{"id":189,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-12"},"modified":"2026-04-24T19:52:12","modified_gmt":"2026-04-24T22:52:12","slug":"as-historias-de-quem-fica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=189","title":{"rendered":"As hist\u00f3rias de quem fica"},"content":{"rendered":"<h2><strong>As muitas faces de um luto para quatro mulheres do Recife<\/strong><\/h2>\n<p>\u201cPerder essas tr\u00eas figuras foi das coisas mais cru\u00e9is e dolorosas que poderiam ter me acontecido\u201d. Essa fala \u00e9 de Gabriela Medeiros, professora recifense de 34 anos, que perdeu a m\u00e3e, a av\u00f3 e o tio em um intervalo de dois anos. A dor de perder quem se ama, como muitos sabem e j\u00e1 experienciaram, chegou sem avisar e foi quase que instant\u00e2nea. Gabriela viveu na pele esse processo t\u00e3o complexo e cheio de camas que \u00e9 o luto ao perder tr\u00eas dos grandes amores, e teve sua vida transformada depois disso.<\/p>\n<p>Como em 53,9% dos lares pernambucanos, essa fam\u00edlia tamb\u00e9m era chefiada por duas mulheres: Eliete Medeiros, 92 anos, e Maria de Lourdes Medeiros, 64 anos. A rela\u00e7\u00e3o filha, m\u00e3e e neta era a for\u00e7a motriz daquela casa. \u201cSempre fomos n\u00f3s tr\u00eas, em tudo e para tudo\u201d, diz Gabriela. As ra\u00edzes femininas eram fortes naquele lugar, mas, o que n\u00e3o se imagina, \u00e9 que ali tamb\u00e9m houve a presen\u00e7a marcante de uma figura masculina, a quem a professora o referenciava como pai, o tio Ezio Medeiros, de 64 anos. \u201cFoi o tio mais presente na minha vida. O que eu mais amei e por quem eu mais fui amada\u201d, contou. \u201c\u00c0s vezes, no hor\u00e1rio do almo\u00e7o, dormia enquanto eu massageava as pernas dele com creme hidratante\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Em outubro de 2021 tudo isso mudou. Ezio faleceu repentinamente, v\u00edtima de um infarto \u2013 maior causa de mortes no pa\u00eds, segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. \u201cFoi um baque. Como assim tio Ezio havia morrido? Ele estava vivo ontem, falando comigo, andando e se alimentando bem. N\u00e3o era poss\u00edvel\u201d, conta Gabriela.<\/p>\n<p>Exatamente um ano depois, ela se viu no mesmo lugar, tendo que se despedir de mais um parente. Foi a vez da matriarca da fam\u00edlia, dona Eliete, v\u00edtima de uma sepse de foco respirat\u00f3rio combinada com a depress\u00e3o psic\u00f3tica. \u201cVov\u00f3 se foi depois de eu e m\u00e3inha lutarmos muito para que ela ficasse\u201d, conta. \u201cFoi o pior dia da minha vida. Eu perdi o norte, o ch\u00e3o, um peda\u00e7o de mim\u201d, finaliza. Mas diante das incertezas, a dor precisou se tornar a for\u00e7a. Foi preciso escantear o sentimento, para fortalecer quem ainda estava ali por e com ela: sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o foi suficiente. Em novembro de 2023, Gabriela perdeu sua m\u00e3e, em decorr\u00eancia de um edema pulmonar agudo secund\u00e1rio a um infarto. \u201cA aus\u00eancia de algu\u00e9m que se vai para sempre \u00e9 cruel. Principalmente quando \u00e9 algu\u00e9m com quem voc\u00ea conviveu todos os dias, durante mais de 31 anos. Precisei, e ainda preciso, a duras penas me acostumar com essas aus\u00eancias t\u00e3o gritantes\u201d, exp\u00f5e. \u201cIsso me faz perceber que a nossa rela\u00e7\u00e3o sempre foi de muito estar-presente, de muita aten\u00e7\u00e3o e de muito respeito, mas, sobretudo, de muito amor\u201d, diz Gabriela.<\/p>\n<p><strong>\u201cNingu\u00e9m nunca est\u00e1 pronto para perder quem ama\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Esse turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, muitas vezes n\u00e3o entendidas, realmente \u00e9 parte da rotina de um enlutado. Em meio a dor, a m\u00e1goa, a ang\u00fastia e a raiva por estar vendo quem amamos partir, tamb\u00e9m somos tomados pelo sentimento de gratid\u00e3o por termos tido aquela presen\u00e7a potente em nossas vidas. A estudante de 22 anos Manuela Maia atravessou esse deserto com a perda do pai e, no processo de ressignifica\u00e7\u00e3o, as diversas faces do luto tomaram conta da sua exist\u00eancia. Na verdade, ainda tomam. \u201c\u00c9 um processo muito doido, porque ao mesmo tempo que voc\u00ea se prepara, ningu\u00e9m nunca est\u00e1 pronto, sabe? Ningu\u00e9m nunca est\u00e1 pronto para perder quem ama\u201d, explica.