{"id":191,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-14"},"modified":"2026-04-24T19:53:45","modified_gmt":"2026-04-24T22:53:45","slug":"naquela-mesa-esta-faltando-ele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=191","title":{"rendered":"Naquela mesa est\u00e1 faltando ele"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Uma carta aberta ao meu pai Celso<\/strong><\/h2>\n<p>Desde dezembro de 2011 n\u00e3o teve um dia se quer em que n\u00e3o pensei em voc\u00ea, papai. S\u00e3o nas coisas mais comuns do cotidiano que, de alguma maneira, voc\u00ea se faz presente. Eu o sinto, o vejo, o percebo e o procuro em diferentes circunst\u00e2ncias, porque os poucos, mais muito bem vividos nove anos de vida em que tive sua presen\u00e7a f\u00edsica foram t\u00e3o marcantes, que eu nunca aprendi a conviver com essa aus\u00eancia, mesmo ap\u00f3s tantos anos. J\u00e1 s\u00e3o quase 14 anos para ser mais exata. Eu era s\u00f3 uma menina, completamente louca e apaixonada por voc\u00ea, e voc\u00ea me deixou. Voc\u00ea foi arrancado da minha vida e eu n\u00e3o tive nem a chance de me despedir. Mas h\u00e1 quem diga que na medida em que o tempo vai passando, o luto vai abrindo espa\u00e7o para sentimentos mais leves e aceit\u00e1veis. Eu n\u00e3o concordo com isso. A dor n\u00e3o muda, ela n\u00e3o se transforma e n\u00e3o vai embora. Ela continua a mesma, mas a gente que precisa reconstruir nossa vida em torno daquela mesma dor. Tanto \u00e9 que, por muitas vezes, eu sinto como se voc\u00ea tivesse partido na noite de ontem, \u00e9 como se eu voltasse no tempo e vivesse mais uma vez o dia 29 de dezembro de 2011. \u00c9 uma dor que sufoca, rasga o peito e me deixa vulner\u00e1vel em meio a solid\u00e3o que toma conta do meu ser. Ela chega, sem nem pedir licen\u00e7a, e faz morada. \u00c9 uma solid\u00e3o angustiante, penetrante e dif\u00edcil de acostumar.<\/p>\n<p>Uma vez eu li que perder um pai ou uma m\u00e3e traz \u00e0 pessoa algumas mudan\u00e7as. A gente ganha um selo de tristeza de \u00f3rf\u00e3o que n\u00e3o desprega da pele por nada, culpa e \u00f4nus da saudade. Eu n\u00e3o poderia concordar mais. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o de desamparo constante e de que parte da minha hist\u00f3ria se foi junto contigo. Isso por muito tempo me fez sentir-me ingrata, porque voc\u00ea se foi, mas mainha ficou. Mesmo sem for\u00e7as, sem dire\u00e7\u00e3o e sem saber como dar continuidade a esta fam\u00edlia, foi ela a nossa fortaleza e \u00e9 ela que nos mant\u00e9m firmes at\u00e9 hoje. No entanto, ela continua sendo somente a minha m\u00e3e, porque o meu pai, o meu painho, eu j\u00e1 n\u00e3o tenho, e nada do que for feito, pode transformar ou amenizar essa aus\u00eancia masculina t\u00e3o visceral.<\/p>\n<p>Em meio a tudo isso, eu preciso te confessar uma coisa, desde que voc\u00ea partiu, criei um h\u00e1bito um tanto quanto curioso em momentos de inseguran\u00e7a: fingir que voc\u00ea est\u00e1 comigo, porque tudo era mais f\u00e1cil com voc\u00ea. De apresenta\u00e7\u00f5es do meu tempo de bailarina at\u00e9 os dias de sufoco para tirar a \u201ccarta\u201d de habilita\u00e7\u00e3o, eu te visualizei em todos os momentos. Parece perturbador, mas de alguma forma isso me deixa mais leve. Eu gosto de pensar em como as coisas seriam diferentes se voc\u00ea ainda estivesse aqui. Por muitas vezes eu fiz questionamentos a Deus, porque para mim n\u00e3o parece justo com tantas pessoas ruins no mundo, um homem t\u00e3o bondoso, parceiro, companheiro e amoroso partir e deixar sua esposa e seus dois filhos, sendo eles uma crian\u00e7a e um adolescente. N\u00e3o me parece certo, sabe? Quem os daria a presen\u00e7a paternal? Quem seria capaz de preencher esse espa\u00e7o de dor no cora\u00e7\u00e3o? E a verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 o que ser feito. S\u00e3o marcas que carrego comigo para todo sempre. N\u00e3o h\u00e1 