{"id":194,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-17"},"modified":"2026-04-24T13:24:53","modified_gmt":"2026-04-24T16:24:53","slug":"o-que-estamos-dispostos-a-fazer-para-nos-encontramos-dentro-de-um-relacionamento-amoroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=194","title":{"rendered":"\u201cO que estamos dispostos a fazer para nos encontramos dentro de um relacionamento amoroso? \u201c"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Entrevista com Dra. Camila Cardoso Borges &#8211; Psic\u00f3loga Cl\u00ednica especializada em comportamentos compulsivos<\/strong><\/h2>\n<p><strong>O Berro &#8211; Por muito tempo relacionamentos rom\u00e2nticos eram vistos como mandat\u00f3rios para a felicidade humana. Como a psicologia moderna enxerga essa suposta necessidade?<\/strong><\/p>\n<p>Camila Cardoso Borges: A psicologia atualmente entende a necessidade de se buscar nosso autoconhecimento e, a partir desse entendimento sobre o que queremos, alcan\u00e7ar uma satisfa\u00e7\u00e3o dentro de n\u00f3s mesmos, n\u00e3o necessitando, assim, de uma rela\u00e7\u00e3o amorosa para nos sentirmos completos. Al\u00e9m disso, a busca pelo autoamor precisa acontecer antes de se come\u00e7ar a buscar pelo amor vindo do outro, pois s\u00f3 assim, ao entendermos aquilo que nos traz felicidade, podemos adquirir uma probabilidade maior de se construir um relacionamento saud\u00e1vel. Sem isso, podemos acabar por permitir com que passem por cima de alguns princ\u00edpios que s\u00e3o essenciais para nossa identidade como indiv\u00edduos, como o respeito aos pr\u00f3prios limites, o que torna o amor-pr\u00f3prio imprescind\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Com a idealiza\u00e7\u00e3o do amor imposta pela sociedade, fica cada vez mais dif\u00edcil de se firmar um relacionamento, quanto mais um saud\u00e1vel. Com isso em mente, gostaria de saber sua vis\u00e3o sobre como isso nos afeta.<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Acredito que, cada vez mais, ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o de que temos uma obriga\u00e7\u00e3o de fazer parte de um relacionamento rom\u00e2ntico, e na maioria das vezes podemos nos colocar em situa\u00e7\u00f5es muito problem\u00e1ticas por causa disso. Ou seja, o que estamos dispostos a fazer para nos encontramos dentro de um relacionamento amoroso? Se faz de suma import\u00e2ncia refletir ao nos relacionarmos se estamos o fazendo por sentirmos um amor de propor\u00e7\u00f5es extremas ao ponto de querermos ficar ao lado de uma pessoa que nos \u00e9 especial ou se apenas buscamos o al\u00edvio de ter comprido uma exig\u00eancia imposta pela sociedade. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que, pela ansiedade da contemporaneidade e o desespero para fugir de si mesmo atrav\u00e9s da companhia do outro, acabamos por fazer vista grossa para essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Quais podem ser as consequ\u00eancias de permanecer em um relacionamento infeliz?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Traumas dos mais diversos, o que pode acabar por gerar gatilhos duradouros e, at\u00e9 mesmo, consequ\u00eancias fatais. Tamb\u00e9m vale observar que quanto mais tempo se passa preso dentro de um relacionamento abusivo, mais dif\u00edcil fica de sair pelo fato de a depend\u00eancia emocional ter tido mais espa\u00e7o para se desenvolver. Quando permanecemos em um relacionamento infeliz, agarrados a uma mem\u00f3ria agrad\u00e1vel daquela fase que j\u00e1 se foi na rela\u00e7\u00e3o, acabamos por perder as possibilidades de viver outras coisas muito melhores, mais alinhadas e saud\u00e1veis. Quando n\u00e3o cultivamos o autoconhecimento e nos encontramos infelizes em uma rela\u00e7\u00e3o, podemos acabar por perder a vista daquilo que nos faz quem somos, e nunca devemos fazer isso, porque, afinal de contas, no final somos n\u00f3s por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Quais podem ser as consequ\u00eancias de ser incapaz de firmar relacionamentos?