{"id":195,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-18"},"modified":"2026-04-24T13:28:28","modified_gmt":"2026-04-24T16:28:28","slug":"o-amor-do-meu-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=195","title":{"rendered":"O amor do meu amor"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Hist\u00f3rias de quem ama algu\u00e9m 100% dedicado \u00e0 torcida organizada<\/strong><\/h2>\n<p>Amar algu\u00e9m que vive por um time de futebol \u00e9 viver entre tambores e bandeiras, entre domingos de est\u00e1dio e noites de reuni\u00e3o da torcida. \u00c9 conviver com o ritmo acelerado das baterias, as viagens em caravanas, os calend\u00e1rios dos campeonatos marcando os dias mais importantes do ano. Em algumas rela\u00e7\u00f5es, o futebol \u00e9 apenas um detalhe. Em outras, ele \u00e9 o pr\u00f3prio pano de fundo da hist\u00f3ria de amor. E, em alguns casos, o protagonista.<\/p>\n<p>Entre amor e arquibancada, h\u00e1 quem encontre um jeito de fazer tudo isso coexistir. Esta mat\u00e9ria conta a hist\u00f3ria de pessoas que amam \u2014 e s\u00e3o amadas por \u2014 integrantes de torcidas organizadas. Um amor que, apesar dos ru\u00eddos do est\u00e1dio, encontra um jeito de ser ouvido.<\/p>\n<p>Anderson Isolino, ou Cinho, como \u00e9 popularmente conhecido, n\u00e3o foi s\u00f3 mais um torcedor fan\u00e1tico. Ele foi presidente da Fan\u00e1utico, uma das principais torcidas organizadas do Clube N\u00e1utico Capibaribe, em Recife. Durante anos, sua vida girava em torno do time: reuni\u00f5es semanais, caravanas pelo Nordeste, confec\u00e7\u00e3o de faixas, organiza\u00e7\u00e3o de baterias e confrontos. Uma paix\u00e3o intensa, muitas vezes incompreendida por quem n\u00e3o vive o universo da arquibancada.<\/p>\n<p>Foi em uma dessas arquibancadas, em um jogo decisivo, que ele conheceu M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>\u201cEla estava com um grupo de amigas, meio deslocada, mas sempre tava l\u00e1 pelos Aflitos, sempre via ela. Sabia todas as m\u00fasicas da FAN (Fan\u00e1utico), a\u00ed n\u00e3o tem como n\u00e3o se apaixonar n\u00e9? (risos)\u201d relembra ele, com o brilho nost\u00e1lgico nos olhos.<\/p>\n<p>M\u00e1rcia confessa que, no come\u00e7o, achou tudo aquilo exagerado. \u201cEu via a paix\u00e3o dele e pensava: ser\u00e1 que tem espa\u00e7o pra mim nisso tudo?\u201d, conta. O namoro come\u00e7ou aos poucos, com encontros marcados entre um treino e outro, e conversas interrompidas por liga\u00e7\u00f5es da torcida.<\/p>\n<p>O relacionamento enfrentou altos e baixos, especialmente nos anos em que Anderson precisou se dedicar quase integralmente \u00e0 Fan\u00e1utico. \u201c\u00c0s vezes ele passava mais tempo com a torcida do que comigo. Eu me sentia como a segunda op\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que eu entendia, at\u00e9 porque sempre frequentei est\u00e1dios e torcida organizadas, conhecia muita gente do meio, mas era muito dif\u00edcil pra mim tentar ser compreensiva mas tamb\u00e9m exigir meu espa\u00e7o\u201d, revela M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Mas o que poderia ser motivo de separa\u00e7\u00e3o, tornou-se o elo da rela\u00e7\u00e3o. M\u00e1rcia decidiu se aproximar mais do universo do marido, entender suas raz\u00f5es, participar de algumas atividades, at\u00e9 porque ela j\u00e1 era familiarizada com o funcionamento e din\u00e2mica de algumas coisas. Hoje, eles t\u00eam dois filhos e, mesmo que Anderson tenha deixado a presid\u00eancia da Fan\u00e1utico, o amor pelo clube e pela torcida segue firme. Assim como o casamento.<\/p>\n<p>Mas mais desafiador ainda, \u00e9 para algu\u00e9m que n\u00e3o fazia ideia do que \u00e9 uma torcida organizada e nem como esse universo funciona. Renato \u00e9 um dos bateristas mais conhecidos da Torcida Jovem do Sport Club do Recife. A batida \u00e9 o que embala suas semanas, seus sonhos, sua rotina. Foi tamb\u00e9m o motivo de in\u00fameras discuss\u00f5es com sua esposa, Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>\u201cQuando a gente come\u00e7ou a namorar, eu n\u00e3o fazia ideia do que era uma torcida organizada. Achava que era s\u00f3 ir ao est\u00e1dio e pronto. Mas vi que \u00e9 uma vida paralela, algo que teria que ser dividido comigo de alguma forma, n\u00e3o entendi de uma boa forma no in\u00edcio\u201d, diz Cl\u00e1udia.