lado do mundo: a Coreia. Músicas que, à primeira escuta, ele não entendia. Mas, de novo, bastaram poucos segundos para sentir — e isso era o que importava. BTS, EXO, Stray Kids… os nomes eram novos, mas o efeito era o mesmo: emoção.
Ela o ensinou a escutar com o coração. Juntos, riam das tentativas de cantar em coreano, mas ele já não se preocupava mais com a pronúncia. O que valia era o brilho nos olhos das duas netas quando eles entravam no carro e o play era uma música que os três adoravam. Alguns poderiam achar loucura se emocionar com uma canção coreana sem entender uma única palavra. Mas Seu Moraes sabia — e suas netas também — que a melodia fala primeiro com a pele, depois com o coração. E quando o arrepio vinha, era como se aquela canção o reconhecesse por dentro. Ele chorava, às vezes em silêncio, às vezes deixando a lágrima cair. Porque, mesmo sem entender a letra, ele era entendido. E era isso que importava, e suas netas estavam ali, sentindo tudo com ele. Porque conexão não precisa de tradução.
No futuro, quando as lembranças forem se acomodando no tempo feito livros numa estante, Seu Moraes vai carregar essas cenas como páginas queridas: as risadas na sala, o brilho nos olhos das netas ao mostrarem uma nova música. Serão memórias de amor, não só pelo que ouviam, mas porque estavam ouvindo juntos. Porque, no fim, é disso que se faz a vida: daquilo que emociona, daquilo que permanece. E a música, para ele, é uma trilha sonora de um amor que nem o tempo vai apagar.
Graças a elas, Dona Lúcia — mesmo resistente — às vezes se rendia e se via cantarolando no carro. Não por obrigação, mas por contágio. Era impossível resistir à animação das netas, e aqueles momentos se tornaram pequenos “rituais de família”. Uma ida para comprar um simples galeto de domingo virava motivo de alegria, porque sabiam que, na ida e na volta — por mais que levasse apenas 15 minutos — eles poderiam ouvir pelo menos cinco músicas e, com isso, construir memórias que, no futuro, seriam lembradas com aquele nó doce na garganta.
Seu Moraes sabe que esses instantes são ouro. Porque com o tempo, a gente percebe que memórias não têm cheiro, não têm gosto… mas têm trilha sonora.
Moraes uma vez disse a sua primeira neta: “Minha filha, música não é só melodia, não é algo que se mede pelo tempo de reprodução ou pelo volume em que toca. É sentimento. É companhia nos dias difíceis, abrigo nas horas inquietas”. Seu Moraes sente isso na pele. Mas sabe que quem não sente, não entende.
