Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que só em 2022, pelo menos 62% de pessoas com mais de 60 anos utilizam a internet. O que revela um aumento de pelo menos 24% de 2016 até agora, ano em que os idosos não usavam amplamente os meios digitais. Pessoas mais velhas, até então, não costumavam usar redes sociais além do Facebook e Whatsapp, ou não se interessavam por elas tanto assim.

Em 2020, após o forte aumento dos apps de namoro por conta do isolamento social da pandemia do covid-19, a presença significativa de senhoras e senhores em aplicativos para smartphone triplicou.

Quando falamos sobre aplicativos de relacionamento, o aplicativo Happn divulgou que 1 em cada 3 idosos no Brasil já fez uso do app, ao menos 1 vez na vida. Os usuários +60 não são maioria no Happn, mas somente entre a terceira idade, já foram mais de 4 milhões de curtidas em só um ano.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2019 cerca de 2,9 milhões de brasileiros acima dos 18 anos se identificavam como homossexuais, bissexuais, transgêneros ou demais identidades incluídas no espectro da diversidade queer. Com a evolução tecnológica junto à popularização dos apps de namoro, o público idoso Lgbtqia+ passou a explorar novas alternativas para se divertir, flertar e buscar novas companhias.

O lançamento de aplicativos para a categoria, como Daddyhunt, para homens gays mais velhos e admiradores; SilverSingles (que apesar de não ser exclusivamente gay, tem como maioria o público não-heterossexual) para usuários acima de 50 anos; Her, destinado a mulheres lésbicas e bissexuais; Lex, para mulheres lésbicas cisgênero (que se identificam com o gênero que foi atribuído a ela quando nasceu) não-binárias e queer; assim como os populares Grindr e Scruff , conhecidos como as versões gay do Tinder, entre outros.

Para Júlio Oliveira, 61 anos, ex-gerente de operações aposentado e usuário do Tinder e Grindr, é preciso cautela em todas as interações virtuais: “Tem vários perfis fakes e só com uma foto ‘perfeita demais’. Quem não tem saúde emocional, cai fácil. Homens solitários, divorciados, que ainda estão ‘dentro do armário’, ou até com muito tempo nas mãos…Como acabei namoro recentemente (ele namorava desde 2013 e terminou com o ex-parceiro em 2024), sou novo nos aplicativos. Já tinha ouvido falar, mas não tinha entrado ainda. Em comparação ao Tinder, o Grindr é exclusivo para homens gays, bissexuais e outros, por isso é bem mais diverso, em quantidade. Mesmo sendo geralmente mais popular, tem poucas pessoas da minha idade no Tinder.”

Ele explica que ainda prefere conhecer parceiros ou interesses amorosos pessoalmente, sem apps, mas que não achou a experiência negativa. “Uma coisa que percebi é que lá tem publicidade e advertências sobre sexo seguro, camisinha e ter cuidado com quem vai se encontrar ou não. Também no próprio chat eles enviam alertar sobre não fazer transações bancárias. Foi o único app que já vi falando sobre isso.” Questionado sobre o porquê de preferir conhecer homens presencialmente, Júlio explica: “Na minha época de jovem, nós gays nos conhecíamos por amigos em comum, ou namorávamos ex-namorados de ex-namorados! Fica mias fácil ter algo casualmente quando estou cara a cara com algúem.” Brinca.

Júlio também descreveu uma das interações mais engraçadas que aconteceram no app: “Sempre tem um cara que chega nas mensagens dizendo: Estou só conhecendo o aplicativo, não sou gay. Eu tenho namorada. Cliquei sem querer! Para cima de moi? Já sou vivido, meu amor”, fala enquanto gargalha, enquanto mostrava os prints das fotos dos perfis dos homens que mais o divertiram.

Ele continuou retratando detalhes sobre sua juventude: “Em 1980, flertávamos em bares ‘GLS’ e saunas. Nas saunas era algo mais ‘casual’, mas já vi amigos que se casaram com parceiros que conheceram em saunas. Boates como a Metrópole e com shows de drag já existiam aqui, mas era mais comum em cidades como São Paulo e Rio. Já hoje, Recife é bem mais progressista do que antes, tem mais inclusão, então não fica difícil encontrar paqueras em qualquer local que você vai, como bar, restaurante etc. Não sei se o ódio a gays está diminuindo, ou se as pessoas estão ‘mais tolerantes’. Nos meus vinte anos, era tudo ainda meio escondido.”

Perguntado sobre se ele consideraria sair para um encontro com algum usuário que conheceu, ele destaca: “Dei match com alguns interessantes. Não que eu ache que algo sério vá sair de lá, mas eles eram bonitões, sarados; já os muito mais jovens, como os de 20 e poucos anos, só tiram fotos em espelho da academia. Conversei com alguns, mas o português deles, nossa! As fotos podiam até dar tesão, mas a conversa desanimava muito. Ri.

Outro detalhe que Júlio adicionou é que é lotado de boys, gíria para rapazes que fazem sexo por dinheiro: “Nada contra quem gosta de ser ‘sugar baby’. já tive a mesma idade. Já que eu era mais afeminado, quase sempre me relacionava com homens mais velhos, mas alguns rapazes só de olhar já notamos que são michês. Alguns colocam ‘GP’ na bio. Outros tentam ‘fazer a educada’ só para te oferecer o programa após conversarem mais. Por enquanto, estou na fase de preferir ficar solteiro. Se eu quisesse arrumar um parceiro, teria que procurar mais! Isso por um lado é ruim para homens mais velhos que realmente querem encontrar alguém, que querem paquerar, porque homem é mais físico, nosso desejo é imediato, o que dificulta conexões mais sensíveis.”

Como Júlio mencionou, o Grindr é chamado por muitos de app da ‘Uberização’ da prostituição masculina. O termo é usado para descrever um trabalho informal, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas, como acontece com motoristas de Uber. Logo, neste caso, refere-se a uberização de trabalhadores sexuais no Grindr. Não é incomum que aplicativos de namoro em geral sejam um dos locais para ofertas de serviços do tipo, mas a plataformização ilegal de serviços e códigos popularizadas pelos membros facilitaram para que viralizassem notícias sobre acontecimentos, tal qual golpes, violência física, pela falsa sensação de proteção por estarem online, ao invés das ruas e extorsão.

Em 2023, o Ministério Público de Portugal foi acionado quando um deputado municipal, Nuno Pardal, pagou por ‘relações íntimas’ com um adolescente de 15 anos através do aplicativo, após os pais do garoto descobrirem mensagens do filho entre o político. Por conta dessa polêmica, o Grindr, lançado em 2009, foi obrigado a implementar medidas mais severas para verificação de dados, como verificação de idade, leitura facial, cookies de proteção, fiscalização de documentos oficiais e exclusão de membros ‘suspeitos’.

Os perigos cibernéticos existem, mas ainda assim, apesar dos riscos, da homofobia, eles continuarão resistindo. Mesmo após terem que amar em segredo, enterrar amigos, tentarem ser calados, eles continuarão conectando-se, vivendo. A liberdade de poder ir e vir, de entrar em um app… envelhecer sendo Lgbtqia+ é história. Estes senhores e senhoras de idade avançada não são o passado. Eles fizeram o futuro.