{"id":215,"date":"2026-04-24T09:57:41","date_gmt":"2026-04-24T12:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-38"},"modified":"2026-04-24T10:12:52","modified_gmt":"2026-04-24T13:12:52","slug":"estamos-conectados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=215","title":{"rendered":"Estamos conectados"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos antigos, como na \u00e9poca dos meus falecidos av\u00f3s, o flerte mais passional e quente poss\u00edvel era mandar mensagens atrav\u00e9s de cartas escritas a m\u00e3o para os interesses amorosos. Estas podiam ser rom\u00e2nticas, fr\u00edvolas, dram\u00e1ticas, n\u00e3o interessa, a espera era sempre a parte mais empolgante. J\u00e1 nos tempos ainda mais antigos, da \u00e9poca dos meus bisav\u00f4s paternos, em 1990, quando o mundo vivia a transforma\u00e7\u00e3o do \u00faltimo ano do s\u00e9culo XIX, era da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, os cortejos \u2018cara-a-cara&#x27;, eram ainda mais dif\u00edceis de acontecer. Era bastante comum que as mulheres conhecessem o futuro parceiro dentro da missa, trocando uma palavra ou olhar com algum rapaz e&#8230; pronto! A m\u00e3e ou pai da mo\u00e7a o convidavam para jantar na casa deles. O casal conversava no sof\u00e1 ap\u00f3s o almo\u00e7o (com a m\u00e3e da mocinha sentada no meio do casal, inclusive!), o pai analisava o pobre coitado do poss\u00edvel genro dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, enquanto fumava charuto do outro lado da sala. Em poucas semanas a mocinha j\u00e1 estava noiva. Acredite. Parece engra\u00e7ado, mas era assim mesmo que acontecia.<\/p>\n<p>Quando lembro destas hist\u00f3rias rom\u00e2nticas que minhas antepassadas contavam para mim e minhas primas \u00e9 que percebo como o avan\u00e7o da tecnologia fez com que tudo ficasse mais r\u00e1pido, apressado, mas tamb\u00e9m c\u00f4modo. Os tempos s\u00e3o outros. Estamos eternamente conectados. Nossos aparelhos eletr\u00f4nicos est\u00e3o integrados na nossa vida de uma forma que s\u00e3o extens\u00f5es de n\u00f3s. Somos quase vers\u00f5es reais do Homem de Ferro. Com nossos smartphones nas nossas m\u00e3os, organizamos nossa rotina, ouvimos m\u00fasica, pagamos contas, abrimos catracas com QR code, trabalhamos, gravamos v\u00eddeos, \u00e1udios, nos expressamos. Vivemos.<\/p>\n<p>Os aplicativos de relacionamento facilmente baixados pelos nossos dispositivos m\u00f3veis, ainda que \u00e1 dist\u00e2ncia, contam com um enorme \u2018card\u00e1pio\u2019 de fotos: Aparecem na nossa tela em segundos, de acordo com as coordenadas e endere\u00e7o, e a gente s\u00f3 torce para que o \u2018chef\u2019 tamb\u00e9m queira o nosso prato principal! \u00c0s vezes a quentinha pode at\u00e9 vir depois de 5 minutos em um Uber Black para te encontrar. N\u00e3o \u00e9 que encontrar o amor tenha ficado f\u00e1cil demais. Encontrar pessoas, talvez sim, mas o amor continua sendo o sentimento mais presente, o mais buscado e o mais dif\u00edcil de lidar.<\/p>\n<p>\u00c9 o amor, mesmo ap\u00f3s tantos per\u00edodos hist\u00f3ricos, que explica as rela\u00e7\u00f5es humanas. Segundo Arist\u00f3fanes, famoso dramaturgo da Com\u00e9dia Grega, os seres humanos eram esferas de quatro bra\u00e7os e quatro pernas. Os deuses gregos nos cortaram para que estiv\u00e9ssemos sempre separados. Ou seja, cada um de n\u00f3s \u00e9 metade de um ser humano completo, por isso estamos sempre \u00e0 procura da nossa \u2018outra metade\u2019, s\u00f3 o amor nos completa. Claro, nem todas as pessoas acreditam nisso e \u00e9 totalmente aceit\u00e1vel ser uma pessoa independente e que n\u00e3o precisa de outra para se sentir \u2018validada\u2019. Mas n\u00e3o \u00e9 bem mais gostoso estar acompanhada? Eu acredito nisso. Pois foi assim que me senti quando conheci o Brandon, meu ex-noivo, ap\u00f3s conversarmos pelo Tinder de Nova York em 2013.<\/p>\n<p>Quase sempre, uma vez por ano, eu viajava para fora do Brasil perto de dezembro e janeiro para aproveitar as minhas f\u00e9rias como uma boa brasileira: Turistando, indo no Moma, no Met, Guggenheim entre outros museus de arte moderna, fazendo comprinhas necess\u00e1rias (tamb\u00e9m conhecidas como lotar a mala de maquiagem aos montes depois de visitar a Sephora americana), visitando restaurantes descolados, minhas maneiras preferidas de conhecer os locais para onde eu viajo.