{"id":193,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-16"},"modified":"2026-04-24T13:24:01","modified_gmt":"2026-04-24T16:24:01","slug":"caluda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=193","title":{"rendered":"Caluda"},"content":{"rendered":"<p>Julia Bento do Nascimento, uma mulher vinda da cidade de Taquaritinga, no interior de S\u00e3o Paulo, foi v\u00edtima de viol\u00eancia contra seus direitos. Teve a alfabetiza\u00e7\u00e3o, seu entendimento de si pr\u00f3pria como indiv\u00edduo na sociedade, negado pelo patriarca de sua fam\u00edlia, horrorizado diante dos livros de geografia e hist\u00f3ria na posse da filha por terem a capacidade de elucidar a percep\u00e7\u00e3o da jovem quanto a suas aptid\u00f5es para al\u00e9m da sombria ilus\u00e3o de apenas servir como uma dona de casa.<\/p>\n<p>Em 1937, com apenas 17 anos de idade, Julia veio sozinha ao Recife, sem saber nada e sem conhecer nada, em busca de trabalho. Acabou por encontrar emprego em uma f\u00e1brica na Macaxeira, onde conheceu seu marido, Jos\u00e9 Laurentino do Nascimento, de falsa natureza doce, que aguardou apenas aprision\u00e1-la com o grilh\u00e3o em forma de alian\u00e7a para ent\u00e3o exercer seu papel de algoz e faz\u00ea-la passar por in\u00fameras formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-342\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/antonio-11-tratada-199x300.jpg\" alt=\"\" width=\"199\" height=\"300\" \/>Ela, como muitas outras mulheres, se via for\u00e7ada a permanecer em um relacionamento abusivo. A sociedade esperava dela, como esposa, total obedi\u00eancia ao seu marido, o div\u00f3rcio sendo, at\u00e9 hoje, visto com maus olhos. Sua fam\u00edlia, primeira a ensinar-lhe esse ideal maldito, em vergonha a rejeitaria por ter fracassado em seu \u201cpapel\u201d como mulher domesticada. N\u00e3o importa o que ela fizesse, entre escolher diferentes formas de viol\u00eancia n\u00e3o h\u00e1 escolha real.<\/p>\n<p>Junto de seu agressor, foi morar no alto da loira, no Brejo da Guabiraba, onde cresceram seus sete filhos, que consistiam em tr\u00eas homens e quatro mulheres. Sem o aux\u00edlio de e seu marido, ela teve de lutar sozinha para cuidar de suas crian\u00e7as, trabalhando incansavelmente, noite e dia, na m\u00e1quina de costura, mesmo passando fome, para conseguir dar o que comer a eles.<\/p>\n<p>Entre eles havia a pequena Ana Cl\u00e1udia, uma jovem com uma defici\u00eancia f\u00edsica que, embora o esfor\u00e7o incessante da m\u00e3e, por boa parte de sua inf\u00e2ncia n\u00e3o teve meios para se adquirir uma cadeira de rodas por se encontrar em uma posi\u00e7\u00e3o financeira muito prec\u00e1ria, precisando se locomover atrav\u00e9s do uso de uma bola de pilates, que mais tarde seria trocada por um triciclo.<\/p>\n<p>Mesmo crescendo em um ambiente hostil e opressor, testemunhando as agress\u00f5es f\u00edsicas diariamente sofridas por sua m\u00e3e e escutando coment\u00e1rios alheios que a reduziam a um fardo sobre os ombros da fam\u00edlia, Cl\u00e1udia foi uma menina de g\u00eanio forte, n\u00e3o permitindo com que a viol\u00eancia do mundo a impedisse de brincar e dan\u00e7ar de seu jeito.<\/p>\n<p>No entanto, aos oito anos de idade, lhe foi imposta a mesma viol\u00eancia sofrida pela m\u00e3e, sua alfabetiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m lhe sendo negada, precisando ser retirada da escola por falta de acessibilidade na ladeira entre o morro onde ela morava e a institui\u00e7\u00e3o de ensino onde estudava. Isso fez com que Ana Cl\u00e1udia sentisse uma inadequa\u00e7\u00e3o quanto a ela mesma, questionando o motivo por ela n\u00e3o \u201cmerecer\u201d estudar como as outras crian\u00e7as, ideia essa que sua irm\u00e3, Maria do Carmo, n\u00e3o aceitaria.