Estima-se que só em 2025, os aplicativos de relacionamento continuaram crescendo mais do que o dobro (que já era uma expansão inédita) dos anos anteriores, 2023 e 2024. No mundo todo, o número de downloads de aplicativos de namoro e chats de bate-papo chegou a 287 milhões, com Tinder, Bumble e Badoo no topo do ranking global de popularidade.

No Brasil, o uso é ainda mais intenso: a pesquisa feita pelo site Panorama Mobile Time, que pesquisa dados sobre uso de celulares, em abril de 2025, descobriu-se que 66 % dos internautas do país que possuem aparelhos celulares já experimentaram pelo menos um aplicativo de paquera.

A quantidade de usuários, porém, diz apenas parte da história do porquê deste fenômeno global. Informações internas divulgadas em relatórios pelo Tinder, Bumble e Hinge reunidos pelo veículo do Jornal CNN Brasil, revelam cinco tendências comportamentais que estão redesenhando a estratégia de matches dentro dos aplicativos: Primeiro, a lógica “vibe over looks”, ou seja: testar a compatibilidade de valores e interesses superando o critério puramente estético, visual dos usuários; favorecendo filtros de hobbies muito específicos (como frequentar determinado bairro nos sábados) e comunidades nichadas, como nerds e amantes de animes, que tendem a reduzir o desgaste do swipe (movimento que sinaliza se você deu match, uma combinação com uma pessoa no aplicativo).

Outra importante constatação destes aplicativos é que, os encontros sustentáveis e de baixo custo aumentaram; como encontros em cafés de bairro ou passeios em parque, substituindo os antigos jantares elaborados, que costumavam ser o cenário mais comum entre pessoas que se encontram após se conhecerem online. Um em cada três brasileiros afirma preferir primeiros encontros que dispensem carro ou transporte poluente, segundo o relatório.

Além disso, foi observado o aumento da “etiqueta da vulnerabilidade”: perfis que mencionam saúde mental ou terapia recebem mais curtidas, sinalizando maturidade emocional. Por fim, multiplicam-se as formas híbridas de vínculo — termos como monogamish e situationship (meio monogâmico e situação de namoro indefinida) aparecem muito mais nas biografias dos perfis, indicando relacionamentos menos rígidos entre namoro sério e casual. Por fim, há um forte “retorno ao presencial”.

Após a pandemia do Covid-19, depois de dois anos em que as videochamadas dominaram o primeiro contato, eventos ao vivo promovidos pelos próprios aplicativos – sejam festas temáticas a oficinas de culinária; registram participação 60% maior no Brasil em comparação com o ano de 2023, indicando maior vontade de socializar ao vivo, mesmo em cenários que também constam com presença online.

Em síntese, os dados de 2025 apontam para um cenário em que quantidade de matches importam menos do que a qualidade das conexões. Para quem desliza à procura de companhia, a mensagem é clara: perfis genéricos tendem a desaparecer na massa, enquanto autenticidade, causas específicas e usuários a disposição para encontros rápidos, porém reais, são hoje a melhor opção para transformar um simples swipe em relacionamento.

Foi por meio do aplicativo Tinder, que Gabriela e Rubens se conheceram em 2015, quando começaram a namorar e se casaram três anos depois, em 2018.

Gabriela Azevedo Couceiro tem 34 anos, é formada em medicina, servidora pública e atua na área de medicina de família e comunidade em Joinville, Santa Catarina. Rubens Rosário Fernandes tem 34 anos, é curitibano, engenheiro mecânico e analista de laboratório no grupo BMW, em Joinville. Ao final desta reportagem às 00:26, receberam Rafael, primeiro bebê do casal, com 3,125 kg, no dia 5 de maio de 2025. (Bem-vindo, Rafinha!)

Segundo a pesquisa divulgada da Panorama Mobile Time, o aplicativo de relacionamento Happn apresenta 75% de usuários que acreditam nos valores ecológicos comuns, como cuidado com o meio ambiente e preocupação com a crise climática, sendo de extrema importância em um parceiro. Outra característica destacada pelo relatório é que 29% dos jovens brasileiros (16 a 29 anos) já se encontraram pessoalmente com pessoas que conheceram em aplicativos. A faixa etária de 30 a 49 anos, porém é menor, com 25%, e acima de 50 anos, apenas 14%. Alguns especialistas como o psiquiatra israelense Ilan Rabinovich, acreditam que isto pode ser explicado pelo número da idade: já que vítimas de golpes online tem 50 anos ou mais: usuários mais velhos, apresentam melhor estabilidade financeira e carreira já consolidada.

