{"id":196,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-19"},"modified":"2026-04-24T19:58:51","modified_gmt":"2026-04-24T22:58:51","slug":"o-coracao-do-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=196","title":{"rendered":"O cora\u00e7\u00e3o do jogo"},"content":{"rendered":"<h2><strong>A paix\u00e3o entre torcedores e clube: um la\u00e7o al\u00e9m das quatro linhas<\/strong><\/h2>\n<p>Existe algo no futebol que escapa da compreens\u00e3o racional. Uma conex\u00e3o silenciosa, intensa, quase instintiva &#8211; visceral. \u00c9 um amor que explode nos gritos da torcida, na persist\u00eancia da esperan\u00e7a at\u00e9 o \u00faltimo instante, nas tatuagens que adornam a pele, nas promessas feitas no calor do momento. N\u00e3o h\u00e1 uma raz\u00e3o cient\u00edfica para explicar o choro diante de uma derrota, ou o sacrif\u00edcio do \u00faltimo centavo para ver o time jogar. Talvez a resposta esteja no princ\u00edpio: a liga\u00e7\u00e3o entre torcedores e clubes transcende o campo de jogo.<\/p>\n<p>Antigamente, o futebol refletia diretamente a identidade das comunidades. Os torcedores n\u00e3o eram meros espectadores, mas sim uma extens\u00e3o viva de seus clubes. N\u00e3o que isso tenha sido deixado de lado, mas com a evolu\u00e7\u00e3o profissional e a globaliza\u00e7\u00e3o, o esporte se tornou uma ind\u00fastria multibilion\u00e1ria. Os clubes viraram marcas, os jogadores celebridades mundiais, os est\u00e1dios, palcos comerciais. A paix\u00e3o, no entanto, permaneceu. Resiliente. E muitas vezes, surpreendentemente, ainda mais intensa.<\/p>\n<p>\u201cMinha liga\u00e7\u00e3o com o Esporte Clube Vit\u00f3ria (ECV) \u00e9 familiar, minha fam\u00edlia toda \u00e9 Vit\u00f3ria. Ir ao Barrad\u00e3o era estar com meu av\u00f4 o dia todo\u201d, conta Leonardo Santiago, baiano de 30 anos, com a voz carregada de nostalgia. O Vit\u00f3ria, para ele, \u00e9 mais que um clube: \u00e9 mem\u00f3ria afetiva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-392\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto04_carlos_tratada.png\" alt=\"\" width=\"827\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto04_carlos_tratada.png 827w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto04_carlos_tratada-480x290.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) 827px, 100vw\" \/><\/p>\n<p>\u201cOs anos de 2006 e 2007 me marcaram por causa dos jogos da S\u00e9rie C (2006) e o acesso para a S\u00e9rie A em 2007, na campanha da S\u00e9rie B que me apeguei muito. Tinha 12 anos e era incr\u00edvel a magia do est\u00e1dio vendo Apodi batendo e voltando de uma ponta a outra do campo em quest\u00e3o de segundos, com Bida, \u00cdndio e Jo\u00e3ozinho jogando juntos.\u201d<\/p>\n<p>O que torna essas hist\u00f3rias ainda mais singulares \u00e9 como o futebol se mistura ao cotidiano. Jogos que viram rituais, vit\u00f3rias que se tornam marcos pessoais, derrotas que deixam cicatrizes t\u00e3o reais quanto as da vida. Leonardo n\u00e3o menciona s\u00f3 jogadores, ele revive sensa\u00e7\u00f5es, respiros e sons. \u201cO que fortalece meu amor pelo Vit\u00f3ria \u00e9 o ambiente ao redor. A representatividade de com quem convivo \u00e9 muito grande.\u201d<\/p>\n<p>Esse entorno chegou de outra forma para definir a hist\u00f3ria de Inaldo Cordeiro, torcedor apaixonado do Sport Club do Recife (SCR). Nascido em Salgadinho, no interior de Pernambuco, ele conta que seus pais nunca se interessaram por futebol. O av\u00f4, por sinal, era torcedor do Santa Cruz. Mesmo assim, algo inexplic\u00e1vel o fez torcer pelo Sport desde muito novo. &#8220;Por minha causa, hoje, meus pais tamb\u00e9m s\u00e3o rubro-negros&#8221;, diz, com orgulho.<\/p>\n<p>Como esse amor surgiu? Bem, tem explica\u00e7\u00e3o! \u201cAssistia TV na parab\u00f3lica e via muitos jogos do Flamengo, mas n\u00e3o conseguia criar identifica\u00e7\u00e3o com um time t\u00e3o distante. Nisso, acredito que, implicitamente, pelas cores serem as mesmas, fui condicionado a torcer pelo Sport.\u201d Se faltava pertencimento, foi ent\u00e3o que o tamb\u00e9m rubro-negro, mas do seu estado natal, entrou em cena \u2014 e nunca mais saiu.