{"id":216,"date":"2026-04-24T09:57:42","date_gmt":"2026-04-24T12:57:42","guid":{"rendered":"http:\/\/o-berro-2025-1-39"},"modified":"2026-04-24T11:04:51","modified_gmt":"2026-04-24T14:04:51","slug":"maturidade-amor-e-arco-iris-como-a-terceira-idade-lgbtqia-esta-presente-nos-aplicativos-de-namoro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oberro.unicap.br\/edicoes\/2025_1\/?p=216","title":{"rendered":"Maturidade, amor e arco-\u00edris: como a terceira idade LGBTQIA+ est\u00e1 presente nos aplicativos de namoro"},"content":{"rendered":"<p>Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), estima-se que s\u00f3 em 2022, pelo menos 62% de pessoas com mais de 60 anos utilizam a internet. O que revela um aumento de pelo menos 24% de 2016 at\u00e9 agora, ano em que os idosos n\u00e3o usavam amplamente os meios digitais. Pessoas mais velhas, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o costumavam usar redes sociais al\u00e9m do Facebook e Whatsapp, ou n\u00e3o se interessavam por elas tanto assim.<\/p>\n<p>Em 2020, ap\u00f3s o forte aumento dos apps de namoro por conta do isolamento social da pandemia do covid-19, a presen\u00e7a significativa de senhoras e senhores em aplicativos para smartphone triplicou.<\/p>\n<p>Quando falamos sobre aplicativos de relacionamento, o aplicativo Happn divulgou que 1 em cada 3 idosos no Brasil j\u00e1 fez uso do app, ao menos 1 vez na vida. Os usu\u00e1rios +60 n\u00e3o s\u00e3o maioria no Happn, mas somente entre a terceira idade, j\u00e1 foram mais de 4 milh\u00f5es de curtidas em s\u00f3 um ano.<\/p>\n<p>Segundo a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade (PNS) em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) no ano de 2019 cerca de 2,9 milh\u00f5es de brasileiros acima dos 18 anos se identificavam como homossexuais, bissexuais, transg\u00eaneros ou demais identidades inclu\u00eddas no espectro da diversidade queer. Com a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica junto \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o dos apps de namoro, o p\u00fablico idoso Lgbtqia+ passou a explorar novas alternativas para se divertir, flertar e buscar novas companhias.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento de aplicativos para a categoria, como Daddyhunt, para homens gays mais velhos e admiradores; SilverSingles (que apesar de n\u00e3o ser exclusivamente gay, tem como maioria o p\u00fablico n\u00e3o-heterossexual) para usu\u00e1rios acima de 50 anos; Her, destinado a mulheres l\u00e9sbicas e bissexuais; Lex, para mulheres l\u00e9sbicas cisg\u00eanero (que se identificam com o g\u00eanero que foi atribu\u00eddo a ela quando nasceu) n\u00e3o-bin\u00e1rias e queer; assim como os populares Grindr e Scruff , conhecidos como as vers\u00f5es gay do Tinder, entre outros.<\/p>\n<p>Para J\u00falio Oliveira, 61 anos, ex-gerente de opera\u00e7\u00f5es aposentado e usu\u00e1rio do Tinder e Grindr, \u00e9 preciso cautela em todas as intera\u00e7\u00f5es virtuais: \u201cTem v\u00e1rios perfis fakes e s\u00f3 com uma foto \u2018perfeita demais\u2019. Quem n\u00e3o tem sa\u00fade emocional, cai f\u00e1cil. Homens solit\u00e1rios, divorciados, que ainda est\u00e3o \u2018dentro do arm\u00e1rio\u2019, ou at\u00e9 com muito tempo nas m\u00e3os&#8230;Como acabei namoro recentemente (ele namorava desde 2013 e terminou com o ex-parceiro em 2024), sou novo nos aplicativos. J\u00e1 tinha ouvido falar, mas n\u00e3o tinha entrado ainda. Em compara\u00e7\u00e3o ao Tinder, o Grindr \u00e9 exclusivo para homens gays, bissexuais e outros, por isso \u00e9 bem mais diverso, em quantidade. Mesmo sendo geralmente mais popular, tem poucas pessoas da minha idade no Tinder.\u201d<\/p>\n<p>Ele explica que ainda prefere conhecer parceiros ou interesses amorosos pessoalmente, sem apps, mas que n\u00e3o achou a experi\u00eancia negativa. \u201cUma coisa que percebi \u00e9 que l\u00e1 tem publicidade e advert\u00eancias sobre sexo seguro, camisinha e ter cuidado com quem vai se encontrar ou n\u00e3o. Tamb\u00e9m no pr\u00f3prio chat eles enviam alertar sobre n\u00e3o fazer transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias. Foi o \u00fanico app que j\u00e1 vi falando sobre isso.\u201d Questionado sobre o porqu\u00ea de preferir conhecer homens presencialmente, J\u00falio explica: \u201cNa minha \u00e9poca de jovem, n\u00f3s gays nos conhec\u00edamos por amigos em comum, ou namor\u00e1vamos ex-namorados de ex-namorados! Fica mias f\u00e1cil ter algo casualmente quando estou cara a cara com alg\u00faem.\u201d Brinca.