<\/p>\n<p>C\u00e1ssio Maia, pai de Manuela, enfrentou o c\u00e2ncer de p\u00e2ncreas \u2013 respons\u00e1vel por cerca de 1% de todos os tipos de c\u00e2ncer diagnosticados e por 5% do total de mortes causadas pela doen\u00e7a. Quando um diagn\u00f3stico dessa propor\u00e7\u00e3o chega em uma fam\u00edlia, acontece quase que um adoecimento coletivo. Tudo se desmorona e falta ch\u00e3o abaixo dos p\u00e9s. Essa despedida, de algu\u00e9m que n\u00e3o volta, eu diria ser quase imposs\u00edvel de ser descrita, porque \u00e9 muito particular de quem vivencia na pele. No entanto, Manuela tenta, em palavras, trazer um pouco dessa percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como eu digo sempre para todos, ele [o luto] n\u00e3o \u00e9 linear, ele vai e volta, ele arranca, tem dias que ele arranca, sabe? Ele me deixa desamparada e depois ele me acalma, ele me acalenta.\u201d, explica. \u201cEu amava muito ser filha dele, ainda amo ser filha dele. E eu levo essa rela\u00e7\u00e3o para o resto da minha vida, sabe? E eu tento pensar nela, nutrir ela, todos os dias\u201d, finaliza Manuela.<\/p>\n<p>E ela realmente faz. Tanto faz, que nos \u00faltimos seis meses, tirou parte do seu tempo para revisitar amigos dele. Amigos estes que, mesmo sem conhec\u00ea-la, o acolheram como filha. Para ela, esses encontros com o passado foram essenciais. \u201cFoi muito importante paraa mim\u201d, resume. Mais do que preencher lacunas, ouvir sobre o pai por outras bocas foi como reencontr\u00e1-lo, mesmo que por instantes, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria coletiva de quem o conheceu.<\/p>\n<p>Em um trecho do livro \u201cA morte \u00e9 um dia que vale a pena viver\u201d, a autora Ana Claudia Quintana diz que: \u201cA dor do luto \u00e9 proporcional \u00e0 intensidade do amor vivido na rela\u00e7\u00e3o que foi rompida pela morte, mas tamb\u00e9m \u00e9 por meio desse amor que conseguiremos nos reconstruir\u201d. Esse pensamento mostra que somos feitos, tamb\u00e9m, de mem\u00f3rias e das lembran\u00e7as daquilo que j\u00e1 passou. Aquilo que nos atravessa diariamente. Todo o resto, mesmo que palp\u00e1vel, \u00e9 finito. E o luto \u00e9 exatamente sobre isso, relembrar e ressignificar momentos que passaram.<\/p>\n<p><strong>A cura fora do hospital<\/strong><\/p>\n<p>O diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a em est\u00e1gio avan\u00e7ado e sem perspectiva de cura imp\u00f5e uma dura realidade e levanta uma pergunta inevit\u00e1vel: por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Um c\u00e2ncer met\u00e1stico \u2013 quando as c\u00e9lulas cancerosas se espalham de um tumor prim\u00e1rio para outros \u00f3rg\u00e3os \u2013 transforma profundamente a vida de quem o recebe e de todos ao redor do paciente. Como n\u00e3o h\u00e1 cura, somente tratamentos paliativos para prolongar o tempo e aliviar sintomas, cada dia passa a ter um peso mais urgente e de incerteza constante. Essa incerteza tomou conta n\u00e3o s\u00f3 da fam\u00edlia de Manuela, mas de uma outra, a fam\u00edlia Dantas: Gercimar, Sandra e Geandra.<\/p>\n<p>Gercimar e Sandra se conheceram em 1991, ele com 22 anos, ela com 14. Ele foi seu primeiro namorado.<\/p>\n<p>O relacionamento, por muito tempo, foi mantido por meio de cartas e telefonemas trocados ao longo dos anos, devido a um per\u00edodo em que Gersimar percorreu diversos estados em fun\u00e7\u00e3o de cursos de forma\u00e7\u00e3o militar. At\u00e9 que o casal finalmente conseguiu se estabelecer e dar in\u00edcio ao sonho de formar uma fam\u00edlia. Em 1996, nasceu Geandra, a &#8220;filha sonhada e desejada\u201d. Desde ent\u00e3o, eram os tr\u00eas para tudo. Foram anos de mudan\u00e7a constante entre cidades, at\u00e9 se fixarem definitivamente no Recife.<\/p>\n<p>Mas justo quando tudo parecia se encaixar, a fam\u00edlia foi acertada por um duro golpe: Gercimar foi diagn\u00f3stico com um c\u00e2ncer no intestino \u2014 o terceiro mais comum no pa\u00eds \u2014 j\u00e1 em est\u00e1gio 4, com met\u00e1stase no f\u00edgado. \u201cParecia mentira, pois ele era um homem saud\u00e1vel, extremamente forte e nunca adoecia\u201d, relata Sandra.