{"id":198,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-21"},"modified":"2026-04-24T21:03:13","modified_gmt":"2026-04-25T00:03:13","slug":"o-amor-proprio-como-produto-uma-conversa-com-a-psicologa-katharine-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=198","title":{"rendered":"O amor-pr\u00f3prio como produto: uma conversa com a psic\u00f3loga Katharine Alves"},"content":{"rendered":"<p>Nas redes sociais, o amor-pr\u00f3prio virou tend\u00eancia. V\u00eddeos ensinam rituais de skincare como solu\u00e7\u00e3o para autoestima, frases motivacionais prometem transforma\u00e7\u00e3o imediata e influenciadores comercializam m\u00e9todos que garantem um \u201cpasso a passo\u201d para aprender a se amar. Mas ser\u00e1 que esse conceito vendido online realmente representa o que \u00e9 o amor-pr\u00f3prio?<\/p>\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio Panorama da Sa\u00fade Mental, realizado pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, 36,9% dos brasileiros que passam tr\u00eas horas ou mais por dia nas redes sociais apresentam sinais de ansiedade, o que evid\u00eancia como o excesso de exposi\u00e7\u00e3o online pode afetar negativamente a sa\u00fade mental e distorcer a percep\u00e7\u00e3o de si.<\/p>\n<p>Para entender melhor sobre esse assunto, conversamos com a psic\u00f3loga especialista Katharine Alves para entender os impactos dessa nova era do autocuidado e como desenvolver um amor-pr\u00f3prio genu\u00edno e saud\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Como voc\u00ea, enquanto psic\u00f3loga, define o amor-pr\u00f3prio de uma maneira saud\u00e1vel e realista?<\/strong><\/p>\n<p>Katharine Alves: Se eu fosse definir o amor-pr\u00f3prio de uma maneira saud\u00e1vel e realista, eu diria que \u00e9 aquele tipo de amor onde eu consigo me acolher, apesar das dificuldades. O amor-pr\u00f3prio vai muito al\u00e9m de fazer uma skincare ou ler<\/p>\n<p>um livro. Eu acho que o amor-pr\u00f3prio se constr\u00f3i quando a gente estabelece uma base s\u00f3lida por dentro: conseguindo reconhecer nossos sentimentos, expressar nossos desejos e colocar limites no outro, por mais desconfort\u00e1vel que isso possa ser.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Existe um limite entre o autocuidado e a ideia de que amar a si mesma est\u00e1 diretamente ligado a investir em produtos e servi\u00e7os?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Sim. \u00c9 bom lembrar que o autocuidado vai muito al\u00e9m do que consumimos ou compramos, at\u00e9 porque nem todo mundo tem o mesmo dinheiro para investir nos produtos de maior qualidade ou at\u00e9 mesmo em uma terapia, que sabemos que \u00e9 um investimento. Mas quando voc\u00ea tira um tempo para si, consegue dizer n\u00e3o, toma um banho um pouco mais demorado com uma luz mais baixa, faz uma comida que gosta&#8230; Isso tamb\u00e9m \u00e9 autocuidado. Ent\u00e3o, pode haver uma liga\u00e7\u00e3o com investimento em produtos e servi\u00e7os, mas \u00e9 importante colocar um limite, porque n\u00e3o se resume a isso. E, mesmo para quem tem condi\u00e7\u00e3o financeira, n\u00e3o d\u00e1 para depositar todo o autocuidado apenas nisso, porque vai muito al\u00e9m.<\/p>\n<div id=\"attachment_408\" style=\"width: 243px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-408\" class=\"wp-image-408 size-medium\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto08_isamoura_tratada-233x300.png\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal\" width=\"233\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-408\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal<\/p><\/div>\n<p><strong>O Berro &#8211; As redes sociais transformaram o amor-pr\u00f3prio em um conceito mais acess\u00edvel ou trouxeram novas press\u00f5es para as mulheres?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Eu acho que \u00e9 uma linha muito t\u00eanue. A rede social \u00e9 um local muito amplo, ent\u00e3o voc\u00ea pode achar de tudo um pouco. Muito vai depender de qual nicho voc\u00ea est\u00e1 filtrando para voc\u00ea. Se voc\u00ea tende a seguir pessoas que fazem v\u00e1rias publis, que s\u00e3o blogueiras e sempre atrelam o autocuidado a algum produto, \u00e9 raro ver algu\u00e9m falando sobre isso sem ter uma marca ou propaganda envolvida. Mas, ao mesmo tempo, algumas pessoas compartilham experi\u00eancias reais de autocuidado, mostrando rotinas simples, como acordar mais cedo, escrever, fazer atividade f\u00edsica em casa. Ent\u00e3o, sim, o conceito ficou mais acess\u00edvel, mas tamb\u00e9m criou novas press\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Como o consumo de produtos e servi\u00e7os vendidos como ferramentas para o amor-pr\u00f3prio pode afetar a forma como as mulheres enxergam a si mesmas?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Pode ser negativo quando a pessoa come\u00e7a a acreditar que s\u00f3 ter\u00e1 amor-pr\u00f3prio se tiver determinado produto ou consumir determinado servi\u00e7o. Hoje em dia, as redes sociais se aproveitam desse movimento crescente para monetizar em cima disso, porque sempre foi assim: exploram justamente os pontos sens\u00edveis da sociedade, aquilo que j\u00e1 est\u00e1 ferido.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Hoje, vemos cursos, e-books e mentorias que prometem ensinar o amor-pr\u00f3prio em etapas. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, esse tipo de abordagem pode ser eficaz ou pode gerar uma vis\u00e3o limitada sobre o processo de autoestima?