{"id":190,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-13"},"modified":"2026-04-24T19:53:08","modified_gmt":"2026-04-24T22:53:08","slug":"o-vinculo-com-quem-partiu-nao-se-desfaz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=190","title":{"rendered":"\u201cO v\u00ednculo com quem partiu n\u00e3o se desfaz\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Marianne Branquinho \u00e9 psic\u00f3loga cl\u00ednica e especialista em luto. Em 2015, pouco depois de concluir a gradua\u00e7\u00e3o, passou pela perda do pai e, sem nem esperar, esteve diante de algo que ela nunca havia sentido t\u00e3o presente, a morte. Foi durante esse \u201cdeserto\u201d que a terapeuta percebeu n\u00e3o ter sido preparada ao longo da universidade para auxiliar as pessoas a atravessarem o processo do luto, inclusive, o dela mesmo.<\/p>\n<p>Nesta entrevista pingue-pongue, Marianne, formada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), traz informa\u00e7\u00f5es de como se d\u00e1 a ressignifica\u00e7\u00e3o desse sentimento t\u00e3o complexo e profundo. A psic\u00f3loga possui especializa\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade na modalidade de Resid\u00eancia Multiprofissional pelo Hospital Universit\u00e1rio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC\/HU). Ap\u00f3s concluir a resid\u00eancia, iniciou uma forma\u00e7\u00e3o em Tanatologia, o estudo sobre a morte e o morrer. Desde ent\u00e3o, vem integrando essa abordagem em sua atua\u00e7\u00e3o profissional, promovendo reflex\u00f5es e pr\u00e1ticas voltadas ao cuidado, \u00e0 escuta sens\u00edvel e \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o dos processos de fim de vida.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Quanto tempo dura o luto?<\/strong><\/p>\n<p>Marianne Branquinho: N\u00e3o existe um tempo exato. \u00c9 um processo individual, que varia muito de pessoa para pessoa e depende de diversos fatores. A natureza da perda, a idade da pessoa enlutada, o tipo de v\u00ednculo com quem partiu, a presen\u00e7a ou aus\u00eancia de rede de apoio, o momento de vida em que a perda ocorre, tudo isso pode influenciar a intensidade e a dura\u00e7\u00e3o do luto. Pode durar meses ou anos e n\u00e3o segue uma trajet\u00f3ria linear. O mais importante \u00e9 observar se, com o passar do tempo, a pessoa consegue retomar a vida, vislumbrar novos projetos, criar possibilidades e encontrar formas de manter um v\u00ednculo simb\u00f3lico com quem partiu.<\/p>\n<p><strong>O Berro \u2013 Em meio a este processo, somos atravessados por diversos sentimentos. Quais s\u00e3o as fases do luto? \u00c9 poss\u00edvel descrev\u00ea-las?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Essa ideia (fases do luto) \u00e9 uma forma did\u00e1tica de compreender as diferentes rea\u00e7\u00f5es emocionais que podem surgir ap\u00f3s uma perda, mas \u00e9 importante lembrar que o luto n\u00e3o segue uma ordem fixa ou linear. As cinco fases mais conhecidas foram descritas pela psiquiatra Elisabeth K\u00fcbler-Ross: nega\u00e7\u00e3o, raiva, barganha, depress\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o. No entanto, nem todas as pessoas passam por todas essas fases, e elas n\u00e3o acontecem necessariamente nessa ordem.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Ent\u00e3o \u00e9 normal sentir raiva ou evitar falar de uma pessoa que faleceu?<\/strong><\/p>\n<p>MB: O luto \u00e9 um processo complexo que envolve muitas emo\u00e7\u00f5es, e nem todas s\u00e3o socialmente esperadas ou bem compreendidas. Ent\u00e3o, sim, \u00e9 normal. Esses sentimentos podem surgir, dependendo da hist\u00f3ria e do v\u00ednculo com quem faleceu. Isso tudo tamb\u00e9m pode ser uma forma tempor\u00e1ria de lidar com a dor, especialmente quando a perda \u00e9 recente ou quando h\u00e1 conflitos n\u00e3o resolvidos. Essas rea\u00e7\u00f5es fazem parte do processo e n\u00e3o devem ser vistas como sinal de falta de amor ou desrespeito. Com o tempo, e com acolhimento, essas emo\u00e7\u00f5es tendem a se reorganizar, abrindo espa\u00e7o para outras formas de lembran\u00e7a e conex\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; O luto pode se tornar patol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Muitas pessoas usem o termo luto patol\u00f3gico, mas na pr\u00e1tica cl\u00ednica preferimos falar em luto prolongado ou complicado. Isso acontece quando a pessoa permanece por muito tempo imersa no sofrimento, sem conseguir alternar entre momentos de dor pela perda e movimentos de restaura\u00e7\u00e3o da vida. Essa oscila\u00e7\u00e3o, entre se voltar para a aus\u00eancia e retomar aos poucos a rotina, os v\u00ednculos e os projetos, \u00e9 esperada e saud\u00e1vel no processo de luto. Quando ela n\u00e3o acontece, e a dor se mant\u00e9m constante e paralisante, \u00e9 importante ficar atento.