{"id":201,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-24"},"modified":"2026-04-24T21:14:27","modified_gmt":"2026-04-25T00:14:27","slug":"poetas-do-chifre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=201","title":{"rendered":"Poetas do chifre"},"content":{"rendered":"<h2><strong>Os compositores que transformam a trai\u00e7\u00e3o amorosa \u2013 dos outros &#8211; em dinheiro<\/strong><\/h2>\n<p>Em fevereiro de 1996 a banda paulista Mamonas Assassinas desembarcava no Rio de Janeiro para uma s\u00e9rie de quatro apresenta\u00e7\u00f5es no Metropolitan, uma casa de shows na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. L\u00e1 pelas tantas da noite e perto da metade do show, Alecsander Alves Leite, conhecido no Brasil inteiro como Dinho (vocalista do grupo), surgiu no palco vestindo apenas uma sunga e usando um chap\u00e9u preto com formato de chifres pontiagudos.<\/p>\n<p>Ainda segurando o microfone no pedestal, o que se ouviu foram as primeiras estrofes da m\u00fasica Bois Don\u2019t Cry (1995): Ser corno ou n\u00e3o ser?\/Eis a minha indaga\u00e7\u00e3o\/ Sem voc\u00ea, vivo sofrendo\/ Pelos buteco bebendo\/ Arrumando confus\u00e3o. Dinho &#8211; tamb\u00e9m compositor da m\u00fasica &#8211; foi surpreendido por um coro de quase dez mil pessoas que completam: Soy un hombre conformado (Sou um homem conformado)\/Escuto a voz do cora\u00e7\u00e3o\/Sou um corno apaixonado\/Sei que j\u00e1 fui chifrado\/Mas o que vale \u00e9 o tes\u00e3o.<\/p>\n<p>Naquele Brasil dos Mamonas Assassinas, a trai\u00e7\u00e3o amorosa j\u00e1 n\u00e3o era mais um tabu &#8211; era letra de m\u00fasica de sucesso que impulsionava a venda de milhares de cd\u2019s.<\/p>\n<p>Quase vinte anos depois, as coisas n\u00e3o mudaram quase nada por aqui: a infidelidade segue embalando gera\u00e7\u00f5es e sendo fonte de lucro para compositores que transformam dores em refr\u00f5es chicletes.<\/p>\n<p>Quem domina essa arte sabe que, no fim das contas, a pr\u00f3pria dor \u2013 ou a dor alheia &#8211; podem sim virar um grande neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Jaffason Lincon Rodrigues Santos, de 32 anos, tem cerca de trinta composi\u00e7\u00f5es gravadas nacionalmente. Come\u00e7ou a compor aos vinte anos, ap\u00f3s um t\u00e9rmino de relacionamento. \u201cEu escrevi a primeira m\u00fasica e fui tomando gosto. Hoje j\u00e1 s\u00e3o mais de mil.\u201d, diz orgulhoso.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecido no meio art\u00edstico como Jaffinha. Entre os seus maiores sucessos, Respeita Seu Ex gravada por Mari Fernandez e Murilo Huff; Haver\u00e1 Sinais por Z\u00e9 Vaqueiro e Cacha\u00e7a, Choro e Bar pela banda Cavaleiros do Forr\u00f3. \u201cA gente sabe que no Brasil, hoje, bebida, carro e trai\u00e7\u00e3o s\u00e3o temas que vendem muito\u201d, conta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-417\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto01_felipe_tratada.png\" alt=\"\" width=\"1240\" height=\"1524\" srcset=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto01_felipe_tratada.png 1240w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto01_felipe_tratada-980x1204.png 980w, https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto01_felipe_tratada-480x590.png 480w\" sizes=\"(min-width: 0px) and (max-width: 480px) 480px, (min-width: 481px) and (max-width: 980px) 980px, (min-width: 981px) 1240px, 100vw\" \/><\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma outra faixa que o compositor tem um apego especial: Amante, da dupla de sertanejo mato-grossense Henrique &amp; Diego, que tr\u00e1s na letra uma hist\u00f3ria de amor frustrada: uma mulher que sonhava em assumir o seu relacionamento atual para os amigos, mas n\u00e3o podia porque estava se envolvendo com um homem casado. Mas voc\u00ea s\u00f3 lembra de n\u00f3s dois na hora do prazer\/ Deixa eu falar pra voc\u00ea, deixa eu falar pra voc\u00ea\/ Queria postar foto de casal, mas lembro que eu sou amante\/ Mas eu n\u00e3o quero botar fim nesse romance.