{"id":179,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-2"},"modified":"2026-04-24T11:58:50","modified_gmt":"2026-04-24T14:58:50","slug":"politicas-antimigratorias-e-brigadeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=179","title":{"rendered":"Pol\u00edticas antimigrat\u00f3rias e brigadeiro"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Em meio \u00e0 onda conservadora global, imigrantes brasileiros usam a saudade de casa como ref\u00fagio<\/strong><\/h2>\n<p>\u201cO mundo vai acabar em 2025, mainha?\u201d, foi o que escutei de uma crian\u00e7a em uma parada de \u00f4nibus perto da minha casa. Bom, com a temperatura m\u00e9dia global subindo 0,71\u00b0 graus c\u00e9lsius por ano e guerras acontecendo, simultaneamente, nos quatro hemisf\u00e9rios, \u00e9 bem capaz. E \u00e9 nesse climinha de colapso mundial, que o amor tamb\u00e9m parece estar fora de moda. No seu lugar, a prolifera\u00e7\u00e3o dos ismos como uma peste: o conservadorismo, o liberalismo, o fundamentalismo, o fascismo e o populismo.<\/p>\n<p>Um estudo feito com mais de 300 mil pessoas, pela ag\u00eancia internacional Glocalities em vinte pa\u00edses incluindo o Brasil, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que o crescimento de partidos radicais de direita \u2013 muitos deles, fortes defensores de alguns dos ismos citados &#8211; est\u00e1 ligado a sentimentos como desesperan\u00e7a, frustra\u00e7\u00e3o social e rejei\u00e7\u00e3o aos valores cosmopolitas.<\/p>\n<p>Na Europa, partidos de direita radical como o Vox (Espanha) e o AfD (Alemanha), tiveram um forte aumento entre jovens. Nos Estados Unidos, a extrema-direita voltou ao poder com a vit\u00f3ria expressiva de Donald Trump, derrotando a candidata democrata Kamala Harris com uma diferen\u00e7a de mais cem col\u00e9gios eleitorais e de dois milh\u00f5es de votos. Tudo isso nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>E veja que contradi\u00e7\u00e3o: \u00e9 neste mar de f\u00faria que buscamos, justamente, as hist\u00f3rias de amor. Hist\u00f3rias que pulsam alguma vida em meio ao caos, onde a saudade de casa se transforma em combust\u00edvel para se manter resiliente em terras t\u00e3o in\u00f3spitas. A uni\u00e3o das brasileiras Joana* e *Fernanda* \u00e9 uma dessas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Em 2022, Joana passou em uma bolsa integral de pesquisa em biomedicina na Universidade de Kentucky, localizado na regi\u00e3o sudeste dos Estados Unidos. Trocar a capital pernambucana por uma pequena cidade estadunidense cuja economia sobrevive da venda de cavalos e Bourbon, e \u00e9 profundamente marcada por valores conservadores e pela presen\u00e7a ostensiva de armas, foi um choque cultural para Joana. \u201cO modo como eles interagem entre si \u00e9 muito diferente. Como eu trabalho dentro da universidade, as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito profissionais e distantes.\u201d, conta. \u201cNo Brasil a gente costuma fazer amizades dentro do trabalho e se abrir mais sobre a vida pessoal. No in\u00edcio n\u00e3o foi bem f\u00e1cil conseguir fazer amigos. As pessoas aqui s\u00e3o bem diferentes nesse sentido.\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>E os n\u00fameros atestam isso: uma pesquisa feita pela Intercultural Insights British Council, em 2014, mostrou que entre brasileiros que vivem no exterior, os EUA s\u00e3o um dos pa\u00edses onde as pessoas mais relatam dificuldades em fazer amizades e se sentir acolhidas fora do ambiente familiar. Joana sentiu na pele.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m lembra de uma outra experi\u00eancia marcante, logo quando chegou na cidade. Em uma das primeiras visitas ao Walmart (rede de supermercados), se deparou com um homem circulando pelos corredores com uma pistola presa ao coldre, exibida com orgulho na cintura, como algo natural.<\/p>\n<p>Nem ela, e nem Fernanda, com quem \u00e9 casada, esperavam a vit\u00f3ria de Trump. Pelo menos n\u00e3o da forma que foi, t\u00e3o significativa. A viv\u00eancia de Joana na bolha acad\u00eamico a levou a acreditar em uma poss\u00edvel vit\u00f3ria da candidata Kamala Harris. Com a demora da apura\u00e7\u00e3o dos votos impressos, a expectativa e a esperan\u00e7a foram diminuindo, e quando o resultado veio, foi o estado do Kentucky um dos primeiros a ficar coberto pelo vermelho republicano.