{"id":206,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-29"},"modified":"2026-04-24T22:04:57","modified_gmt":"2026-04-25T01:04:57","slug":"resistencia-e-salto-alto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=206","title":{"rendered":"Resist\u00eancia e salto alto"},"content":{"rendered":"<p>No camarim de luzes quentes, um rosto vai se formando diante do espelho. \u00c9 como um nascimento em sil\u00eancio, feito de p\u00f3 compacto, delineador e sombras meticulosamente aplicadas. Enquanto o dia escurece l\u00e1 fora, a performer Sayuri Heiwa surge. Mais do que uma personagem, mais do que uma performance, ela \u00e9 a s\u00edntese de uma vida. Uma hist\u00f3ria viva que pulsa com coragem, criatividade e afeto.<\/p>\n<p><strong>A arte al\u00e9m do palco<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_450\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-450\" class=\"wp-image-450 size-medium\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/kim-1_tratada-240x300.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal\" width=\"240\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-450\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal<\/p><\/div>\n<p>Desde o in\u00edcio dos anos 2000, com a populariza\u00e7\u00e3o da internet e o surgimento das redes sociais, a arte drag no Brasil saltou dos clubes noturnos para os palcos do mundo. \u00cdcones como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Lia Clark e Ikaro Kadoshi n\u00e3o apenas popularizaram a linguagem est\u00e9tica da cultura drag \u2014 eles transformaram o modo como o Brasil a v\u00ea. De s\u00edmbolo underground a for\u00e7a pol\u00edtica, art\u00edstica e comercial.<\/p>\n<p>Mas longe dos grandes centros midi\u00e1ticos e dos holofotes da fama, uma constela\u00e7\u00e3o de artistas independentes continua mantendo viva essa arte. Em lugares onde o reconhecimento \u00e9 escasso, onde o glamour cede lugar \u00e0 garra, \u00e9 que surgem hist\u00f3rias como a de Sayuri.<\/p>\n<p>Nascida em \u00c1gua Fria, Zona Norte do Recife, Sayuri Heiwa \u00e9 a identidade art\u00edstica de Gilmar Roberto dos Santos J\u00fanior, de 37 anos. Filho de um vigilante e de uma copeira, Gilmar cresceu em uma casa de taipa, ouvindo conselhos rigorosos e carinhosos. \u201cMe ensinaram a nunca revidar o mal com o mal\u201d, lembra, enquanto esfuma\u00e7a os olhos com uma sombra preta que contrasta com a rosa delicadamente aplicada nas p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p><strong>As primeiras fa\u00edscas<\/strong><\/p>\n<p>O despertar art\u00edstico aconteceu cedo. Na adolesc\u00eancia, um amigo de escola,<\/p>\n<p>Rafael Rodrigues, o convidou para coreografar uma apresenta\u00e7\u00e3o ao som de Die Another Day, de Madonna. Gilmar, que j\u00e1 dan\u00e7ava desde pequeno e tamb\u00e9m praticava karat\u00ea, aceitou na hora. \u201cA coreografia misturava dan\u00e7a com luta. Foi ali que comecei a entender o que era o universo drag\u201d, ela recorda.<\/p>\n<p>Esse universo se ampliou ainda mais quando Rafael lhe apresentou a Antena Mix, uma revista LGBTQIA+ que circulava em formato de jornal. \u201cEu me encantei completamente. Era tudo novo, tudo poss\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>A arte drag se revelou como um territ\u00f3rio onde cabiam todos os seus talentos. \u201cVoc\u00ea pode ser cantora, dan\u00e7arina, apresentadora, maquiadora, DJ, modelo, dubladora&#8230; \u00c9 uma arte completa. \u00c9 liberdade em forma de express\u00e3o\u201d, diz Sayuri, com a firmeza de quem j\u00e1 percorreu longos caminhos.<\/p>\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o de um nome<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_451\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-451\" class=\"size-medium wp-image-451\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/kim-3_tratada-240x300.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal\" width=\"240\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-451\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal<\/p><\/div>\n<p>Sayuri n\u00e3o \u00e9 apenas um rosto bonito montado com t\u00e9cnica e glamour. Ela \u00e9 um curr\u00edculo que se desdobra em m\u00faltiplas habilidades: mestre de cerim\u00f4nias, performer, diretora, produtora, rep\u00f3rter, cantora, dan\u00e7arina, DJ. \u00c9, antes de tudo, uma trabalhadora da arte \u2014 dessas que ralam muito mais do que brilham. \u201cMinha rotina \u00e9 intensa. Tem dias que fa\u00e7o duas, tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es. \u00c9 figurino pra costurar, maquiagem pra refazer, produ\u00e7\u00e3o pra coordenar.