<\/p>\n<p>Maria, conhecida como \u201cCarminha\u201d, sempre foi uma mulher com miolos na cabe\u00e7a e um cora\u00e7\u00e3o forte batendo no peito, trabalhando incansavelmente para melhorar a sua vida e a daqueles que ela amava, especialmente Cl\u00e1udia, apelidada carinhosamente de \u201cCaluda\u201d por ela. Desde cedo demonstrava uma preocupa\u00e7\u00e3o com os estudos da irm\u00e3, indo al\u00e9m para garantir sua alfabetiza\u00e7\u00e3o, contratando uma tutora particular com seu dinheiro suado.<\/p>\n<p>Ao completar quinze anos, Caluda, depois de muita luta, finalmente conseguiu adquirir a cadeira de rodas, algo que, embora necess\u00e1rio, abalou por completo sua percep\u00e7\u00e3o de si. Agora, sim, ela passou a se enxergar como uma deficiente. Isso e a impossibilidade de estudar fizeram com que ela passasse a conceder falsa veracidade aos coment\u00e1rios que ouvia desde crian\u00e7a, que a categorizavam como um fardo, indigna de viver dentro da sociedade junto das outras pessoas.<\/p>\n<p>Carminha n\u00e3o permitiu com que a sociedade fizesse sua irm\u00e3 pensar menos de si mesma, tal qual fizeram com sua m\u00e3e, e argumentou a Caluda que a cadeira de rodas n\u00e3o era obst\u00e1culo, que aquela crian\u00e7a alegre e sabida ainda estava l\u00e1, persistindo mesmo em meio a tanta adversidade. Ela n\u00e3o podia desistir de lutar para continuar estudando, porque somente a educa\u00e7\u00e3o as libertaria de toda aquela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Caluda levou isso para o cora\u00e7\u00e3o, se esfor\u00e7ando cada vez mais em seus estudos e n\u00e3o permitindo com que ningu\u00e9m a diminu\u00edsse por conta de sua condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Inspirada em sua irm\u00e3, ela sonhava em cursar Direito na faculdade como uma forma de ajudar aqueles como ela a lutar por seus direitos, determinada a ajudar e a provar o potencial no qual Carminha sempre acreditou.<\/p>\n<p>Infelizmente, Maria do Carmo veio a falecer repentinamente com 27 anos por conta de um infarto fulminante, assim cortando o acesso de Caluda ao tutor particular que a auxiliava. O luto causado pela perda de sua irm\u00e3, a responsabilidade de agora ser a \u00fanica de seus irm\u00e3os a estarem dispostos a cuidar de sua m\u00e3e e a inacessibilidade de terminar seus estudos fez com que Ana Cl\u00e1udia, agora sem o seu maior suporte, ca\u00edsse em uma profunda depress\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, Wyllyams do Nascimento, seu sobrinho, quase como influenciado por Carminha em esp\u00edrito, n\u00e3o a permitiu desistir de seus sonhos, a incentivando a ir atr\u00e1s de seus direitos atrav\u00e9s de um estudo independente pela internet, a matriculando em um curso de inform\u00e1tica. Assim, sendo carregada de cima a baixo todos os dias pelo sobrinho, Caluda foi se informando quanto aos seus direitos, motivada pelas palavras da irm\u00e3 que pairam na eternidade.<\/p>\n<p>Por meio desse estudo independente, chegou ao conhecimento de Caluda o direito a um Transporte Escolar Inclusivo, um servi\u00e7o oferecido pelo poder p\u00fablico que visa garantir um meio de transporte aos estudantes com defici\u00eancia para lev\u00e1-los a escola. Mesmo assim, o ve\u00edculo providenciado pela prefeitura n\u00e3o era capaz de subir o morro, fazendo com que ela precisasse ser carregada 50 degraus nos bra\u00e7os de um vizinho at\u00e9 o local onde a van estava estacionada. Depois de muito esfor\u00e7o e luta, ela conseguiu terminar o fundamental aos 35 anos de idade.<\/p>\n<p>No entanto, ao tentar ingressar no ensino m\u00e9dio, o governo lhe negou o transporte at\u00e9 a escola, com o pretexto de que o ve\u00edculo designado a essa tarefa, embora conseguisse subir, n\u00e3o conseguia descer o morro. Caluda sabia que o transporte inclusivo tinha a obriga\u00e7\u00e3o de buscar o aluno em sua resid\u00eancia para lev\u00e1-lo diretamente \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de ensino, independente das barreiras de acesso e a dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o. Ou seja, se a van n\u00e3o conseguia efetuar a tarefa, a prefeitura tinha a obriga\u00e7\u00e3o de providenciar um ve\u00edculo mais capacitado.