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: N\u00e3o sei se acredito na incapacidade de firmar relacionamentos ou n\u00e3o, mas com certeza vejo que, se isso vira um padr\u00e3o, uma quest\u00e3o existe e isso deve ser analisada mais a fundo. Com o processo terap\u00eautico temos a oportunidade de entender as cren\u00e7as, pensamentos, comportamentos e sentimentos que nos \u00e9 provocado quando se trata de relacionar-se com outra pessoa, assim sendo poss\u00edvel descobrir o que pode ser trabalhado\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Voc\u00ea tem muita experi\u00eancia em lidar com pessoas que demonstram dificuldade em firma relacionamentos saud\u00e1veis e com pessoas que tem dificuldade em sair de relacionamentos problem\u00e1ticos?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Infelizmente, sim. Vejo como sendo algo extremamente comum, tanto nos pacientes que atendo em um contexto terap\u00eautico quanto no conv\u00edvio com as pessoas no dia a dia da minha vida cotidiana. \u00c9 muito triste como algo t\u00e3o terr\u00edvel pode ser interpretado como uma norma, um sintoma de uma sociedade machista, que normaliza atrocidades mesmo quando algo assim n\u00e3o devesse ser lidado com naturalidade. Vejo muito mais pessoas buscando ou se enquadrando numa din\u00e2mica superficial e casual do que em busca algo saud\u00e1vel e duradouro.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Com base em sua experi\u00eancia, saberia determinar, entre homens, mulheres e pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias, quem tende a ser mais afetado com isso? Poderia me fornecer sua vis\u00e3o de porque esse ser o caso?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Mulheres e pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias, com certeza. Por sermos minoria, sofremos muito mais press\u00e3o para nos enquadrarmos. No que diz respeito \u00e0 relacionamento n\u00e3o \u00e9 diferente. Falando no lugar de mulher cis, partindo de meu local de fala, desde novas e desde muito tempo somos ensinadas e estimuladas a servir o homem branco na posi\u00e7\u00e3o de \u2018mulher para casar\u2019, para ser m\u00e3e, para ser \u2018do lar\u2019 e, mesmo que muitos padr\u00f5es estejam sendo reconsiderados e que exista um entendimento melhor sobre nossos direitos como seres humanos, ainda, sim, sofremos as consequ\u00eancias desses pensamentos machistas. Portanto, ficamos suscet\u00edveis a entrar em relacionamentos nem um pouco saud\u00e1veis em nome de cumprir essa \u2018fun\u00e7\u00e3o\u2019, como se tivemos isso como miss\u00e3o na terra, a qual nos dizem que deve ser cumprida custe o que custar.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Conseguiria me fornecer um perfil da pessoa que se encontra nesse dilema? Algum padr\u00e3o que voc\u00ea nota, como trauma ou evento na vida da pessoa que possa tornar dif\u00edcil um t\u00e9rmino, mesmo que necess\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Mulheres vindas de um contexto em que foram criadas com uma educa\u00e7\u00e3o marcada por um intenso conservadorismo tendem a ser mais suscet\u00edveis a essa situa\u00e7\u00e3o, por terem tido essa concep\u00e7\u00e3o sexista muito presente em seu desenvolvimento. Acho que elas acabam por passar por um processo que as faz seguir din\u00e2micas nem um pouco saud\u00e1veis e acabam ultrapassando seus pr\u00f3prios limites em prol desse ideal imagin\u00e1rio que lhes \u00e9 exigido desde cedo pela comunidade em que cresceram.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Al\u00e9m de, claro, buscar ajuda profissional, o que pode ser feito para auxiliar pessoas presas em um relacionamento dif\u00edcil?<\/strong><\/p>\n<p>CCB: Ao vivermos em uma sociedade que nos imp\u00f5e expectativas quanto ao que devemos ser, se torna necess\u00e1rio um esfor\u00e7o dobrado para firmarmos nossa identidade atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de uma rede de apoio com pessoas de confian\u00e7a e fazendo as coisas que amamos, para assim encontrarmos n\u00facleos de uma personalidade pela qual podemos encontrar aquilo que nos torna quem somos e nos fortalece para tomarmos decis\u00f5es em prol de nosso bem-estar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Dra. 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