{"id":185,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-8"},"modified":"2026-04-24T11:15:01","modified_gmt":"2026-04-24T14:15:01","slug":"se-nao-fossem-os-umamis-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=185","title":{"rendered":"Se n\u00e3o fossem os umamis da vida"},"content":{"rendered":"<p>Amanhe\u00e7o \u2014 desde muito menina \u2014 de est\u00f4mago vazio. \u00c9 daqueles ritos que n\u00e3o consigo largar e nunca soube ao certo o porqu\u00ea. Minhas manh\u00e3s eram feitas de um jejum sagrado e silencioso \u2014 ainda que, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o fosse muito religiosa. Eram feitas de um jejum que, por raz\u00f5es maternais, tirava o apetite de dona Kika. \u201cToma, pelo menos, um copo de iogurte, menina! J\u00e1 te disse que saco vazio n\u00e3o para em p\u00e9\u201d , advertia a mais velha, bebericando sua boa e velha x\u00edcara de caf\u00e9 com leite. Como em boa parte das fam\u00edlias nordestinas, dona Kika \u2014 ou um \u2018mainha\u2019, bem nasal, como carinhosamente costumo chamar \u2014 \u00e9 uma esp\u00e9cie de padroeira na mesa. Pois neste \u201csert\u00e3o que vai virar mar\u201d \u2014 e neste \u201cmar que vai virar sert\u00e3o\u201d, nas palavras de Glauber Rocha \u2014, mais sagrado que o p\u00e3o nosso de cada dia, s\u00f3 a vig\u00edlia protetora de m\u00e3e. da minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o me entenda mal: sempre fui boa de garfo e me orgulhava de ter, no almo\u00e7o, entre as crian\u00e7as da minha idade, o prato mais colorido. Mas sempre fui um bicho mais da noite, apesar de ter vivido \u2014 e viver \u2014 boa parte da minha vida num fuso matinal. Aos vinte e poucos anos, isso n\u00e3o \u00e9 diferente. Exceto que, hoje, a vida acad\u00eamica num caos urbano me tornou amante das madrugadas. E de um energ\u00e9tico saborizado quando a gradua\u00e7\u00e3o pede mais de mim.<\/p>\n<p>Saio de casa, pego o \u00f4nibus num fim de tarde e tomo meu destino bem na nascente da Avenida Conde da Boa Vista. Naquele mar revolto de pedestres e ambulantes, ou\u00e7o \u2014 de canto de ouvido \u2014 um carroceiro de lanches cantarolar o ponto de Iemanj\u00e1, regente das ondas: \u201c\u00d4, Minha M\u00e3e Iemanj\u00e1 \/ Hoje eu vou cantar \/ Vou louvar na areia \/ Em lua cheia a m\u00e3e Iemanj\u00e1\u201d. De s\u00fabito, me vi na praia de Itamarac\u00e1. O vestido tran\u00e7ado arrastava, enquanto eu cravava os dedos dos p\u00e9s na areia molhada. Sentira o vento. O cheiro de sal. O tempo. Naquele azul profundo, pensava na minha fome cr\u00f4nica de viver. De partir o horizonte ao meio e provar de todos os caminhos que eu quisesse seguir. Eu queria comer todos os figos que a vida me oferecesse, porque n\u00e3o suporto a ideia de v\u00ea-los apodrecer. De assisti-los perder o sumo por ter medo demais.<\/p>\n<div id=\"attachment_290\" style=\"width: 837px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-290\" class=\"wp-image-290 size-full\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROMULO-JACKSON-LATAO-3-E-10_duda_tratada.jpg\" alt=\"\" width=\"827\" height=\"551\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROMULO-JACKSON-LATAO-3-E-10_duda_tratada.jpg 827w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ROMULO-JACKSON-LATAO-3-E-10_duda_tratada-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 827px, 100vw\" \/><p id=\"caption-attachment-290\" class=\"wp-caption-text\">\u2018Lat\u00e3o 3 \u00e9 10\u2019. R\u00f4mulo Jackson\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Medo de mastigar, sem querer, o amargo dos caro\u00e7os. Medo de comer e n\u00e3o gostar. Medo de comer tanto de um \u00fanico figo e n\u00e3o ser capaz de consumir outra coisa pelo resto da vida. Um temor que Clarice Lispector tivera, muito nova, quando mastigou um chiclete pela primeira vez: o [medo] da eternidade. A sina de quem vive \u2014 n\u00e3o por escolha \u2014 um dia de cada vez num mundo sempre com pressa. A sina de quem degusta, na santa ceia, s\u00f3 do p\u00e3o, pelo temor de n\u00e3o saciar essa minha sede de mundo com um s\u00f3 gole de vinho.<\/p>\n<p>Mas antes que eu seja levada pela correnteza, um cheiro familiar me resgata. E um sorriso nasce no meu rosto antes que eu sequer perceba. Me viro, de costas para aquela imensid\u00e3o salgada, e encontro minha fam\u00edlia, sentada numa mesa \u00e0 beira-mar, com uma por\u00e7\u00e3o generosa de guaiamuns bem curados. E por obra do acaso \u2014 ou do destino, por que n\u00e3o? \u2014, como boa filha de mangue, sou apaixonada por frutos do mar.