<\/p>\n<p>A primeira forte lembran\u00e7a que Inaldo guarda do Le\u00e3o \u00e9 de 2005, numa decis\u00e3o do campeonato estadual contra o Santa Cruz. &#8220;Naquela partida decisiva, eles estiveram a um p\u00eanalti de serem campe\u00f5es, mas nosso goleiro defendeu e n\u00f3s viramos a disputa.&#8221; Essa vit\u00f3ria, mesmo distante, permanece n\u00edtida em sua mente, como se tivesse acontecido ontem.<\/p>\n<p>Quando se mudou para a capital para cursar Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, o objetivo era trabalhar com futebol, visando ficar ainda mais perto do Sport. No caminho, se deparou com uma porta estreita. \u201cHoje sou personal trainer e agrade\u00e7o! Nada paga estar na arquibancada torcendo pelo meu time.\u201d<\/p>\n<p>Dire\u00e7\u00e3o que possibilitou Inaldo viver momentos a flor da pele na calorosa Ilha do Retiro, est\u00e1dio o qual nem conhecia os acessos, mas logo virou sua casa.<\/p>\n<p>O primeiro jogo que esteve presente foi um cl\u00e1ssico regional: Sport x Bahia, pela S\u00e9rie A. Um vizinho o levou, e ele se encantou. Depois, na faculdade, fez amizade com um torcedor ainda mais fan\u00e1tico, que o guiou nos caminhos do torcedor raiz: como comprar ingresso e onde garantir meia-entrada. A paix\u00e3o ganhou estrutura \u2014 e rotina.<\/p>\n<p>Passou a ir a todos os jogos que podia. Sozinho, com amigos ou com a namorada. Ali\u00e1s, quando ela foi morar com ele, acabou sendo envolvida pela atmosfera rubro-negra. O primeiro jogo juntos foi uma verdadeira montanha-russa de emo\u00e7\u00f5es, como ele mesmo descreveu: \u201cLevei para Sport e Atl\u00e9tico Mineiro. Come\u00e7amos perdendo por 4 a 2, o \u00e1rbitro deu dois p\u00eanaltis para eles. Tentei ficar contido para n\u00e3o assustar ela. No segundo tempo, o Sport empatou em 4 a 4 e esqueci que ela estava comigo, sa\u00ed correndo pela arquibancada que nem um \u2018louco\u2019 quando vi o gol do meu grande \u00eddolo dessa gera\u00e7\u00e3o: Diego Souza. Quase ca\u00ed junto com o alambrado, sorte que algu\u00e9m me segurou\u201d, contou sorridente.<\/p>\n<p>Essa n\u00e3o foi a \u00fanica vez em que o futebol o fez esquecer tudo. Em 2017, na \u00faltima rodada do Brasileir\u00e3o, o Sport precisava vencer o Corinthians para evitar o rebaixamento. Ele n\u00e3o tinha dinheiro, mas um amigo conseguiu ingressos num pre\u00e7o acess\u00edvel \u2014 os piores lugares do est\u00e1dio, mas era o que dava. Pediu um adiantamento ao chefe da academia em que trabalhava, pegou a namorada pela m\u00e3o e foi. A Ilha do Retiro estava lotada. A entrada foi ca\u00f3tica: cavalaria, spray de pimenta, empurra-empurra. Inaldo conta que sua namorada chegou a passar mal e desmaiou. Ainda assim, seguiram no est\u00e1dio.<\/p>\n<p>No final, a recompensa: 1 a 0 contra o Corinthians e a perman\u00eancia na S\u00e9rie A. &#8220;Joguei mais uma das tantas cervejas que se foram pelo alto para comemorar o &#8216;gol do fica'&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2008, uma das poucas promessas que fez foi cumprida \u00e0 risca: ficou 30 dias sem jogar videogame para agradecer a conquista da Copa do Brasil. Inaldo diz que foi uma das maiores provas de f\u00e9 que j\u00e1 deu ao time. F\u00e9 essa que tamb\u00e9m o levou ao Morro da Concei\u00e7\u00e3o, perto de onde mora, mesmo sem ser cat\u00f3lico, incont\u00e1veis vezes, sempre com a bandeira rubro-negra nas m\u00e3os, para agradecer ou pedir for\u00e7as. \u201c\u00c9 como religi\u00e3o. Uma raz\u00e3o para viver.\u201d<\/p>\n<p>Entretanto, a paix\u00e3o nem sempre vem de fam\u00edlia ou do lugar onde se vive. \u00c0s vezes, ela surge inesperadamente, como aconteceu com J\u00falio Costa Neto, torcedor da Roma. J\u00falio n\u00e3o herdou o time dos pais. Seu la\u00e7o com o clube italiano nasceu da admira\u00e7\u00e3o que seu tio tinha por Falc\u00e3o, o Rei de Roma. &#8220;Eu n\u00e3o o vi jogar, mas gravei os nomes (Roma e Falc\u00e3o) na mem\u00f3ria&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1990, quando os jogos do Campeonato Italiano come\u00e7aram a ser transmitidos na TV aberta brasileira, J\u00falio come\u00e7ou a assistir. A paix\u00e3o nasceu cresceu, impulsionada por um novo \u00eddolo: Francesco Totti. &#8220;Vi os t\u00edtulos do Campeonato Italiano e da Coppa Italia e criei uma liga\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Essa liga\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o intensa que cruzou o oceano. J\u00falio foi a Roma, assistiu a jogos no est\u00e1dio, na curva sul do Est\u00e1dio Ol\u00edmpico, onde se localiza a organizada romanista. Esteve presente na despedida de Totti, que jogou toda sua carreira pela Roma de 1993 a 2017. Em homenagem, batizou o filho de Gabriel Totti. &#8220;Apesar de meu filho n\u00e3o ser muito ligado em futebol, est\u00e1vamos juntos nesse momento especial e at\u00e9 hoje nos reunimos para assistir \u00e0s partidas.