{"id":184,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-7"},"modified":"2026-04-24T12:09:52","modified_gmt":"2026-04-24T15:09:52","slug":"o-oriente-que-pulsa-no-coracao-do-recife","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=184","title":{"rendered":"O oriente que pulsa no cora\u00e7\u00e3o do Recife"},"content":{"rendered":"<p>Fazia o calor de costume, numa quinta-feira de costume, na capital pernambucana. No bairro de Casa Forte, zona norte do Recife, uma casinha de alvenaria pintada de um azul c\u00e9u enfeita a rua Jader Andrade. O aroma que sa\u00eda de l\u00e1 era capaz de fazer at\u00e9 o transeunte mais apressado \u2014 com a aten\u00e7\u00e3o enfurnada numa pilha de afazeres sem fim \u2014 esquecer para onde estava indo e ser tomado por aquele prazer t\u00e3o familiar que faz a boca salivar.<\/p>\n<p>A fome n\u00e3o era mais da pressa. Era da comida caseira que, ali, naquela constru\u00e7\u00e3o simples, se fazia mais saborosa do que qualquer outra. E era ali que ficava o restaurante tradicionalmente coreano mais antigo do Brasil, o Burgogui.<\/p>\n<p>Adentro, estava a propriet\u00e1ria Helena Choi, de 57 anos, domando fog\u00f5es que estavam a todo vapor. Ia de um lado para o outro, dando instru\u00e7\u00f5es aos chefes de cozinha que, mesmo experientes, estavam atentos a tudo que ela dizia. \u201cPrimeiro, a gente doura os mandus \u2014 bolinho coreano recheado com carne e legumes, semelhante a um pastel \u2014 e depois cozinha eles no vapor, para manter o recheio suculento\u201d, sinaliza. Logo ap\u00f3s, se dirige a bancada e come\u00e7a a fatiar, com um capricho invej\u00e1vel, peda\u00e7os de um contrafil\u00e9 bovino. Feito isso, Helena pega um recipiente e come\u00e7a a mexer com as m\u00e3os a carne, antes marinada em molho de soja, com alho picado e sementes de gergelim. Aquela era a base do Burgogui, churrasco de contrafil\u00e9 coreano. Um sorriso escapa de seus l\u00e1bios. Cozinhar aquele prato a fazia lembrar dos calorosos almo\u00e7os de fam\u00edlia no domingo, quando crian\u00e7a, e de seu pai, Kong Pil Choi, que fundara o restaurante em meados de 2001.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-334\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/duda-3_tratada-240x300.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\" \/>Antes mesmo de entender quem era, ou de ter idade o bastante para brincar de futuro, Kong Pil Choi vira, ainda muito menino, o rosto da guerra. Ele e Soon Ja Choi \u2014 a garotinha t\u00edmida que, mais para frente, viria a crescer e tornar-se sua esposa \u2014 nasceram em Shenyang, capital da prov\u00edncia de Liaoning, no nordeste da China. Na \u00e9poca, os pais coreanos de Kong e os de Soon tiveram de se refugiar no pa\u00eds para fugir da invas\u00e3o japonesa ocorrida entre os anos de 1910 e 1945, antes mesmo da Coreia deixar de ser uma, para se tornar duas na\u00e7\u00f5es independentes. Cessado os horrores da Segunda Guerra Mundial, os aliados \u2014 Inglaterra, Fran\u00e7a, Estados Unidos e a Uni\u00e3o das Rep\u00fablicas Socialistas Sovi\u00e9ticas (URSS) \u2014 desfrutavam, enfim, da paz e das benesses da vit\u00f3ria. O mesmo, no entanto, como sela a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, n\u00e3o poderia ser dito para os pa\u00edses que estavam do outro lado do front.<\/p>\n<p>A Coreia, que antes fora col\u00f4nia japonesa, tivera o mesmo destino da Alemanha p\u00f3s-guerra. A por\u00e7\u00e3o sul do pa\u00eds passava, neste momento, a ser controlada pelos Estados Unidos \u2014 que espalhava, com afinco, a ideologia capitalista na regi\u00e3o \u2014 e a por\u00e7\u00e3o norte, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Kong e Soon, que chegaram ao pa\u00eds depois dele ser liberto do Jap\u00e3o \u2014 ele, aos 5 anos de idade, e ela, aos 3 \u2014, foram separados desta vez n\u00e3o por um muro, mas por uma linha imagin\u00e1ria que ceifava o territ\u00f3rio ao meio, o Paralelo 38 N, e for\u00e7ava milh\u00f5es de fam\u00edlias a cortar la\u00e7os e, da noite para o dia, se tornarem inimigas declaradas.