<\/p>\n<p>Diferentemente de outros compositores, que usam das pr\u00f3prias decep\u00e7\u00f5es amorosas como fonte criativa, Jaffinha afirma que nem sempre \u00e9 a sua vida que serve como inspira\u00e7\u00e3o. \u201cEssa m\u00fasica mesmo n\u00e3o foi baseada em fatos reais. Eu tamb\u00e9m escrevo de acordo com o mercado. Eu sabia que as pessoas iriam se identificar.\u201d, diz.<\/p>\n<p>Ele relembra o processo de composi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, atualmente com mais de um milh\u00e3o de streamings no Spotify. \u201cEu escrevi na pandemia, ali por volta de 2021.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca o tema da trai\u00e7\u00e3o estava muito em alta por causa da m\u00fasica Roxinho de Gusttavo Lima e Jonas Esticado.\u201d, conta. O sucesso que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para o compositor tr\u00e1s na letra as seguintes estrofes: Ele j\u00e1 viu esse roxinho no seu pesco\u00e7o\/ E toda noite voc\u00ea some feito Sol\/ Ele j\u00e1 viu que voc\u00ea faz amor sem gosto\/ Que outro peixe t\u00e1 mordendo seu anzol. \u201cA\u00ed eu aproveitei o embalo. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que quando bateu no ouvido deles [dos cantores], eles quiseram a m\u00fasica.\u201d<\/p>\n<p>Jaffinha \u00e9 natural de Quixeramobim, no Sert\u00e3o do Cear\u00e1, uma cidadezinha com pouco mais de oitenta mil habitantes. Depois do sucesso, se mudou para Fortaleza, na capital. \u201cTenho muito orgulho de dizer que hoje eu vivo da m\u00fasica, vivo da composi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O mercado da composi\u00e7\u00e3o no Brasil &#8211; tamb\u00e9m chamado de publishing musical &#8211; movimenta bastante dinheiro. O Escrit\u00f3rio Central de Arrecada\u00e7\u00e3o e Distribui\u00e7\u00e3o (Ecad) pagou mais de R$ 800 milh\u00f5es em direitos autorais no primeiro semestre de 2024, representando um aumento de 31% em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2023.<\/p>\n<p>Desse montante, 78% foram destinados aos detentores de direito autoral, aonde se encaixam os editores e compositores. Os outros 22% ficaram com os int\u00e9rpretes, m\u00fasicos e produtores fonogr\u00e1ficos, enquadrados dentro dos direitos conexos.<\/p>\n<p>Jaffinha explica. \u201cExistem duas formas para vender a sua m\u00fasica hoje no Brasil: a exclusiva, mais cara, onde o artista que compra os direitos pode passar at\u00e9 doze meses para trabalhar a faixa. E a simples, onde eu posso vender a mesma m\u00fasica para diversos cantores.\u201d, conta. \u201cO que acontece muitas vezes \u00e9 o artista comprar a simples, o neg\u00f3cio come\u00e7ar a fazer sucesso, fazer barulho, e ele decidir pegar a exclusiva. A\u00ed as outras s\u00e3o derrubadas.\u201d, finaliza.<\/p>\n<p>Os compositores tamb\u00e9m ganham dinheiro com as execu\u00e7\u00f5es p\u00fablicas &#8211; em shows, r\u00e1dios e programas de televis\u00e3o &#8211; e com as reprodu\u00e7\u00f5es nas plataformas digitais, como Youtube, Spotify e Deezer. \u201cComposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 dinheiro quando a m\u00fasica estoura. O combust\u00edvel do compositor \u00e9 esse. Ele tem que sempre tentar emplacar uma nova m\u00fasica no mercado, j\u00e1 pensando no retorno dos direitos autorais\u201d, revela Lil\u00edan Nunes, compositora com mais de 400 m\u00fasicas escritas.<\/p>\n<p>A pernambucana de 46 anos come\u00e7ou a compor em 2019. \u201cEu ficava cantarolando em casa e as letras vinham na minha cabe\u00e7a. Eu escrevia e gravava no meu pr\u00f3prio celular.