Um dos casos mais famosos no mundo sobre golpes de aplicativos é o do ‘Golpista do Tinder’, Simon Leviev, um israelense que enganou cerca de 40 a 50 mulheres (investigação da polícia dar indícios de que esse número possa ser ainda maior) em mais de 20 países, gerando um prejuízo de mais de 10 milhões de dólares para as mulheres lesadas. Este caso virou um ‘fenômeno’ em descoberta de golpes no mundo, até virando documentário em 2022 pelo streaming Netflix.

Entre os entrevistados, Igor Vilela, advogado de 37 anos, a plataforma é mais para ‘casos extraconjugais e passar o tédio’ do que a procura legítima do amor: “acho que tudo começa com uma boa conversa, mas muitas vezes tem gente que vem aqui só para inflar o ego. Tem várias meninas que deram match comigo e nem conversam, só querem passar o Instagram e ganhar curtidas.

Outra vez, saí com uma mulher e ela me falou no encontro que era casada, mas estava pensando em trair o marido comigo. Acabamos ficando e transando, mas me senti meio bosta, sabe?’’. Apesar desta ocasião, Igor afirma que continuou usando o Bumble.

Um dos novos aplicativos fazendo sucesso no Brasil após viralizar no Tik Tok (douyin, em chinês) é o Tantan, popular entre vários países da ásia. Em entrevista com Jackie Shenyang (conhecido como Chao no Tantan), Personal Trainer de Tianjin, China Continental, 27 anos, ‘o app é um ótimo lugar para praticar línguas estrangeiras e fazer amigos internacionais’.

Estudante de inglês na universidade, Jackie explica que falar com estrangeiras ajuda na fluência: “Algumas meninas que conheci no app até estão estudando mandarim! O que é legal, pois trocamos dicas de aprendizado. Apesar da minha cidade ser moderna, recebe poucos turistas, então é difícil ter com quem conversar. Tenho amigos de Hong Kong que falam inglês, mas o sotaque cantonês é muito forte’’.

Também existem pessoas que não usariam aplicativos de namoro de jeito nenhum, como a engenheira de segurança do trabalho, Luísa Rocha. A recifense de 36 anos diz que “jamais recorreria a isso’’. Ela segue: ‘’Aplicativos de relacionamento parecem ‘açougues’. Mesmo as pessoas que escrevem algo na biografia do perfil, na real, só ligam para aparência física e fotogenia de quem gostaram. Os homens não arriscam mais levar um fora pessoalmente, só pela Internet. Perdeu a naturalidade da conquista”, afirma Luísa.

Para a psicóloga e influencer Pâmela Magalhães, “quem usa apps de relacionamento tende a se sentir descartável”. A profissional explica que quando as pessoas começam a usar aplicativos de namoro, elas sempre têm a ilusão de que irão encontrar ‘alguém melhor’, ou seja, uma pessoa idealizada por ela através das fotos, postagens e filtros que as pessoas ‘modelam’ para parecer ter uma vida plena, ao invés de focarem em conversas legais e coisas em comum com outras do app.

Com o aplicativo nacional Achei, lançado em fevereiro de 2025, o fenômeno dos apps de namoro só para cristãos ganha um novo nicho no Brasil, com criação de mais dois ainda não nomeados, que serão lançados no final de 2025. O aplicativo foi divulgado pelas redes do polêmico pastor/cantor André Valadão, líder do ex-grupo gospel Diante do Trono, vencedor do Grammy Latino de 2012 por ‘Melhor álbum de música Cristã’. Influenciado pelo famoso app popular americano ‘Christian Mingle’, seguindo a tendência mundial. Estima-se até 2026, os evangélicos serão mais de 35% no país.

Para Juliano Otávio Moura, farmacêutico paulistano de 29 anos, novo no Achei, lá tem grande potencial de ser o local perfeito para conhecer alguém especial: “Eu

estou em mais de um software para conhecer pessoas. Como trabalho como pesquisador, geralmente fico em home office e não na empresa. Fica mais difícil namorar. Sendo evangélico, não frequento muito espaços como baladas e bares, então para flertar é mais rápido por lá”, confessa.

Além dos apps nacionais cristãos Achei e Divino Amor, existem vários outros específicos para religiosos no mundo: Namoro Espírita; Mutual, para mórmons, Jswipe, judeus, Muzmatch, para muçulmanos. Entre estes últimos, apenas o Namoro Espírita e Jswipe estão disponíveis no Brasil.

A influência crescente deles demonstra que amar ainda é possível, mesmo na nova era tecnológica. No fim das contas, não interessará onde encontramos o amor da nossa vida, na academia, numa fila de supermercado ou em um simples deslizar de dedos sobre a tela.