{"id":213,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-36"},"modified":"2026-04-24T22:29:03","modified_gmt":"2026-04-25T01:29:03","slug":"dezembro-de-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=213","title":{"rendered":"Dezembro de 2015"},"content":{"rendered":"<p>O rel\u00f3gio j\u00e1 passava das onze quando o pijama vermelho, de algod\u00e3o um pouco gasto nas mangas, encontrou a cama de solteiro que estava toda arrumada. A casa dormia. No quarto ao lado, os pais j\u00e1 estavam no segundo ou terceiro est\u00e1gio do sono, o tipo que s\u00f3 vem depois de um dia longo. No quarto, o sil\u00eancio era absoluto, exceto pelo zumbido baixo da televis\u00e3o. O volume estava em 15. Quinze. Nem mais, nem menos. O n\u00famero exato para ouvir e n\u00e3o ser ouvida.<\/p>\n<p>A final do X Factor UK daquele dezembro de 2015 seria diferente. Quem sabia, sabia. E quem sentia, ent\u00e3o, nem se fala. Naquela noite, os quatro meninos que haviam se tornado parte da vida dela, iriam se apresentar juntos pela \u00faltima vez. J\u00e1 tinham anunciado o hiato, esse jeito elegante de dizer \u201cacabou, mas a gente n\u00e3o quer doer tanto agora\u201d.<\/p>\n<p>Na tela, os holofotes se acenderam devagar. E antes mesmo que qualquer um dissesse uma palavra, o acorde inicial de Infinity preencheu aquele ambiente escuro como se perfumasse o ar. Um n\u00f3 se formou na garganta dela, daqueles que n\u00e3o se desfazem nem com \u00e1gua, nem com tosse. Um n\u00f3 feito de tempo, de medo e de amor. Aquele n\u00f3 que s\u00f3 uma m\u00fasica deles sabe dar.<\/p>\n<p>Harry, Naill, Louis e Liam pareciam hesitantes no palco. Eles estavam vestidos com bastante eleg\u00e2ncia, e carregavam nos olhos uma esp\u00e9cie de sil\u00eancio que s\u00f3 quem est\u00e1 se despedindo entende. N\u00e3o diziam, mas diziam. Cada um, com o microfone em m\u00e3os, parecia cantar para dentro. Olhos baixos, movimentos contidos, como se o palco fosse sagrado demais para tanta dor. Ela via, dali da cama, que eles tamb\u00e9m sabiam: aquilo era o fim de uma era. E ningu\u00e9m gosta de finais, muito menos quando \u00e9 preciso se despedir do que se ama. E ela amava eles. Ainda ama.<\/p>\n<p>Amava como s\u00f3 se ama na dolesc\u00eancia, com uma entrega que beira o irracional, mas que, por isso mesmo, \u00e9 t\u00e3o verdadeira. Aquele amor que cola p\u00f4ster na parede, que decora cada verso de m\u00fasica. Mas n\u00e3o era s\u00f3 isso. Era mais. Aquela banda, aqueles meninos, tinham se tornado abrigo. Em noites dif\u00edceis, em dias comuns, em momentos bons. Eram companhia constante, trilha sonora de crescimento, base de quem ela se tornaria.<\/p>\n<p>A m\u00fasica terminou, e ela respirou fundo, como quem precisa de ar para aguentar o que vem depois. E o depois veio.<\/p>\n<p>History come\u00e7ou com a batida que qualquer f\u00e3 reconhece de longe: uma palma, outra palma, mais uma e a \u00faltima. E pronto, quatro palmas e ela n\u00e3o teve mais controle. As l\u00e1grimas ca\u00edram sem aviso, sem permiss\u00e3o. N\u00e3o chorava apenas pelo fim da banda, mas por tudo o que aquilo representava: o fim de uma fase, de uma vers\u00e3o dela mesma, uma parte que cresceu acreditando que certas coisas duravam para sempre e que agora aprendia, pela primeira vez, que n\u00e3o duram.