<\/p>\n<p>Enquanto Kong Pil Choi se estabeleceu com a fam\u00edlia em Seul \u2014 que, na \u00e9poca, estava prestes a se tornar a capital da Coreia do Sul \u2014, Soon Ja Choi e seus pais se instalaram em Pyongyang. Soon, ainda pequenina, viveu por tr\u00eas anos do lado norte da fronteira no regime de Kim II-sung, av\u00f4 do atual l\u00edder do pa\u00eds, Kim Jong-Un. E foi neste mesmo per\u00edodo que a sua fam\u00edlia, mesmo com um temor que consumia at\u00e9 os ossos, decidiu cruzar o paralelo em dire\u00e7\u00e3o ao sul. Assim o fizeram: numa noite sem lua, sa\u00edram todos de uma vez, apenas com as roupas do corpo.<\/p>\n<p>Durante a fuga, Soon e a m\u00e3e acabaram sendo capturadas por militares e enquanto estavam sendo levadas a um galp\u00e3o, Soon fingiu sentir dores no est\u00f4mago e foi acompanhada, junto da mais velha, a um matagal nas proximidades. Sem demora, as duas correram, mata adentro, sem olhar para tr\u00e1s \u2014 temendo que, se assim o fizessem, acabassem por encarar a pr\u00f3pria morte. Sucessivos foram os disparos. Felizmente, as duas sa\u00edram ilesas. Mais tarde, Soon conseguiu se encontrar com o pai e o irm\u00e3o, e os quatro conseguiram, enfim, atravessar a fronteira.<\/p>\n<p>O temor havia cessado. At\u00e9 a eclos\u00e3o da Guerra da Cor\u00e9ia, em junho de 1950. Na \u00e9poca, Kong Pil-Choi tinha 10 anos e Soon, 8. O casal ainda n\u00e3o se conhecia, mas compartilharam da mesma mem\u00f3ria: era um domingo de manh\u00e3 quando as casas de Seul eram, pouco a pouco, engolidas pelas chamas. Gritos. Passos apressados. Corpos empilhados feito muros e estendidos, onde mal conseguia ver o ch\u00e3o \u2014 agora, tingido de um vermelho vivo. Meses de ofensivas. E Kong Pil Choi, ainda menino, teve de ir para as frentes de batalha. O sul-coreano de 11 anos carregava, ainda franzino, pesadas balas de canh\u00e3o para a artilharia. Sentira o cheiro da p\u00f3lvora, at\u00e9 hoje, impregnado no corpo e na mente.<\/p>\n<p>Passaram-se sete anos. O Armist\u00edcio de Panmunjon foi assinado e a guerra, ao menos nos pap\u00e9is diplom\u00e1ticos, chegara ao fim. Tempos depois, numa igreja evang\u00e9lica de Seul, os destinos de Kong e Soon, enfim, se cruzaram. N\u00e3o tardou para que come\u00e7assem a namorar \u2014 ele tinha 20 anos e ela, 18 \u2014 e em 1963, casaram-se numa cerim\u00f4nia discreta. No ano seguinte, tiveram seu primeiro filho, Pedro, e desembarcaram, com um punhado de incertezas nas malas, em solo brasileiro, em 1965. Kong era jornalista e havia sido transferido ao pa\u00eds para trabalhar como correspondente internacional do Jung-Ang Ilbo (Diario Central da Coreia), jornal e emissora de renome de Seul.<\/p>\n<p>Em quatro anos de estada, a fam\u00edlia Choi passara por Bras\u00edlia \u2014 e viram, pouco a pouco, a capital de Oscar Niemeyer ser povoada por tons de branco puro, constru\u00e7\u00f5es megaloman\u00edacas e seus pouco mais de 500 mil habitantes, na \u00e9poca \u2014, pelo Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, onde nascera sua filha, Helena. Como esperado, Kong Pil-Choi tamb\u00e9m n\u00e3o escapara do cerco armado da ditadura e foi detido pelos fardados do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops) por escrever sobre o governo militar, a vida dos generais e a Igreja Cat\u00f3lica. Felizmente, saiu ileso.<\/p>\n<p>E quando estava prestes a retornar \u00e0 Seul \u2014 j\u00e1 que seu \u201cmandato\u201d no Brasil havia acabado \u2014, conheceu o famoso economista Celso Furtado e o entrevistou para uma reportagem especial sobre a Superintend\u00eancia de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). De l\u00e1, percorreu nove estados do Nordeste, at\u00e9 chegar \u00e0 sede da Sudene, na terra \u201cde encantos mil\u201d \u2014 como era descrito o Recife pelos olhos do rei do brega rom\u00e2ntico, Reginaldo Rossi.