<\/p>\n<p>J\u00falio tamb\u00e9m descreveu uma das intera\u00e7\u00f5es mais engra\u00e7adas que aconteceram no app: \u201cSempre tem um cara que chega nas mensagens dizendo: Estou s\u00f3 conhecendo o aplicativo, n\u00e3o sou gay. Eu tenho namorada. Cliquei sem querer! Para cima de moi? J\u00e1 sou vivido, meu amor\u201d, fala enquanto gargalha, enquanto mostrava os prints das fotos dos perfis dos homens que mais o divertiram.<\/p>\n<p>Ele continuou retratando detalhes sobre sua juventude: \u201cEm 1980, flert\u00e1vamos em bares \u2018GLS\u2019 e saunas. Nas saunas era algo mais \u2018casual\u2019, mas j\u00e1 vi amigos que se casaram com parceiros que conheceram em saunas. Boates como a Metr\u00f3pole e com shows de drag j\u00e1 existiam aqui, mas era mais comum em cidades como S\u00e3o Paulo e Rio. J\u00e1 hoje, Recife \u00e9 bem mais progressista do que antes, tem mais inclus\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o fica dif\u00edcil encontrar paqueras em qualquer local que voc\u00ea vai, como bar, restaurante etc. N\u00e3o sei se o \u00f3dio a gays est\u00e1 diminuindo, ou se as pessoas est\u00e3o \u2018mais tolerantes\u2019. Nos meus vinte anos, era tudo ainda meio escondido.\u201d<\/p>\n<p>Perguntado sobre se ele consideraria sair para um encontro com algum usu\u00e1rio\u00a0que conheceu, ele destaca: \u201cDei match com alguns interessantes. N\u00e3o que eu ache que algo s\u00e9rio v\u00e1 sair de l\u00e1, mas eles eram bonit\u00f5es, sarados; j\u00e1 os muito mais jovens, como os de 20 e poucos anos, s\u00f3 tiram fotos em espelho da academia. Conversei com alguns, mas o portugu\u00eas deles, nossa! As fotos podiam at\u00e9 dar tes\u00e3o, mas a conversa desanimava muito. Ri.<\/p>\n<p>Outro detalhe que J\u00falio adicionou \u00e9 que \u00e9 lotado de boys, g\u00edria para rapazes que fazem sexo por dinheiro: \u201cNada contra quem gosta de ser \u2018sugar baby\u2019. j\u00e1 tive a mesma idade. J\u00e1 que eu era mais afeminado, quase sempre me relacionava com homens mais velhos, mas alguns rapazes s\u00f3 de olhar j\u00e1 notamos que s\u00e3o mich\u00eas. Alguns colocam \u2018GP\u2019 na bio. Outros tentam \u2018fazer a educada\u2019 s\u00f3 para te oferecer o programa ap\u00f3s conversarem mais. Por enquanto, estou na fase de preferir ficar solteiro. Se eu quisesse arrumar um parceiro, teria que procurar mais! Isso por um lado \u00e9 ruim para homens mais velhos que realmente querem encontrar algu\u00e9m, que querem paquerar, porque homem \u00e9 mais f\u00edsico, nosso desejo \u00e9 imediato, o que dificulta conex\u00f5es mais sens\u00edveis.\u201d<\/p>\n<p>Como J\u00falio mencionou, o Grindr \u00e9 chamado por muitos de app da \u2018Uberiza\u00e7\u00e3o\u2019 da prostitui\u00e7\u00e3o masculina. O termo \u00e9 usado para descrever um trabalho informal, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas, como acontece com motoristas de Uber. Logo, neste caso, refere-se a uberiza\u00e7\u00e3o de trabalhadores sexuais no Grindr. N\u00e3o \u00e9 incomum que aplicativos de namoro em geral sejam um dos locais para ofertas de servi\u00e7os do tipo, mas a plataformiza\u00e7\u00e3o ilegal de servi\u00e7os e c\u00f3digos popularizadas pelos membros facilitaram para que viralizassem not\u00edcias sobre acontecimentos, tal qual golpes, viol\u00eancia f\u00edsica, pela falsa sensa\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o por estarem online, ao inv\u00e9s das ruas e extors\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2023, o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Portugal foi acionado quando um deputado municipal, Nuno Pardal, pagou por \u2018rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas\u2019 com um adolescente de 15 anos atrav\u00e9s do aplicativo, ap\u00f3s os pais do garoto descobrirem mensagens do filho entre o pol\u00edtico. Por conta dessa pol\u00eamica, o Grindr, lan\u00e7ado em 2009, foi obrigado a implementar medidas mais severas para verifica\u00e7\u00e3o de dados, como verifica\u00e7\u00e3o de idade, leitura facial, cookies de prote\u00e7\u00e3o, fiscaliza\u00e7\u00e3o de documentos oficiais e exclus\u00e3o de membros \u2018suspeitos\u2019.<\/p>\n<p>Os perigos cibern\u00e9ticos existem, mas ainda assim, apesar dos riscos, da homofobia, eles continuar\u00e3o resistindo. Mesmo ap\u00f3s terem que amar em segredo, enterrar amigos, tentarem ser calados, eles continuar\u00e3o conectando-se, vivendo. A liberdade de poder ir e vir, de entrar em um app&#8230; envelhecer sendo Lgbtqia+ \u00e9 hist\u00f3ria. Estes senhores e senhoras de idade avan\u00e7ada n\u00e3o s\u00e3o o passado. Eles fizeram o futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), estima-se que s\u00f3 em 2022, pelo menos 62% de pessoas com mais de 60 anos utilizam a internet. O que revela um aumento de pelo menos 24% de 2016 at\u00e9 agora, ano em que os idosos n\u00e3o usavam amplamente os meios digitais. 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