<\/p>\n<p>A universidade que Joana estuda logo iniciou um processo de di\u00e1logo com os estudantes internacionais. Com a vit\u00f3ria de Trump, come\u00e7aram a fazer recomenda\u00e7\u00f5es orientando-os a n\u00e3o sair de casa sem suas documenta\u00e7\u00f5es em m\u00e3os (passaportes, carteirinhas da faculdade). A Pol\u00edcia de Imigra\u00e7\u00e3o e Alfandega dos Estados Unidos (ICE), come\u00e7ava, ali, a circular com mais frequ\u00eancia e de forma muito mais agressiva.<\/p>\n<p>Recentemente uma outra brasileira foi cercada em Worcester, no estado de Massachusetts, por esses agentes. V\u00eddeos do momento mostram ela sendo jogada no ch\u00e3o. As imagens foram divulgadas nas redes sociais e causaram protestos e mobiliza\u00e7\u00e3o por parte de autoridades brasileiras. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que cenas como essas acontecem e n\u00e3o est\u00e1 nem perto de serem \u00e0s \u00faltimas. Trump anunciou em 2025 medidas extremas contra os imigrantes. Puni\u00e7\u00f5es que incluem &#8220;deporta\u00e7\u00e3o imediata em local e forma definidos exclusivamente a nosso crit\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>Mas com essa realidade, por vezes insuport\u00e1vel, estar alheio a determinadas situa\u00e7\u00f5es faz com que o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sinta aquilo que os olhos veem, tornando os dias pelo menos um pouco mais f\u00e1ceis. Foi o que Joana e Fernanda fizeram. Tr\u00eas vezes por semana, elas costumam ligar para suas fam\u00edlias por v\u00eddeo. Tamb\u00e9m tentam manter a mesma alimenta\u00e7\u00e3o que tinham no Brasil, sempre que poss\u00edvel, cozinhando comidas t\u00edpicas, afetivas, que as transportam para vida que tinham antes de migrarem.<\/p>\n<p>Apesar de terem desenvolvido esses m\u00e9todos para lidar com a saudade, os momentos de dor nunca deixaram de existir. \u201cSinto bastante saudade de casa. Datas festivas s\u00e3o bem dif\u00edceis. Faz tr\u00eas anos que estou aqui, e em todos os meus anivers\u00e1rios eu n\u00e3o sinto que fa\u00e7o uma comemora\u00e7\u00e3o completa, sempre falta algo, Nunca vou ser 100% feliz aqui.\u201d, afirma Joana.<\/p>\n<p>Para amenizar esse sentimento, a ideia \u00e9 voltar ao Brasil sempre que poss\u00edvel: visitar a fam\u00edlia uma vez por ano para saborear camar\u00e3o com alho e \u00f3leo da praia, tomar caldinho de feij\u00e3o, e principalmente, receber amor. Amor que s\u00f3 o povo brasileiro sabe dar, segundo ela.<\/p>\n<p>Mas a viagem desse ano n\u00e3o est\u00e1 garantida. &#8220;Fomos aconselhadas a n\u00e3o deixar o pa\u00eds. Evitar passar pelo consulado e pela imigra\u00e7\u00e3o\u201d, explica. \u201cPor mais que a gente tenha todas as documenta\u00e7\u00f5es, eu fico com medo de implicarem com a renova\u00e7\u00e3o do meu visto ou com a imigra\u00e7\u00e3o. D\u00e1 muito medo n\u00e3o consegui voltar e perder todas as pesquisas, o meu estudo, toda a vida que venho construindo.\u201d, conta.<\/p>\n<p>Assim, as manh\u00e3s na praia v\u00e3o ficando mais distantes. Sem saber a data do retorno, elas v\u00e3o vivendo dia ap\u00f3s dia, sempre que poss\u00edvel, alimentando as ra\u00edzes com a fam\u00edlia que constru\u00edram em terras estrangeiras. \u00c9 cozinhando um brigadeiro, em uma tarde de domingo ou preparando uma feijoada, que o tempo vai passando mais depressa. Assim elas dizem e esperam.<\/p>\n<p>Uma outra brasileira tamb\u00e9m vive algo parecido, s\u00f3 que um pouco mais distante dali. Gabi* se mudou de Belo Horizonte, em Minas Gerais, para a cidade do Porto, no noroeste de Portugal, com o intuito de concluir os estudos em Artes Pl\u00e1sticas na Universidade do Porto.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a mineira tem assistido o pa\u00eds impor legisla\u00e7\u00f5es que retiram cada vez mais direitos. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas, o partido de extrema-direita ganhou destaque com propostas que incluem a deporta\u00e7\u00e3o de imigrantes em situa\u00e7\u00e3o irregular e restri\u00e7\u00f5es ao acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>O governo de coaliz\u00e3o conservadora Alian\u00e7a Democr\u00e1tica, liderado por Lu\u00eds Montenegro, anunciou planos para expulsar aproximadamente 18 mil imigrantes irregulares.<\/p>\n<p>Em Lisboa, logo na sa\u00edda do aeroporto, \u00e9 poss\u00edvel ver um outdoor, que diz: \u201cSorria\u2026 Esta a ser substitu\u00eddo!\u201d (Sorria&#8230;voc\u00ea est\u00e1 prestes a ser substitu\u00eddo). A mensagem \u00e9 ir\u00f4nica, e remete diretamente ao aumento de imigrantes no pa\u00eds. \u00c9 um alerta, para os portugueses sobre o suposto risco de os estrangeiros os substitu\u00edrem em seus trabalhos, ocuparem suas terras.