<\/p>\n<p>Ao passo em que caminhava pela areia fofa da Orla de Boa Viagem; passeava pelas pontes e monumentos hist\u00f3ricos do centro da cidade; E proseava com os moradores daquela cidade calorosa de clima e de esp\u00edrito, Kong Pil Choi sentira o cora\u00e7\u00e3o frevar, como uma crian\u00e7a que vira, pela primeira vez, os bonecos gigantes de Olinda cortando caminho pela multid\u00e3o embriagada de alegria, com serpentinas nas m\u00e3os e nas curvas do sorriso. N\u00e3o tinha jeito: era amor. Que coisas grandes \u2014 e mi\u00fadas, e singelas, e irreverentes na mesma medida \u2014 fazem aqueles que est\u00e3o repletos de amor.<\/p>\n<p>E a de um Kong Pil Choi, j\u00e1 bem crescido, foi pedir demiss\u00e3o do jornal e pousar, de vez, nas terras do Recife, e abrir uma pequena comedoria coreana na zona norte da capital pernambucana. Afinal, mesmo para um homem t\u00e3o peregrino, existem naturezas pelas quais terra nenhuma \u00e9 capaz de tomar. Em meio \u00e0 churrascarias opulentas e franquias de restaurantes capitaneadas pelas mesmas fam\u00edlias de prest\u00edgio, ele vende ensopados encorpados, vegetais fermentados e apimentados, bem como tiras de fil\u00e9 servidas numa pequena grelha. Os acompanhamentos, bem coloridos e dispostos de maneira circular, sugerem um ritual a ser seguido. E s\u00e3o, acima de tudo, uma celebra\u00e7\u00e3o: das farturas que s\u00e3o colhidas da terra e das vidas que resistiram \u00e0 f\u00faria da guerra. E aqui, neste porto que virou cidade, ele faz morada, com sua fam\u00edlia, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Agora, com os fios j\u00e1 grisalhos pelo tempo, Kong Pil Choi, de 85 anos, segue imortalizando, na carne e na mem\u00f3ria, uma das hist\u00f3rias de vida mais fascinantes do Recife. Ele, maestro de corais juvenis, m\u00e9dico oriental e professor da Escola de L\u00edngua Coreana de Recife \u2014 dirigida pelo Consulado da Coreia do Sul \u2014, \u00e9, sobretudo, um pai orgulhoso de seus rebentos e um av\u00f4 amoroso. Para o ex-vereador Romildo Gomes Filho e a C\u00e2mara Municipal da metr\u00f3pole pernambucana, o Sr. Kong \u00e9 o \u201ccidad\u00e3o do Recife\u201d \u2014 t\u00edtulo estampado, orgulhosamente, nas paredes do Burgogui. Mas para a Helena menina e a Helena com dois filhos j\u00e1 crescidos, Kong Pil Choi \u00e9, para sempre, o pai que dera a volta no mundo pelos filhos e que \u00e9 mestre em tirar espinhas de peixe com hashi.<\/p>\n<p>\u2014 Helena, tem uma garota te procurando. Ela disse que marcou com voc\u00ea uma entrevista para hoje a tarde\u201d. Helena, que estava para dar os toques finais nos pedidos, vira-se para Eli, seu marido. \u201cJ\u00e1 estou indo\u201d, ela responde.<\/p>\n<p>Tempos depois, ela sai da cozinha, satisfeita com seu trabalho, e se dirige \u00e0 mesa onde estava uma jovem franzina, com as m\u00e3os sujas e a boca cheia de comida \u2014 porque comida coreana se come com as m\u00e3os e de boca cheia, para mostrar satisfa\u00e7\u00e3o. Ao v\u00ea-la, a menina limpa as m\u00e3os de forma desajeitada e sorri. \u201cFique \u00e0 vontade\u201d, Helena diz e se senta. Pratos e copos entram e saem da mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, Helena. Antes de falar de voc\u00ea, que \u00e9 da segunda gera\u00e7\u00e3o de imigrantes da fam\u00edlia Choi, queria que me contasse um pouco da hist\u00f3ria de seu pai.<\/p>\n<p>Helena sorri, com os l\u00e1bios e com as pequenas linhas de seu rosto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma longa hist\u00f3ria\u2026 \u2014 ela olha para a mesa ao lado, que tinha uma fam\u00edlia grande e barulhenta, reunida. Todos estavam rindo, com a boca cheia de macarr\u00e3o de arroz. Helena sorri e volta a encarar a jovem de olhos atentos \u2014 \u2018T\u00e1 com tempo para ouvir?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazia o calor de costume, numa quinta-feira de costume, na capital pernambucana. No bairro de Casa Forte, zona norte do Recife, uma casinha de alvenaria pintada de um azul c\u00e9u enfeita a rua Jader Andrade. 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