&#8221;<\/p>\n<p>O tempo e as responsabilidades diminu\u00edram um pouco essa rela\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o acabou. Na verdade, ficou marcada por ensinamentos, viv\u00eancias e oportunidades vividas atrav\u00e9s desse amor. &#8220;Tenho amigos romanistas, aprendi o idioma, guardo com carinho alguns objetos que trouxe de l\u00e1, al\u00e9m de algumas camisas do clube.&#8221;<\/p>\n<p>Existe uma beleza singular na paix\u00e3o de J\u00falio. Sua chama de amor foi por uma Roma que, por muito tempo, ocupou posi\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias na tabela, mas acabou o levando para grandes momentos da vida. No mundo real. Sua torcida al\u00e9m das vit\u00f3rias, como uma defesa de um jeito de ser, foi a resist\u00eancia suficiente para ser agraciado pelo tempo.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do futebol em mercadoria e a elitiza\u00e7\u00e3o dos est\u00e1dios ergueram muros entre torcedores e clubes. Ingressos caros afastaram o p\u00fablico, os est\u00e1dios perderam o calor popular. O torcedor, antes parte essencial do espet\u00e1culo, foi marginalizado. No entanto, as redes sociais surgiram como uma liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os jogadores t\u00eam agora a oportunidade de interagir diretamente com os f\u00e3s, mostrando seus sentimentos. Promessas cumpridas em campo, declara\u00e7\u00f5es genu\u00ednas, gestos inesperados \u2014 um abra\u00e7o no final do jogo ou uma camisa dada na arquibancada \u2014 mant\u00eam essa conex\u00e3o. A recusa de Totti em deixar a Roma por ofertas milion\u00e1rias, por exemplo, selou um pacto eterno com a torcida, atitudes que fortalecem o amor.<\/p>\n<p>O desafio persiste: equilibrar o neg\u00f3cio e a emo\u00e7\u00e3o. A ess\u00eancia do futebol n\u00e3o se resume ao lucro. Ela reside nas narrativas das arquibancadas, nas l\u00e1grimas durante o hino, nos abra\u00e7os entre desconhecidos ap\u00f3s um gol. \u00c9 a entrega total que torna o jogo algo sagrado. Como Inaldo resume: &#8220;J\u00e1 discuti com muitos (familiares ou pessoas pr\u00f3ximas) por preferir ver o Sport. \u00c9 inexplic\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>Tatuagens pelo corpo que representam aquele sentimento, nomes de \u00eddolos que marcaram gera\u00e7\u00e3o nos filhos, rituais antes dos jogos e promessas ap\u00f3s eles s\u00e3o provas silenciosas de uma paix\u00e3o atemporal, que desafia dinheiro e l\u00f3gica. Amores j\u00e1 nasceram a partir de um gol e podem durar a vida toda. Cada jogo, mesmo o mais banal, pode se tornar inesquec\u00edvel. Basta ter contexto. Para quem ama, futebol \u00e9 mais que um jogo. Para Leonardo, por exemplo, o Vit\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o importa se \u00e9 no Barrad\u00e3o, na Ilha do Retiro ou no Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de Roma, o amor se mant\u00e9m. Vibrante, intenso, \u00fanico &#8211; cada um do seu jeito. Seria precisamente essa caracter\u00edstica que confere ao futebol sua magia singular? A convic\u00e7\u00e3o \u00e9 de que, camisa carrega uma hist\u00f3ria de amor que transcende o campo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A paix\u00e3o entre torcedores e clube: um la\u00e7o al\u00e9m das quatro linhas<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":382,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historias-de-amor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=196"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":393,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/196\/revisions\/393"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}