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Muitas pessoas encontram conforto em rituais de despedida ou homenagens. Qual o papel dessas pr\u00e1ticas na jornada do luto?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Essas pr\u00e1ticas marcam simbolicamente a perda, permitindo que a pessoa enlutada reconhe\u00e7a que algo mudou, que algu\u00e9m se foi, e que a vida precisa ser reorganizada. Elas tamb\u00e9m oferecem um espa\u00e7o de express\u00e3o emocional, onde \u00e9 poss\u00edvel compartilhar a dor, o amor, as mem\u00f3rias e receber o suporte de outras pessoas. Os rituais criam um senso de continuidade. Eles mostram que, mesmo com a aus\u00eancia f\u00edsica, o v\u00ednculo pode permanecer. Seja atrav\u00e9s de uma carta, uma vela acesa, uma m\u00fasica, um lugar, um gesto simples &#8211; essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o formas de se conectar com quem se foi.<\/p>\n<p><strong>O Berro \u2013 Quando perdemos algu\u00e9m, s\u00e3o apenas as lembran\u00e7as que ficam e \u00e9 nelas que projetamos nossos sentimentos. Como essas mem\u00f3rias podem servir de conforto e n\u00e3o de dor?<\/strong><\/p>\n<p>MB: As mem\u00f3rias costumam doer muito, mas com o tempo e o acolhimento do luto, elas podem se transformar em fonte de conforto. Isso acontece quando a pessoa enlutada consegue acessar lembran\u00e7as n\u00e3o apenas com tristeza, mas tamb\u00e9m com afeto, reconhecimento da hist\u00f3ria vivida e gratid\u00e3o pelo v\u00ednculo. Para isso, \u00e9 importante n\u00e3o evitar as mem\u00f3rias, mas criar espa\u00e7os seguros para que elas sejam lembradas, contadas e compartilhadas. Quando o luto \u00e9 elaborado de forma saud\u00e1vel, as lembran\u00e7as deixam de ser apenas uma lembran\u00e7a da perda e passam a ser tamb\u00e9m uma forma de presen\u00e7a emocional e continuidade do amor.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Ent\u00e3o, para que esse processo seja saud\u00e1vel, o que voc\u00ea considera fundamental no acolhimento de uma pessoa enlutada?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Oferecer presen\u00e7a, escuta genu\u00edna e aus\u00eancia de julgamentos. \u00c9 essencial respeitar o tempo e o ritmo de quem vive o luto, sem tentar apressar o processo ou minimizar a dor. Ouvir frases simples como \u201cestou aqui se quiser falar sobre isso\u201d ou \u201cvoc\u00ea n\u00e3o precisa dar conta de tudo agora\u201d podem ter um impacto profundo (no enlutado). Mais do que dizer algo certo, o mais importante mesmo \u00e9 estar dispon\u00edvel de forma afetiva, criando um espa\u00e7o seguro para que a pessoa possa sentir e expressar sobre sua perda.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Quais s\u00e3o as principais dificuldades que as pessoas enfrentam ao tentar ressignificar uma perda?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Com certeza a press\u00e3o social para superar rapidamente o luto. Temos uma cultura que valoriza a produtividade e o controle das emo\u00e7\u00f5es, o que faz com que muitas pessoas sintam que n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para viver sua dor com autenticidade. Al\u00e9m disso, a falta de espa\u00e7os seguros para expressar o sofrimento e de uma rede de apoio emp\u00e1tica tornam o processo ainda mais solit\u00e1rio. Ressignificar uma perda exige tempo, acolhimento e a possibilidade de reconstruir v\u00ednculos simb\u00f3licos com quem partiu.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; \u00c9 comum ouvirmos a express\u00e3o \u201co amor que fica\u201d mesmo quando algu\u00e9m parte. Como podemos manter esse v\u00ednculo sem que ele se transforme em sofrimento?<\/strong><\/p>\n<p>MB: Essa express\u00e3o traduz bem a ideia de que o v\u00ednculo com quem partiu n\u00e3o se desfaz com a morte. Esse sentimento pode continuar existindo de forma simb\u00f3lica, por meio de mem\u00f3rias, rituais, gestos cotidianos, ou at\u00e9 em escolhas que a pessoa enlutada passa a fazer inspirada por quem se foi. Para que esse v\u00ednculo n\u00e3o se transforme em sofrimento constante, \u00e9 importante permitir que ele evolua: sair da dor aguda da aus\u00eancia e encontrar formas saud\u00e1veis de integrar a lembran\u00e7a \u00e0 vida que continua. O amor que permanece pode ser fonte de for\u00e7a, saudade e significado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marianne Branquinho \u00e9 psic\u00f3loga cl\u00ednica e especialista em luto. Em 2015, pouco depois de concluir a gradua\u00e7\u00e3o, passou pela perda do pai e, sem nem esperar, esteve diante de algo que ela nunca havia sentido t\u00e3o presente, a morte. 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