<\/p>\n<p>Foram dois anos e meio de tratamento e 64 sess\u00f5es de quimioterapia. Geandra, a \u00fanica filha do casal, cursava medicina e j\u00e1 conseguia entender toda a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, mas poupava a m\u00e3e de ainda mais sofrimento. \u201cEle era nossa prioridade e mesmo naquele cen\u00e1rio, t\u00ednhamos n\u00f3s tr\u00eas juntos como sempre tinha sido a vida toda\u201d, conta.<\/p>\n<p>Enquanto o corpo j\u00e1 dava sinais de partida, a formatura de Geandra foi colocada no meio de caminho. Ao mesmo tempo que os eventos se aproximavam, a sensa\u00e7\u00e3o era de que, a qualquer momento, ele partiria. Mas muitas vezes, o inesperado, no melhor sentido da palavra, chega e muda tudo.<\/p>\n<p>Era in\u00edcio de janeiro quando toda uma opera\u00e7\u00e3o foi realizada para concretizar um \u00fanico sonho: a presen\u00e7a dele na festa. Assim foi feito. Os m\u00e9dicos que dele cuidavam autorizaram uma transfus\u00e3o de sangue para dar aquele corpo for\u00e7as, mesmo que poucas, para viver aquele dia m\u00e1gico para os tr\u00eas. S\u00f3 houve um \u00fanico problema, os sapatos. Devido ao incha\u00e7o dos p\u00e9s, causados pela doen\u00e7a, nada caberia nos p\u00e9s de Gercimar. Foi apenas de meias. O constrangimento por parte dele, se fez presente, o que n\u00e3o foi um problema. Como s\u00edmbolo de todo amor, companheirismo e cumplicidade que circuncidava aquela fam\u00edlia, Sandra e Geandra desceram do salto e, juntos, entraram no sal\u00e3o da Coudelaria Souza Le\u00e3o sem dar import\u00e2ncia para qualquer outra coisa que n\u00e3o fosse o elo que os unia.<\/p>\n<p>Dan\u00e7aram, se divertiram e viveram das melhores noites que poderiam. Parecia a cura, mas n\u00e3o a cura literal da doen\u00e7a, a cura de um processo angustiante que, por algumas horas, parecia n\u00e3o mais existir. Viveram a vida como ela importa e n\u00e3o baseada somente es progn\u00f3stico m\u00e9dico. Gercimar morreu uns dias depois do baile. Mas n\u00e3o sem antes segurar em suas m\u00e3os a carteira do Conselho Regional de Medicina de Geandra, o s\u00edmbolo de tudo aquilo que viveram juntos.<\/p>\n<p>Aquela era a materializa\u00e7\u00e3o de anos de esfor\u00e7o. Era o sonho de uma vida inteira. \u201cPara ele foi o fim de um sofrimento. Para a gente, o in\u00edcio de uma saudade\u201d, conta Sandra, a esposa. \u201cEncontramos sentido na vida colocando em pr\u00e1tica tudo aquilo que a gente tinha certeza de que ele gostaria de fazer. Fizemos viagens, fomos a lugares que ele queria ir, revisitamos outros que ele amava frequentar\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>O processo do luto \u00e9 mesmo uma longa e dolorosa revis\u00e3o de todas as mem\u00f3rias do falecido, at\u00e9 que a pessoa consiga, enfim, seguir em frente. Apesar de diferentes, as hist\u00f3rias de Gabriela, Manuela e Sandra se cruzam exatamente no mesmo ponto: a saudade de quem foi e o amor de quem ficou. O dif\u00edcil do luto \u00e9 entender como algu\u00e9m que \u201cat\u00e9 ontem\u201d fazia parte do meu mundo, de repente, passa a existir de outra forma. Menos presente no cotidiano, mas ainda entrela\u00e7ado de alguma maneira \u00e0queles que o amaram. \u201cCom\u00edamos a comida preferida, chor\u00e1vamos e sorriamos mergulhadas em lembran\u00e7as. E assim, a saudade encontrava de alguma forma, al\u00edvio\u201d, compartilha Sandra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As muitas faces de um luto para quatro mulheres do Recife<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":385,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-189","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historias-de-amor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=189"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/189\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":387,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/189\/revisions\/387"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}