\u201d<\/p>\n<p>E, mesmo com tantos anos de experi\u00eancia, o palco ainda pulsa com a mesma emo\u00e7\u00e3o. \u201cA melhor parte \u00e9 quando estou pronta. A peruca no lugar, o salto nos p\u00e9s, o corpo montado&#8230; \u00e9 quando Sayuri nasce\u201d, a performer exibe um sorriso.<\/p>\n<p><strong>Amor que resiste<\/strong><\/p>\n<p>A paix\u00e3o pela arte drag, no entanto, nunca foi um mar de rosas. \u201cJ\u00e1 pensei em parar v\u00e1rias vezes. Muita gente tentou apagar minha trajet\u00f3ria. Foram cr\u00edticas, fofocas, ingratid\u00e3o&#8230; Se eu n\u00e3o amasse isso profundamente, teria desistido.\u201d Ela pausa. Pega um copo d\u2019\u00e1gua. Respira fundo. \u201cMas o amor me segurou. Me reconstruiu.\u201d<\/p>\n<p>Esse amor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela arte, mas tamb\u00e9m por quem a vive ao seu lado. Heitor Eiras, seu companheiro, est\u00e1 presente em tudo: dos bastidores \u00e0 costura dos figurinos. \u201cSayuri s\u00f3 \u00e9 Sayuri por causa dele\u201d, diz. \u201cEle veste a personagem como se fosse a boneca da vida dele. Acompanha tudo. Sonha junto.\u201d<\/p>\n<p>Quando pergunto para quem ela escreveria uma carta de amor, caso a arte drag fosse um bilhete apaixonado, a resposta vem com a ternura de quem tem ra\u00edzes fincadas: \u201cPara ele. Por todo o carinho, cuidado, dedica\u00e7\u00e3o. Por amar minha arte tanto quanto eu.\u201d<\/p>\n<p><strong>Onde come\u00e7a Sayuri, onde termina Gilmar<\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a pergunta que ronda todo artista drag. No caso da artista, talvez a resposta esteja entre os dois: \u201c\u00c9 o Gilmar que vive nela.\u201d As mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia, os princ\u00edpios dos pais, o bairro que a moldou \u2014 tudo isso est\u00e1 presente em cada gesto que ela leva ao palco.<\/p>\n<p>A maquiagem, o penteado, os brincos, a cinta de ferro que a aperta, os c\u00edlios imensos \u2014 tudo carrega afeto. \u201cCada detalhe da montagem \u00e9 uma prova do quanto sou apaixonada por isso. \u00c9 minha forma de resistir. De existir.\u201d<\/p>\n<p><strong>Fora dos holofotes, dentro da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_452\" style=\"width: 260px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-452\" class=\"size-medium wp-image-452\" src=\"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/kim-4_tratada-250x300.jpg\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal\" width=\"250\" height=\"300\" \/><p id=\"caption-attachment-452\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Acervo pessoal<\/p><\/div>\n<p>Sayuri nunca estampou capas de revistas nacionais, n\u00e3o assina campanhas milion\u00e1rias e n\u00e3o est\u00e1 no line-up dos grandes festivais. Mas isso n\u00e3o a impede de brilhar. Sua presen\u00e7a nas noites recifenses \u00e9 um ato cont\u00ednuo de resist\u00eancia. \u00c9 o tipo de brilho que vem de dentro \u2014 e que nenhum refletor consegue apagar.<\/p>\n<p>\u201cCada vez que entro no palco, sinto. Eu amo estar ali. Em cada performance tem um peda\u00e7o do meu cora\u00e7\u00e3o. Acho que d\u00e1 pra ver no meu rosto o quanto eu sou feliz montada\u201d, declara.<\/p>\n<p>E d\u00e1 mesmo. Diante do espelho, ao terminar os \u00faltimos retoques, Sayuri Heiwa se ergue como uma entidade pronta para mais uma noite. H\u00e1 algo m\u00e1gico em sua presen\u00e7a. Mas o que realmente encanta \u00e9 a for\u00e7a que pulsa por tr\u00e1s do batom vermelho.<\/p>\n<p><strong>A beleza de n\u00e3o desistir<\/strong><\/p>\n<p>Na cena drag do Recife \u2014 diversa, vibrante, e muitas vezes, invisibilizada \u2014 Sayuri Heiwa se tornou refer\u00eancia. Uma artista que n\u00e3o s\u00f3 representa, mas sustenta: a sua arte e seu modo de viver. Que n\u00e3o apenas performa, mas vive a arte que escolheu com a dignidade de quem sabe o valor do pr\u00f3prio brilho.<\/p>\n<p>Sayuri \u00e9 poesia de salto alto, \u00e9 discurso em forma de sombra cintilante, \u00e9 mem\u00f3ria montada com glitter e dor. \u00c9 resist\u00eancia, ternura e verdade.<\/p>\n<p>Ela segue, palco ap\u00f3s palco, noite ap\u00f3s noite. E mesmo sem os privil\u00e9gios da fama, sua presen\u00e7a ilumina \u2014 com amor, com arte e com a coragem de quem nunca deixou de acreditar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No camarim de luzes quentes, um rosto vai se formando diante do espelho. \u00c9 como um nascimento em sil\u00eancio, feito de p\u00f3 compacto, delineador e sombras meticulosamente aplicadas. Enquanto o dia escurece l\u00e1 fora, a performer Sayuri Heiwa surge. Mais do que uma personagem, mais do que uma performance, ela \u00e9 a s\u00edntese de uma vida. 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