<\/p>\n<p>Renato, por sua vez, nunca pensou em abandonar a torcida.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como uma fam\u00edlia. \u00c9 um compromisso. A turma se re\u00fane, cria projetos sociais, organiza viagens. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 futebol, \u00e9 cultura de periferia, \u00e9 amor\u201d, explica.<\/p>\n<p>O ponto de virada veio quando Cl\u00e1udia resolveu colocar limites. \u201cEu disse: \u2018Renato, n\u00e3o d\u00e1 pra viver s\u00f3 de torcida. Quero construir algo com voc\u00ea\u2019. Foi um choque pra ele, confesso que de in\u00edcio achei que seria o fim da gente, porque n\u00e3o imaginava que ele acataria esse tipo de mudan\u00e7a\u201d, lembra.<\/p>\n<p>O casal passou por um per\u00edodo dif\u00edcil, quase se separou. Mas encontraram uma f\u00f3rmula: combinaram dias sagrados para eles, independente da agenda do clube, e aprenderam a negociar. Cl\u00e1udia passou a frequentar alguns jogos. Renato reduziu o tempo nas reuni\u00f5es da torcida.<\/p>\n<p>Hoje, eles celebram 8 anos de uni\u00e3o. \u201cA torcida me deu identidade, mas ainda bem que Cl\u00e1udia que me deu um equil\u00edbrio\u201d, resume Renato.<\/p>\n<p>Para entender como essa conviv\u00eancia pode ser t\u00e3o intensa, e ao mesmo tempo t\u00e3o conflituosa, conversamos com o psic\u00f3logo Carlos Brito, especialista em comportamento social. Carlos explica que torcidas organizadas funcionam como estruturas de pertencimento muito fortes. \u201cO indiv\u00edduo n\u00e3o se v\u00ea apenas como algu\u00e9m que torce para um time, ele se v\u00ea como parte de uma comunidade. H\u00e1 regras, hierarquias, rituais, e isso tudo molda a identidade da pessoa\u201d, aponta. O desafio, segundo ele, surge quando essa identidade \u00e9 t\u00e3o forte que amea\u00e7a outras dimens\u00f5es da vida, como o relacionamento amoroso. \u201cMuitos parceiros e parceiras sentem que competem com o clube, com a torcida, e isso pode gerar um sentimento de rejei\u00e7\u00e3o.\u201d Mas Carlos tamb\u00e9m destaca o lado positivo: \u201cO amor, quando h\u00e1 di\u00e1logo e respeito, pode encontrar espa\u00e7o at\u00e9 nos contextos mais extremos. J\u00e1 vi casais que transformaram essa diferen\u00e7a em uma ponte, n\u00e3o em um muro.\u201d Para ele, o segredo est\u00e1 na escuta ativa. \u201c\u00c9 preciso compreender o que representa essa paix\u00e3o para o outro. E, ao mesmo tempo, \u00e9 preciso fazer com que o outro compreenda os impactos disso na rela\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Em tempos onde o futebol tamb\u00e9m \u00e9 palco de viol\u00eancia, exclus\u00e3o e rivalidade, hist\u00f3rias como essas nos lembram que a arquibancada pode ser, sim, um lugar de encontro. Que \u00e9 poss\u00edvel amar intensamente um clube sem deixar de amar e cuidar de quem est\u00e1 ao nosso lado. A vida de quem ama um torcedor organizado n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. H\u00e1 ci\u00fames, dist\u00e2ncia, medo e, \u00e0s vezes, solid\u00e3o. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m risos, cumplicidade, orgulho e festa. \u00c9 preciso coragem para amar algu\u00e9m que se entrega tanto a algo que n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea. Mas, como mostram Anderson, M\u00e1rcia, Renato e Cl\u00e1udia, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel construir um relacionamento onde o amor pelo time n\u00e3o anula o amor pelo outro, apenas exige mais jogo de cintura e o mesmo n\u00edvel de dedica\u00e7\u00e3o, tanto no jogo, como no amor, para a\u00ed sim, se ter sorte nos dois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3rias de quem ama algu\u00e9m 100% dedicado \u00e0 torcida organizada<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-195","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-historias-de-amor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/195","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=195"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/195\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":351,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/195\/revisions\/351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=195"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=195"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=195"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}