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Pode ser interessante como uma porta de entrada para quem quer come\u00e7ar a olhar para o pr\u00f3prio amor-pr\u00f3prio, mas n\u00e3o sabe por onde. Se eu sinto que gostaria de melhorar isso, posso ler um e-book mais curto ou assistir a uma mentoria, principalmente se for algo que n\u00e3o exija um grande investimento. Mas isso n\u00e3o pode ser a \u00fanica fonte de aprendizado, porque s\u00e3o conte\u00fados muito generalizados, que n\u00e3o consideram cada pessoa de forma espec\u00edfica. Algumas coisas podem servir para voc\u00ea, outras n\u00e3o. Ent\u00e3o, a ideia \u00e9 n\u00e3o se limitar a isso e entender que amor-pr\u00f3prio vai al\u00e9m do que est\u00e1 nesses materiais.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Como diferenciar conte\u00fados realmente embasados na psicologia daqueles que apenas exploram o discurso motivacional?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Quando voc\u00ea for consumir um conte\u00fado, \u00e9 importante avaliar quem est\u00e1 por tr\u00e1s dele. Essa pessoa tem forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea? Suas falas s\u00e3o baseadas em estudos cient\u00edficos ou apenas em experi\u00eancias pessoais? Vale a pena pesquisar o nome dela na internet, ver se h\u00e1 algum respaldo, artigo ou mat\u00e9ria. Buscar ajuda profissional, como terapia ou psiquiatria, tamb\u00e9m pode ajudar a entender se o que aquele influenciador est\u00e1 propagando faz sentido. Infelizmente, na internet, qualquer um pode postar o que quiser, como quiser, e muita gente usa isso para benef\u00edcio pr\u00f3prio, para ganhar seguidores, visualiza\u00e7\u00f5es e monetizar.<\/p>\n<div id=\"attachment_409\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-409\" class=\"wp-image-409 size-medium\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto10_isamoura_tratada-225x300.png\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal\" width=\"225\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-409\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal<\/p><\/div>\n<p><strong>O Berro &#8211; Quais s\u00e3o os maiores desafios que as mulheres enfrentam ao tentar desenvolver um amor-pr\u00f3prio genu\u00edno?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Acredito que o maior desafio \u00e9 estar inserida \u2013 e eu me incluo nisso tamb\u00e9m \u2013 em um mundo onde tudo \u00e9 urgente. A informa\u00e7\u00e3o chega muito r\u00e1pido, as mudan\u00e7as acontecem o tempo todo. Talvez a maior dificuldade seja conseguir estabelecer uma base s\u00f3lida, porque a cada momento surge uma nova tend\u00eancia de autocuidado, um novo produto que voc\u00ea \u201cprecisa\u201d ter. Desde sempre, as mulheres recebem press\u00e3o sobre como deveriam ser e, al\u00e9m disso, est\u00e3o sempre pensando nos outros antes de si mesmas.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Como a constru\u00e7\u00e3o da autoestima pode variar de acordo com fatores como experi\u00eancias de vida, contexto social e ambiente familiar?<\/strong><\/p>\n<p>KA: N\u00f3s somos muito moldados pelo ambiente em que vivemos. Por exemplo, se eu venho de uma fam\u00edlia que tem o costume de criticar constantemente, que n\u00e3o valoriza pequenas conquistas, apenas as grandes, minha autoestima pode ser minada. Eu come\u00e7o a achar que nunca vou ser boa o suficiente. Se, na escola, estou em um ambiente onde os colegas ridicularizam os erros uns dos outros ou fazem coment\u00e1rios depreciativos, eu posso come\u00e7ar a duvidar de mim mesma. Com isso, dificilmente vou me colocar em espa\u00e7os onde serei valorizada, porque fui ensinada a acreditar que n\u00e3o mere\u00e7o tanto. O ambiente em que crescemos, as influ\u00eancias que recebemos dos cuidadores e protetores, tudo isso tem um impacto direto na constru\u00e7\u00e3o da autoestima na vida adulta.<\/p>\n<p><strong>O Berro &#8211; Para mulheres que se sentem pressionadas a atingir um ideal de amor-pr\u00f3prio, por onde come\u00e7ar essa jornada de forma saud\u00e1vel e realista?<\/strong><\/p>\n<p>KA: Pode parecer clich\u00ea, mas acredito que a terapia \u00e9 um \u00f3timo ponto de partida. Na terapia, a pessoa pode come\u00e7ar a olhar para essas quest\u00f5es sem ser julgada ou pressionada a atingir um padr\u00e3o. \u00c9 um espa\u00e7o onde conseguimos identificar o que est\u00e1 acontecendo, por que est\u00e1 acontecendo e como podemos melhorar isso. Se eu n\u00e3o consigo me amar, como posso mensurar o que mere\u00e7o dos outros? Se eu tenho dificuldade de entender o que mere\u00e7o de mim mesma, como vou saber impor limites? Se eu n\u00e3o coloco limites para mim, deixo que os outros fa\u00e7am isso da forma que quiserem, quando quiserem. Ent\u00e3o, acredito que a terapia \u00e9 um espa\u00e7o fundamental para iniciar essa jornada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas redes sociais, o amor-pr\u00f3prio virou tend\u00eancia. V\u00eddeos ensinam rituais de skincare como solu\u00e7\u00e3o para autoestima, frases motivacionais prometem transforma\u00e7\u00e3o imediata e influenciadores comercializam m\u00e9todos que garantem um \u201cpasso a passo\u201d para aprender a se amar. Mas ser\u00e1 que esse conceito vendido online realmente representa o que \u00e9 o amor-pr\u00f3pri<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":410,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-198","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-historias-de-amor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=198"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":407,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/198\/revisions\/407"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/410"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}