tempo, terapia, rem\u00e9dios ou qualquer outra ferramenta que seja capaz de mudar. Voc\u00ea conseguiu me dar uma eternidade dentro de nove anos, pai. Hoje eu s\u00f3 tenho as lembran\u00e7as e eu n\u00e3o quero me distanciar delas, quero deixa-las perto, inteiras, vivas e presentes, pois \u00e9 te revisitando em mem\u00f3rias que eu consigo tornar tudo um pouco mais suport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas hoje eu te escrevo n\u00e3o para falar s\u00f3 de tristeza, porque esse substantivo n\u00e3o combinava contigo. Eu quero lembrar de todos os momentos que compartilhamos juntos. Voc\u00ea moldou parte da minha personalidade, e isso \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que j\u00e1 perdi as contas de quantas vezes me compararam a ti. Muito do que sou, \u00e9 por sua causa.<\/p>\n<p>Foi voc\u00ea que me ensinou como viver \u00e9 magn\u00edfico, e tamb\u00e9m como devemos fazer do hoje o melhor dia de nossas vidas. Um homem destemido, corajoso, divertido \u2014 essa era sua maior qualidade \u2014 e capaz de fazer qualquer momento ser grandioso. Sua presen\u00e7a forte e marcante deixou marcas profundas em todos que tiveram o privil\u00e9gio de te conhecer. Mas em mim, aquela menina de cachinhos e sorridente, essa partida tocou em lugares ainda mais delicados.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, quando coloco I don\u2032t wanna talk about it de Rod Stewart eu me tele transporto para os dias em que, juntos, sent\u00e1vamos na \u00e1rea de televis\u00e3o da nossa casa e voc\u00ea me apresentava uma colet\u00e2nea de sucessos internacionais com grandes cl\u00e1ssicos da m\u00fasica como La Isla Bonita, We Are The World, Total Eclipse of The Heart e My Heart Will Go On. Era engra\u00e7ado como em uma fra\u00e7\u00e3o de minutos passe\u00e1vamos disso para um grande cl\u00e1ssico da m\u00fasica brasileira, sobretudo nordestina: Calcinha Preta. Acho que isso era uma das coisas que te fazia \u00fanico, a capacidade de transitar em diferentes grupos, perfis e estere\u00f3tipos. Voc\u00ea era querido por todos que te conheciam e eu n\u00e3o exagero quando digo isso, porque n\u00e3o s\u00e3o declara\u00e7\u00f5es minhas, mas daqueles que falam de voc\u00ea para mim sempre que os encontro. Todo mundo tem uma hist\u00f3ria incr\u00edvel ao teu lado e isso \u00e9 um dos meus grandes confortos: saber que voc\u00ea foi essencial em vida. Para mim, foi pouco, mas na verdade eu gosto de acreditar que vivesse tempo suficiente para se tornar inesquec\u00edvel. Foram os anos necess\u00e1rios para que voc\u00ea viesse, desse seu show e retornasse para a vida eterna. Como uma estrela cadente, que realiza sonhos, traz felicidade e euforia. Voc\u00ea foi isso.<\/p>\n<p>Existem dias que me pego pensando o que voc\u00ea diria para mim, o que voc\u00ea me ensinaria, os lugares que conhecer\u00edamos&#8230; muita coisa mudou por aqui, acredita? Mainha aprendeu a sacar dinheiro no banco; J\u00falio est\u00e1 trabalhando na Usina, assim como voc\u00ea e eu estou namorando. Conheci um homem incr\u00edvel, que me apoia, incentiva e que todos os dias conversamos sobre como a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas dois seria especial. Mas teve algumas outras coisas que n\u00e3o mudaram: o amor que sentimentos por voc\u00ea, o lugar que ocupas e o que representas para todos n\u00f3s. Isso, nada e nem ningu\u00e9m pode nos tomar. Eu te amo para todo sempre, painho. Naquela mesa continua faltando voc\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma carta aberta ao meu pai Celso<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":390,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historias-de-amor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=191"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":391,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions\/391"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}