\u201d Hoje j\u00e1 s\u00e3o mais 70 m\u00fasicas gravadas por artistas de diferentes lugares do Brasil. Entre eles, Silvano Salles, Raphaela Santos, MC Tocha e a banda Unha Pintada.<\/p>\n<div id=\"attachment_418\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-418\" class=\"wp-image-418 size-medium\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/foto02_felipe_tratada-300x300.png\" alt=\"Lil\u00edan Nunes. Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"300\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-418\" class=\"wp-caption-text\">Lil\u00edan Nunes. Divulga\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p>O seu maior sucesso ficou conhecido, por\u00e9m, na voz de Japinha Conde, cantora do grupo de forr\u00f3 eletr\u00f4nico alagoense Conde do Forr\u00f3. A m\u00fasica Saudade de Mim ultrapassou a marca das dez milh\u00f5es de reprodu\u00e7\u00f5es no Spotify e 100 milh\u00f5es no Youtube. Tamb\u00e9m foi regravada por outros artistas. A letra fala sobre algu\u00e9m que sofre por n\u00e3o ter coragem de admitir seus sentimentos.<\/p>\n<p>Mas Lil\u00edan tamb\u00e9m diz que, vira e mexe, precisa recorrer ao tema da trai\u00e7\u00e3o na hora de compor. \u201cA gente sempre tenta pensar nas hist\u00f3rias que s\u00e3o comuns a muitos relacionamentos\u201d. E nada que as pessoas se identifiquem mais do que uma trai\u00e7\u00e3o amorosa. \u201cFoi a\u00ed que nasceu a ideia de Amiga Falsa.\u201d, revela. A m\u00fasica foi gravada pela banda Companhia do Calypso. \u201cGanhou videoclipe e tocou muito nas r\u00e1dios. Ainda tenho bastante retorno financeiro com ela.\u201d<\/p>\n<p>A letra conta a hist\u00f3ria de uma mulher que flagrou a trai\u00e7\u00e3o do seu companheiro com algu\u00e9m que acreditava ser sua amiga. As primeiras estrofes contam da decep\u00e7\u00e3o. Te emprestava as minhas roupas\/ Sapatos e batons\/ Pensei ser uma amiga \/ Mas era uma tra\u00edra\/ Criei uma cobra\/ Pra um dia me machucar. E no refr\u00e3o, o momento da descoberta. Eu n\u00e3o queria, mas eu peguei\/ Os dois na cama, como chorei\/ Era tanto bate, bate\/ Tanto toma, toma\/ Com o ar ligado\/ E eu pagando a conta.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do retorno financeiro com as suas pr\u00f3prias m\u00fasicas, L\u00edlian tamb\u00e9m descobriu um novo jeito de lucrar. \u201cVendo as m\u00fasicas de outros compositores que n\u00e3o tem tempo, habilidade ou os contatos certos. Ganho em cima das comiss\u00f5es\u201d, revela.<\/p>\n<p>Se a trai\u00e7\u00e3o parte cora\u00e7\u00f5es, no Brasil ela tamb\u00e9m enche os bolsos de dinheiro. Em um pa\u00eds onde sofrer por amor virou mat\u00e9ria-prima para hits, compositores como Jaffinha e L\u00edlian descobriram que a dor \u2014 a pr\u00f3pria ou a emprestada \u2014 rende mais do que consolo.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, somos tamb\u00e9m a terra que criou a figura do \u201ccorno apaixonado\u201d. A terra dos grandes Reginaldo Rossi, Amado Batista, Wando, Agnaldo Timot\u00e9o, Pablo do Arrocha, Mar\u00edlia Mendon\u00e7a e tantos outros cantores e compositores que constru\u00edram suas carreiras falando sobre as dores de cotovelo e as puladas de cerca. Por aqui, a infidelidade n\u00e3o se esconde: ela canta bem alto, e sempre \u00e0 plenos pulm\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os compositores que transformam a trai\u00e7\u00e3o amorosa \u2013 dos outros &#8211; em dinheiro<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":419,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-201","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/201","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=201"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":416,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/201\/revisions\/416"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}