<\/p>\n<p>Aconselhada por uma amiga trans, acostumada a enfrentar a viol\u00eancia da sociedade e a lutar por seus direitos, Caluda se matriculou na escola Tom\u00e9 Gibson, onde a diretora era uma conhecida, como forma de pressionar o governo enquanto entrava com um processo no Minist\u00e9rio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Levou tr\u00eas meses para que a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o providenciasse um carro particular, mas, atrav\u00e9s de muita luta, Ana Cl\u00e1udia conseguiu finalizar o ensino m\u00e9dio aos 48 anos de idade.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo, o irm\u00e3o mais velho de Caluda mostrava ter herdado o temperamento e o alcoolismo do pai, muitas vezes agredindo e amea\u00e7ando seus irm\u00e3os em surtos de raiva. Durante 27 anos ela suportou o abuso, sempre desencorajada pelos parentes a fazer a den\u00fancia, mas a situa\u00e7\u00e3o se tornou insuport\u00e1vel. Durante um epis\u00f3dio envolvendo a sua irm\u00e3, Cl\u00e1udia foi at\u00e9 a Delegacia da Mulher, onde conseguiu denunciar seu agressor.<\/p>\n<p>Depois do ocorrido, foi procurar aux\u00edlio no Centro de Refer\u00eancia Clarice Lispector, onde se acolhe e orienta mulheres em situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica e\/ou sexista. L\u00e1, teve acesso a um o atendimento gratuito de uma equipe multidisciplinar de psic\u00f3logas, assistentes sociais, advogadas e educadoras sociais, com os casos sendo acompanhados pela rede municipal de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. O Centro ainda disp\u00f5e de\u202fespa\u00e7o para o abrigamento emergencial de usu\u00e1rias em atendimento, acompanhadas ou n\u00e3o de filhos.<\/p>\n<p>Foi no Clarice Lispector que ela recebeu a oportunidade de ingressar em uma universidade atrav\u00e9s de uma bolsa. Agora Ana Cl\u00e1udia, Caluda, \u00e9 uma estudante universit\u00e1ria no segundo per\u00edodo do curso de Gest\u00e3o da Tecnologia na Uninassau e trabalha na multinacional Accenture, uma empresa de consultoria de gest\u00e3o e tecnologia da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o seguindo a carreira no Direito, Caluda, muito inspirada em sua m\u00e3e e em Carminha, ainda luta em prol dos direitos humanos, participando de palestras sobre agress\u00e3o dom\u00e9stica no Instituto Maria da Penha (IMP), uma organiza\u00e7\u00e3o que funciona como um bra\u00e7o da entidade nacional, buscando apoiar a\u00e7\u00f5es voltadas para a qualidade de vida da mulher e para a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es de g\u00eanero e viol\u00eancia sexista.<\/p>\n<p>Ana Cl\u00e1udia \u00e9 uma mulher que lutou a vida toda por dignidade, movida por um amor que transcende a morte, eterno, que a move junto de milhares de outras mulheres que enfrentam viol\u00eancias todos os dias, sendo transformadas pelas pol\u00edticas p\u00fablicas pelas quais elas mesmas lutaram.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-345\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Antonio-5_-tratada-1.jpg\" alt=\"\" width=\"827\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Antonio-5_-tratada-1.jpg 827w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Antonio-5_-tratada-1-480x360.jpg 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 827px, 100vw\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julia Bento do Nascimento, uma mulher vinda da cidade de Taquaritinga, no interior de S\u00e3o Paulo, foi v\u00edtima de viol\u00eancia contra seus direitos. 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