<\/p>\n<p>O aumento do n\u00famero de pessoas que migram para Portugal \u00e9 um fato. A Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00e3o e Asilo (AIMA) apontou que, at\u00e9 o final de 2024, o pa\u00eds j\u00e1 contava com cerca de 1,6 milh\u00f5es de imigrantes, quase quatro vezes mais do que os 421.785 registados em 2017. A maneira como muitos portugueses t\u00eam tratado os imigrantes, contudo, n\u00e3o justifica esse fato.<\/p>\n<p>Gabi lembra do clima na sua chegada. \u201cA primeira impress\u00e3o foi bem negativa. O tratamento das pessoas e o choque cultural foram bastante impactantes\u201d, lembra. \u201cAl\u00e9m da adapta\u00e7\u00e3o da cultura, clima, rotina de estudos e de trabalho, e \u00e0 saudade\u2026 ter que lidar com um novo tipo de preconceito, com a xenofobia, foi um desafio imenso.\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m defende um novo olhar dos brasileiros para o exterior. \u201cGrande parte da raiva que come\u00e7ou a me consumir vinha do contraste entre a realidade europeia e a imagem que n\u00f3s, brasileiros, ainda alimentamos e bajulamos, constru\u00edda intencionalmente h\u00e1 s\u00e9culos. \u00c9 doloroso perceber como esse ideal europeu ainda molda nossas refer\u00eancias, mesmo quando ele nos exclui e nos rejeita.\u201d<\/p>\n<p>Desde que os n\u00fameros de imigra\u00e7\u00e3o come\u00e7aram a aumentar, os casos de xenofobia em Portugal tamb\u00e9m t\u00eam se intensificado. De acordo com o balan\u00e7o da Comiss\u00e3o para a Igualdade e Contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial (CICDR), as den\u00fancias cresceram 505% entre 2017 e 2022.<\/p>\n<p>O processo de sair do seu lugar de origem, de \u201cdesenraizar\u201d, n\u00e3o afeta apenas a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 nova cultura, mas tamb\u00e9m afeta a sa\u00fade mental, alterando a percep\u00e7\u00e3o de identidade e o bem-estar geral.<\/p>\n<p>Em uma pesquisa intitulada \u201cO sofrimento de imigrantes: um estudo cl\u00ednico sobre os efeitos do desenraizamento no self&#8221;, realizada em 2005, pelo professor Jorge Fouad Maalouf da PUC- SP, o resultado foi claro: a migra\u00e7\u00e3o, especialmente em cen\u00e1rios de crise ou em pa\u00edses com pol\u00edticas de acolhimento restritivas, pode provocar um impacto psicol\u00f3gico profundo nos imigrantes.<\/p>\n<p>Mas diante desse cen\u00e1rio, em vez de se render \u00e0 exclus\u00e3o e ao preconceito, os brasileiros t\u00eam resistido, reagido: abrindo estabelecimentos comerciais, encontrando com outros brasileiros para rememorar sua cultura, dan\u00e7ando forr\u00f3, sambando. Fazendo carnaval em pleno inverno europeu.<\/p>\n<p>Quando a opress\u00e3o bate \u00e0 porta, \u00e9 preciso, ao inv\u00e9s de abaixar a cabe\u00e7a, responder de uma outra forma: transformar a saudade de casa em combust\u00edvel, fazendo com que o amor pelas nossas ra\u00edzes apare\u00e7a ainda mais, com for\u00e7a, com orgulho.<\/p>\n<p>Esse movimento de resist\u00eancia se reflete nas hist\u00f3rias de Fernanda, Joana e Gabi. Para elas, saudade \u00e9 o desejo da presen\u00e7a. Independente dos governos, a vida vai passando e, mesmo sem saber o que o futuro reserva, elas permanecem: com saudade de casa, mas sem deixar de tentar construir um outro futuro para elas.<\/p>\n<p>A saudade \u00e9 substantivo que vira verbo na boca de quem sente. N\u00e3o h\u00e1 opress\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o ou discurso de \u00f3dio que substitua sua for\u00e7a. E no fim do mundo, imerso em desesperan\u00e7a, \u00e9 como diz o compositor Eduardo Gudin, o importante mesmo \u00e9 que a nossa emo\u00e7\u00e3o sobreviva.<\/p>\n<p>*Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 onda conservadora global, imigrantes brasileiros usam a saudade de casa como ref\u00fagio<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":295,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-179","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gente"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/179","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=179"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/179\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":325,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/179\/revisions\/325"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=179"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=179"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=179"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}