<\/p>\n<p>Dessa vez, n\u00e3o conseguiu cantar. A garganta, j\u00e1 embargada desde os primeiros acordes de Infinity, agora estava fechada, ocupada demais tentando conter a emo\u00e7\u00e3o. Os olhos fixos na televis\u00e3o acompanhavam cada detalhe: os passos t\u00edmidos, os olhares trocados entre eles, as fotos que apareciam no fundo do palco, lembrando tudo o que tinham vivido juntos e o que tinham feito o mundo inteiro viver tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>No final da apresenta\u00e7\u00e3o, os quatro se abra\u00e7aram. Um abra\u00e7o que ficou para a hist\u00f3ria&#8230; o \u00faltimo, o mais simb\u00f3lico, o que carrega tudo aquilo que n\u00e3o se consegue dizer com palavras. Ali, acabava uma banda e come\u00e7ava uma saudade.<\/p>\n<p>Ela permaneceu ali por mais alguns minutos, mesmo depois que a TV trocou de imagem. O cora\u00e7\u00e3o ainda tentando entender como um grupo de pessoas que ela nunca tinha tocado conseguia doer tanto por dentro. E o mais impressionante: como elas tamb\u00e9m conseguiam curar.<\/p>\n<p>Anos se passaram desde aquela noite. E hoje, olhando para tr\u00e1s, ela percebe que o amor n\u00e3o acabou naquela apresenta\u00e7\u00e3o, ele apenas mudou de forma. Virou lembran\u00e7a, virou base, virou m\u00fasica favorita que a gente redescobre tempos depois e entende de outro jeito. Infinity, por exemplo, foi uma m\u00fasica que naquele dia doeu&#8230; \u201cQuantas noites levam para contar as estrelas? \u00c9 o tempo que demorar\u00e1 para consertar o meu cora\u00e7\u00e3o\u201d eles cantam, e foi exatamente o sentimento daquela noite de 13 de dezembro\u2014 partida. Mas, com o tempo, virou uma das preferidas. Como se o universo tivesse esperado o momento certo para que ela percebesse a grandiosidade daquela letra.<\/p>\n<p>Infinity, naquele dia, doeu. Hoje, \u00e9 lar, abrigo, saudade que conforta, \u00e9 mem\u00f3ria viva do que a fez ser quem \u00e9. Porque \u00e9 isso que a m\u00fasica faz, ela se aloja devagar, encontra um lugarzinho dentro da gente e permanece. Cresce junto, muda com a gente. E, \u00e0s vezes, at\u00e9 volta como uma velha amiga que chega sem avisar, mas que sempre \u00e9 bem-vinda.<\/p>\n<p>A banda que terminou naquela noite a ajudou a se entender, a se encontrar, a se construir. Fez parte de quem ela \u00e9. Est\u00e1 no jeito como ela sente o mundo, no modo como escuta com aten\u00e7\u00e3o, nas playlists que faz, nos textos que escreve, no jeito que ama. Est\u00e1, sobretudo, na forma como aprendeu que sentir \u00e9 bonito, e que despedidas n\u00e3o s\u00e3o sobre o fim, mas sobre tudo o que veio antes.<\/p>\n<p>E talvez, o mais bonito de tudo, seja saber que aquela hist\u00f3ria, que parecia um ponto final, na verdade, virou uma v\u00edrgula. Porque mesmo que os meninos n\u00e3o estejam mais juntos, o que ela construiu a partir deles continua.<\/p>\n<p>E naquele quarto escuro, com o volume em 15, ela aprendeu que mem\u00f3ria nenhuma precisa de som alto para ser eterna. Basta que seja sincera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rel\u00f3gio j\u00e1 passava das onze quando o pijama vermelho, de algod\u00e3o um pouco gasto nas mangas, encontrou a cama de solteiro que estava toda arrumada. A casa dormia. No quarto ao lado, os pais j\u00e1 estavam no segundo ou terceiro est\u00e1gio do sono, o tipo que s\u00f3 vem depois de um dia longo. 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