<\/p>\n<p>Uma das noites, me arrumando no hotel, resolvi baixar o app e ver como era a vers\u00e3o estadunidense. Deslizei o dedo algumas vezes e l\u00e1 estava ele. Al\u00e9m das fotos, amei a descri\u00e7\u00e3o que ele colocou. O perfil dele era ir\u00f4nico, com a frase \u2018se acabarmos casando porque nos encontramos por aqui, vamos ter que inventar outra hist\u00f3ria de como nos conhecemos para nossas fam\u00edlias\u2019. Engra\u00e7adinho. Gostei.<\/p>\n<p>Americano, filho de uma chinesa nascida em Hong Kong e pai taiwan\u00eas, Brandon era linguista e falava canton\u00eas e mandarim al\u00e9m do ingl\u00eas, pois trabalhava como int\u00e9rprete corporativo para um banco chin\u00eas em Manhattan.<\/p>\n<p>Seguimos do aplicativo nos falando pela rede social mais usada no momento, o Instagram, e por l\u00e1 conversamos por v\u00e1rios meses. Eu sempre fui meio medrosa e como boa telespectadora de filmes de suspense, n\u00e3o me encontrei com ele durante a viagem porque tinha medo de ele ser um psicopata (isso ainda \u00e9 muito v\u00e1lido, gente! Conhe\u00e7am a pessoa por um tempo ou v\u00e3o acompanhadas de algum amigo no primeiro encontro).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s meses e meses de intera\u00e7\u00f5es longas e di\u00e1rias pelo Whatsapp e liga\u00e7\u00f5es internacionais, ele veio ao Recife me conhecer. Quando eu o vi pessoalmente no aeroporto, fiquei pasma em como ele era alto, pois tinha 1,93 metros, bonito, bem-vestido e tinha olhos t\u00e3o lindos! Sempre achei rapazes asi\u00e1ticos charmosos (Segundo minha m\u00e3e, aos seis anos de idade eu disse para ela que casaria com um homem de olhos puxados), mas o que mais me deixou derretida por ele foi que ele me olhava como o Justin Timberlake olhava a Alessandra Ambr\u00f3sio naquele desfile da Victoria\u2019s Secret em 2006. Pegou a refer\u00eancia?<\/p>\n<p>Okay, ele tamb\u00e9m j\u00e1 estava t\u00e3o apaixonadinho quanto eu. Depois de mais um ano e meio ficamos noivos. Passamos v\u00e1rios anos juntos, at\u00e9 acabarmos e foi uma experi\u00eancia enriquecedora em todos os sentidos: Culturalmente, afetivamente, e at\u00e9 existencialmente. Cada relacionamento ensina algo para n\u00f3s. Descobri novas maneiras de sentir, amar, e at\u00e9 de sofrer &#8211; terminar um relacionamento, mas isso \u00e9 algo que todos passamos\/passaremos.<\/p>\n<p>Desde 2018, n\u00e3o namorei \u2018s\u00e9rio\u2019 novamente. J\u00e1 experimentei entrar em apps algumas vezes, mas acabei um pouco desestimulada pelo n\u00famero de OVNIs n\u00e3o requisitados enviados por caras desconhecidos (OVNI: Objeto f\u00e1lico virtual de um narcisista inconveniente). \u00c9 algo como quando o seu cachorro traz na boca uma barata ou lagartixa morta para entregar para voc\u00ea de presente &#8211; sei que voc\u00ea se orgulha disso, tot\u00f3, mas n\u00e3o quero tocar nele! &#8211; Mas ainda acredito que exista amor em aplicativos de relacionamento. Inclusive, atestei isso pelas conversas e personagens que entrevistei para as mat\u00e9rias.<\/p>\n<p>Uma das coisas que percebo \u00e9 que n\u00e3o interessa o local que conhecemos algu\u00e9m, todos queremos a mesma coisa. Queremos amor. Queremos nos sentir lindos, amados, recompensados, felizes em nossa profiss\u00e3o e encontrar nosso lugar no mundo. Quando o amor chegar novamente, estarei aqui. E assim como a ic\u00f4nica frase de Oscar Wilde: \u2018Quem vive mais de um amor vive mais de uma vida\u2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos antigos, como na \u00e9poca dos meus falecidos av\u00f3s, o flerte mais passional e quente poss\u00edvel era mandar mensagens atrav\u00e9s de cartas escritas a m\u00e3o para os interesses amorosos. Estas podiam ser rom\u00e2nticas, fr\u00edvolas, dram\u00e1ticas, n\u00e3o interessa, a espera era sempre a parte mais empolgante. 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