Em tempos antigos, como na época dos meus falecidos avós, o flerte mais passional e quente possível era mandar mensagens através de cartas escritas a mão para os interesses amorosos. Estas podiam ser românticas, frívolas, dramáticas, não interessa, a espera era sempre a parte mais empolgante. Já nos tempos ainda mais antigos, da época dos meus bisavôs paternos, em 1990, quando o mundo vivia a transformação do último ano do século XIX, era da Revolução Industrial, os cortejos ‘cara-a-cara', eram ainda mais difíceis de acontecer. Era bastante comum que as mulheres conhecessem o futuro parceiro dentro da missa, trocando uma palavra ou olhar com algum rapaz e… pronto! A mãe ou pai da moça o convidavam para jantar na casa deles. O casal conversava no sofá após o almoço (com a mãe da mocinha sentada no meio do casal, inclusive!), o pai analisava o pobre coitado do possível genro dos pés à cabeça, enquanto fumava charuto do outro lado da sala. Em poucas semanas a mocinha já estava noiva. Acredite. Parece engraçado, mas era assim mesmo que acontecia.
Quando lembro destas histórias românticas que minhas antepassadas contavam para mim e minhas primas é que percebo como o avanço da tecnologia fez com que tudo ficasse mais rápido, apressado, mas também cômodo. Os tempos são outros. Estamos eternamente conectados. Nossos aparelhos eletrônicos estão integrados na nossa vida de uma forma que são extensões de nós. Somos quase versões reais do Homem de Ferro. Com nossos smartphones nas nossas mãos, organizamos nossa rotina, ouvimos música, pagamos contas, abrimos catracas com QR code, trabalhamos, gravamos vídeos, áudios, nos expressamos. Vivemos.
Os aplicativos de relacionamento facilmente baixados pelos nossos dispositivos móveis, ainda que á distância, contam com um enorme ‘cardápio’ de fotos: Aparecem na nossa tela em segundos, de acordo com as coordenadas e endereço, e a gente só torce para que o ‘chef’ também queira o nosso prato principal! Às vezes a quentinha pode até vir depois de 5 minutos em um Uber Black para te encontrar. Não é que encontrar o amor tenha ficado fácil demais. Encontrar pessoas, talvez sim, mas o amor continua sendo o sentimento mais presente, o mais buscado e o mais difícil de lidar.
É o amor, mesmo após tantos períodos históricos, que explica as relações humanas. Segundo Aristófanes, famoso dramaturgo da Comédia Grega, os seres humanos eram esferas de quatro braços e quatro pernas. Os deuses gregos nos cortaram para que estivéssemos sempre separados. Ou seja, cada um de nós é metade de um ser humano completo, por isso estamos sempre à procura da nossa ‘outra metade’, só o amor nos completa. Claro, nem todas as pessoas acreditam nisso e é totalmente aceitável ser uma pessoa independente e que não precisa de outra para se sentir ‘validada’. Mas não é bem mais gostoso estar acompanhada? Eu acredito nisso. Pois foi assim que me senti quando conheci o Brandon, meu ex-noivo, após conversarmos pelo Tinder de Nova York em 2013.
Quase sempre, uma vez por ano, eu viajava para fora do Brasil perto de dezembro e janeiro para aproveitar as minhas férias como uma boa brasileira: Turistando, indo no Moma, no Met, Guggenheim entre outros museus de arte moderna, fazendo comprinhas necessárias (também conhecidas como lotar a mala de maquiagem aos montes depois de visitar a Sephora americana), visitando restaurantes descolados, minhas maneiras preferidas de conhecer os locais para onde eu viajo.
Uma das noites, me arrumando no hotel, resolvi baixar o app e ver como era a versão estadunidense. Deslizei o dedo algumas vezes e lá estava ele. Além das fotos, amei a descrição que ele colocou. O perfil dele era irônico, com a frase ‘se acabarmos casando porque nos encontramos por aqui, vamos ter que inventar outra história de como nos conhecemos para nossas famílias’. Engraçadinho. Gostei.
Americano, filho de uma chinesa nascida em Hong Kong e pai taiwanês, Brandon era linguista e falava cantonês e mandarim além do inglês, pois trabalhava como intérprete corporativo para um banco chinês em Manhattan.
Seguimos do aplicativo nos falando pela rede social mais usada no momento, o Instagram, e por lá conversamos por vários meses. Eu sempre fui meio medrosa e como boa telespectadora de filmes de suspense, não me encontrei com ele durante a viagem porque tinha medo de ele ser um psicopata (isso ainda é muito válido, gente! Conheçam a pessoa por um tempo ou vão acompanhadas de algum amigo no primeiro encontro).
Após meses e meses de interações longas e diárias pelo Whatsapp e ligações internacionais, ele veio ao Recife me conhecer. Quando eu o vi pessoalmente no aeroporto, fiquei pasma em como ele era alto, pois tinha 1,93 metros, bonito, bem-vestido e tinha olhos tão lindos! Sempre achei rapazes asiáticos charmosos (Segundo minha mãe, aos seis anos de idade eu disse para ela que casaria com um homem de olhos puxados), mas o que mais me deixou derretida por ele foi que ele me olhava como o Justin Timberlake olhava a Alessandra Ambrósio naquele desfile da Victoria’s Secret em 2006. Pegou a referência?
Okay, ele também já estava tão apaixonadinho quanto eu. Depois de mais um ano e meio ficamos noivos. Passamos vários anos juntos, até acabarmos e foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos: Culturalmente, afetivamente, e até existencialmente. Cada relacionamento ensina algo para nós. Descobri novas maneiras de sentir, amar, e até de sofrer – terminar um relacionamento, mas isso é algo que todos passamos/passaremos.
Desde 2018, não namorei ‘sério’ novamente. Já experimentei entrar em apps algumas vezes, mas acabei um pouco desestimulada pelo número de OVNIs não requisitados enviados por caras desconhecidos (OVNI: Objeto fálico virtual de um narcisista inconveniente). É algo como quando o seu cachorro traz na boca uma barata ou lagartixa morta para entregar para você de presente – sei que você se orgulha disso, totó, mas não quero tocar nele! – Mas ainda acredito que exista amor em aplicativos de relacionamento. Inclusive, atestei isso pelas conversas e personagens que entrevistei para as matérias.
Uma das coisas que percebo é que não interessa o local que conhecemos alguém, todos queremos a mesma coisa. Queremos amor. Queremos nos sentir lindos, amados, recompensados, felizes em nossa profissão e encontrar nosso lugar no mundo. Quando o amor chegar novamente, estarei aqui. E assim como a icônica frase de Oscar Wilde: ‘Quem vive mais de um amor vive mais de uma vida’.