<\/p>\n<p>Me junto a eles na mesa. Agarro um dos guaiamuns e, sem demora, come\u00e7o a sugar todo o seu sabor pelas patas. Gosto de pensar que, antes mesmo de me entender como gente, eu j\u00e1 sabia comer com muita maestria todo tipo de crust\u00e1ceo. At\u00e9 me orgulho de n\u00e3o desperdi\u00e7ar nada da carne suculenta ou cortar o c\u00e9u da boca.<\/p>\n<p>Essa minha sabedoria, que vem sendo aprimorada com o passar dos anos, e esse meu gosto pelo mar e seus frutos, aprendi com meu pai. Ele, por sua vez, aprendeu com a minha av\u00f3, filha de pais ribeirinhos e que faziam da pesca o \u00e1rduo sustento de toda uma vida a tr\u00eas.<\/p>\n<p>E \u00e9 por uma vida desaguar na outra que, hoje, eu sei identificar quando o pescado \u00e9 fresco; Diferenciar, s\u00f3 de experimentar, a carne de um guaiamum, de um caranguejo; Que f\u00eameas de crust\u00e1ceos costumam ser maiores que os machos \u2014 e, por conseguinte, serem mais saborosas; O ponto exato de grelhar um camar\u00e3o, e tantos outros saberes que vem de uma mesma linhagem cabocla e enxerida na cozinha. Daquelas gen\u00e9ticas bem metidas, por sermos ungidos em azeite de dend\u00ea e torrar no sol que nem calda de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>E antes que me demorasse mais naquele sonho paradis\u00edaco, eu desperto.<\/p>\n<p>Uma buzina furiosa e insistente me faz voltar aos eixos. Aperto o passo e, em pouco tempo de caminhada, chego \u00e0 Universidade. Transito, com pressa, pela infinidade de barraquinhas e estabelecimentos na rua do lazer, depois de um dia dif\u00edcil. \u201cTenho fome de que, hoje?\u201d, volta e meia, me pergunto.<\/p>\n<div id=\"attachment_289\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-289\" class=\"size-medium wp-image-289\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/duda_romulo_tratada-240x300.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-289\" class=\"wp-caption-text\">\u2018A praia \u00e9 melhor pra ficar\u2019. R\u00f4mulo Jackson\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>Volta e meia, tamb\u00e9m, me pego respondendo de forma muito passional: Tenho fome de tudo, oras. Mas fome mesmo tenho \u00e9 do brigadeiro quente da minha m\u00e3e, que vinha sempre desavisado em uma madrugada de filmes. Da sopa de feij\u00e3o de Dad\u00e1 \u2014 a m\u00e3e que sangue algum seria capaz de apagar; Tenho fome dos tabletes de doce de leite que minha av\u00f3 paterna, com tanto carinho, me presenteava;<\/p>\n<p>Da salada de bacalhau da minha av\u00f3 por parte de m\u00e3e servida em todo Natal; do macarr\u00e3o com molho de tomate da minha irm\u00e3 e do camar\u00e3o ao alho e \u00f3leo do meu pai que s\u00e3o, sem sombra de d\u00favidas, os melhores do mundo.<\/p>\n<p>Tenho fome \u00e9 de um futuro melhor e por essa raz\u00e3o tenho me virado \u2014 \u00e0 pernambucana \u2014 para dar conta de tudo, todos os dias. Sorri, como quem tem \u2014 no sangue e no c\u00e9u da boca \u2014 uma constela\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Aprendi com os meus que o que se come \u2014 com os olhos, com a boca \u2014, se devora, tamb\u00e9m, com a alma; Que a gente tem de sugar o tutano da vida e da fruta, roer at\u00e9 o caro\u00e7o para assim honrarmos essas pequenas por\u00e7\u00f5es de eternidade; \u00c0 cozinhar, de m\u00e3os vazias, e fazer pratos cheios de sabor, mesmo com as sobras dormidas de um dia pro outro; A nutrir-se de amor: nas mesas em que nos servimos; nos ambientes que frequentamos; nas vidas que atravessamos e nas outras tantas que nos atravessam \u2014 posto que \u00e9 umami tudo aquilo que se faz eterno nos sentidos. Nesta carne que \u00e9 t\u00e3o nossa quanto daqueles que, munidos de f\u00e9 e fervura, viveram uma vida inteira antes de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amanhe\u00e7o \u2014 desde muito menina \u2014 de est\u00f4mago vazio. \u00c9 daqueles ritos que n\u00e3o consigo largar e nunca soube ao certo o porqu\u00ea. Minhas manh\u00e3s eram feitas de um jejum sagrado e silencioso \u2014 ainda que, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o fosse muito religiosa. Eram feitas de um jejum que, por raz\u00f5es maternais, tirava o apetite de dona Kika. \u201cToma, pelo menos, um copo de iogurt<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":287,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-185","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-gastronomia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=185"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":291,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/185\/revisions\/291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/287"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}